Cólera: "Todos devem vacinar", apela Ministério da Saúde
4 de fevereiro de 2026
Moçambique registou um total de 3.867 casos de cólera e 59 óbitos desde o início deste surto, em setembro, segundo dados de boletins oficiais.
Nesta quarta-feira (04.02), o Ministério da Saúde inicia a campanha de vacinação que irá abranger inicialmente quatro províncias.
Em entrevista à DW, o chefe de departamento de vigilância em Saúde do Ministério da Saúde de Moçambique revela que a prioridade da imunização são as áreas de risco e a adoção de medidas de prevenção, estando prevista ainda uma segunda etapa para a vacinação.
Gildo Nhangave apela à população que adote as medidas de prevenção e adira em massa à vacinação.
DW África: Moçambique está a registar um aumento nos casos de cólera. Qual a situação atual?
Gildo Nhangave (GN): Nos últimos dias, o número de casos aumentou, mas também temos aumento de distritos que reportam casos, portanto, casos novos da doença. Já há algumas semanas, tínhamos doentes em apenas três províncias, mas neste momento estamos com cinco províncias.
Ainda não estamos em fase de controle da doença, portanto, registram-se novos focos em outras províncias do país.
DW África: Qual será a abrangência da campanha de vacinação que inicia hoje em quatro províncias?
GN: Esta campanha vai abranger as províncias de Cabo Delgado, nos distritos de Metuge e Pemba e a província de Niassa, no distrito de Lago. Na Zambézia, vamos vacinar no distrito de Quelimane. E em Sofala, vamos vacinar na cidade da Beira. Vamos priorizar as áreas de risco que ainda não estejam a registrar casos e vamos priorizar as outras medidas de prevenção em outras áreas que não forem abrangidas pela vacinação.
Na segunda etapa, além dos distritos que aqui mencionei, vamos incluir os distritos, tanto de Moatize, na província de Tete, a cidade de Tete, e o distrito de Eráti, na província de Nampula.
Esta vacina é segura e todos aqueles que têm idade igual ou superior a um ano e devem vacinar para prevenir-se da cólera.
DW África: Como é que a situação das cheias e das chuvas agrava o alastramento da cólera?
GN: Neste momento, registramos cólera em províncias que não são aquelas que foram afetadas pela situação das cheias. Como sabe, mesmo antes desta situação das cheias, o nosso país já vinha registrando casos de cólera em algumas províncias.
Nas províncias do Sul, nomeadamente Maputo cidade, província de Gaza, que são as que foram severamente afetadas pelas cheias, nós estamos a fazer a vigilância ativa. Neste momento, as nossas análises ainda não mostram a ocorrência de surtos.
DW África: O epicentro é a província de Tete, no centro do país, com uma taxa de letalidade em 1,8%, face à taxa nacional que subiu para 1,5%. O que é que está a causar o aumento dos óbitos?
GN: Só para elucidar, em termos de 59 óbitos que foram registados até o momento, 42 são comunitários. O que revela, portanto, que os pacientes não chegam às unidades sanitárias em tempo oportuno, em tempo de serem atendidos e, portanto, recuperados. Para reverter esta situação, temos equipes que estão a trabalhar nessas áreas, de modo a sensibilizar este grupo especial, sobretudo para que, logo que apareceram os primeiros sinais da doença, dirijam-se imediatamente para as unidades sanitárias mais próximas.
DW África: A cólera é descrita pelo próprio Ministério da Saúde como uma doença recorrente na época chuvosa. Porque continua a ser um problema estrutural no país?
GN: A ocorrência de cheias é um dos fatores que podem precipitar a ocorrência de surtos, sobretudo em zonas rurais. Para situações em que não se obedece a questão do tratamento da água para o consumo, não se obedece ao cuidado com os alimentos, há aqui um risco acrescido para a ocorrência de surtos desta doença.
DW África: E relativamente à instabilidade e aos deslocamentos que acontecem dentro do país, isso dificulta o controlo da doença?
GN: Não tenho detalhes sobre a questão de segurança, mas até o momento não temos estado a ter grandes dificuldades para trabalhar, sobretudo por causa desta situação humanitária a que se refere.