"Polícia parece receber ordens para não investigar"
18 de outubro de 2025
Já não é estranho o silêncio da polícia moçambicana em não esclarecer crimes que ceifam vidas a figuras críticas ao regime e aos que são brutalmente agredidos. São vários - desde o assassinato do constitucionalista Gilles Cistac, em 2015, incluindo o fogo posto no jornal Canal de Moçambique.
O criminologista José Capassura não duvida que a Procuradoria-Geral da República (PGR) poderá arquivar os autos do assassinato de Elvino Dias e Paulo Guambe, acontecidos a 19 de outubro de 2024.
Capassura sustenta que a PGR deverá justificar a sua posição com a falta de provas para encontrar os assassinos dos dois cidadãos.
"Não porque não existam - até porque as armas utilizadas já traduzem estes elementos e, acima de tudo, os vestígios que foram deixados no local do fato já são suficientes para construir a ponte entre o crime e os respetivos agentes", disse.
O especialista em criminologia aponta igualmente a existência de câmaras de videovigilância no local, que podiam ter esclarecido o crime em pouco tempo.
Câmaras de segurança
"As câmaras de segurança não podem simplesmente parar de funcionar de forma conveniente. Quando se trata de descobrir a verdade material, elas não funcionam. Mas, noutras ocasiões -como para identificar se não há qualquer tipo de ligação com a polícia -, então funcionam. Há, portanto, um grande paradoxo", criticou.
O jornalista e analista Alexandre Chiure lembra que existe um laboratório da criminalística devidamente equipado que já poderia ter esclarecido o duplo assassinato em tempo útil.
"Quando a polícia quer investigar, ela investiga e encontra os criminosos. Mas quando falta algum apoio político, não faz e alguns crimes não são esclarecidos", argumenta.
Chiure recorda um roubo sofrido por uma figura destacada da polícia em Sofala, cujo crime foi rapidamente esclarecido.
"E ele disse: quero os meus bens de volta. E a polícia foi lá buscar e prendeu os 'homens'. Para dizer que quando quer investigar, [a polícia] investiga", disse.
"Até parece que recebem alguma ordem para não fazer algum tipo de investigação", acrescentou.
Na altura do assassinato de Elvino Dias, a polícia alegou razões passionais - o que foi duramente criticado pelos diversos círculos sociais de Moçambique.
Um ano após as mortes, a associação portuguesa ProPública lamentou este sábado (17.10) a falta de responsabilização do homicídio do advogado moçambicano Elvino Dias, que vitimou, em Maputo, também Paulo Guambe - ambos então apoiantes do candidato presidencial Venâncio Mondlane.
A associação portuguesa de Direito e Cidadania anunciou em maio passado a atribuição, a título póstumo, a Elvino Dias, do prémio Nelson Mandela 2025 pelo seu trabalho em Moçambique, pela sua carreira como advogado.
Já a Ordem dos Advogados de Moçambique (OAM) anunciou uma concentração para a próxima segunda-feira (19.10) no local do homicídio do advogado Dias, em outubro de 2024, seguindo-se um debate em memória do defensor.