Ex-guerrilheiros da RENAMO prometem derrubar Momade
7 de outubro de 2025
Os ex-guerrilheiros da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) disseram hoje que o conselho nacional, marcado para 16 de outubro, vai decorrer "depois do leite derramado" e prometeram forçar a saída de Ossufo Momade da liderança do partido.
"A comissão política aparenta ser inconsequente, pois não faz sentido que pessoas comprometidas com o bom nome do partido só hoje é que aparecem para tomar a decisão para a realização do conselho nacional, depois do leite derramado", disse João Machava, porta-voz do grupo de antigos guerrilheiros desmobilizados da RENAMO, em conferência de imprensa, na província de Maputo.
Conselho da RENAMO “é fantochada”
Na sexta-feira, a comissão política da RENAMO marcou para 16 de outubro o conselho nacional, seis meses após o adiamento anterior, quando a liderança do presidente, Ossufo Momade, é contestada.
No encontro, a ser realizado na província de Nampula, no norte de Moçambique, o partido deverá discutir a situação política interna, avançou Saide Fidel, membro da comissão política, após uma reunião do órgão, em Maputo, referindo que o debate "poderá determinar a solução" dos "problemas da organização".
Os ex-guerrilheiros consideram "uma fantochada" a realização do conselho nacional da RENAMO, adiado em março, referindo que "não passa de uma manobra dilatória" para manter Momade na presidência do partido.
"A reunião do conselho nacional agora convocada não passa de uma fantochada. Queremos terminar convocando o triplo dos membros que fizeram parte da conferência nacional de Manica para fazermos parte deste conselho nacional, para que de uma vez por todas resolvamos o problema da liderança e restaurar a tranquilidade, harmonia e o bom ambiente de trabalho no seio do partido", disse o porta-voz.
O grupo, que antes tomou a sede da RENAMO na capital moçambicana, afirmou não ter sido convidado para a reunião do partido, prometendo seguir, ainda assim, para Nampula para resolver o problema "de uma vez por todas".
"Alguém que, mesmo não sendo mais líder da oposição, continua a usar escritórios e vive na casa arrendada em nome do líder da oposição. Este tipo de pessoa não pode mais liderar o nosso partido", disse Machava.
Os antigos guerrilheiros alertaram que nenhuma tentativa de os barrar à porta do conselho nacional poderá surtir efeito e garantiram que vão recorrer à força para obrigar Ossufo Momade a abandonar a liderança da RENAMO.
"A sala do conselho nacional é o local próprio para resolver todos os problemas. Dentro da sala pode-se bater, insultar, então lá hão-de sair algumas decisões definitivas", referiu João Machava.
RENAMO dividida
A RENAMO perdeu o estatuto da segunda força política mais votada nas eleições gerais de 09 de outubro de 2024, passando de 60 deputados, nas legislativas de 2019, para 28. Desde então, cresceu uma onda de contestação ao atual líder do partido, com ex-guerrilheiros a encerrarem sedes e delegações, com exigências de realização de um Conselho Nacional.
O partido chegou a anunciar a realização do primeiro Conselho Nacional de 2025 - estatutariamente tem de organizar dois por ano - em 07 e 08 de março, que foi depois adiado, sem nova data. A direção da RENAMO já reconheceu a obrigatoriedade de realizar dois conselhos nacionais por ano, mas afirma que não é obrigatório que aconteçam em semestres diferentes.
O presidente da RENAMO é também acusado de alegada "má gestão", falta de pagamento de pensões e subsídios e de "incompetência total" face à crise no partido.
Ossufo Momade assumiu a presidência da RENAMO em janeiro de 2019, após a morte de Afonso Dhlakama (1953 --2018), e foi reeleito para o cargo em maio de 2024, num processo fortemente contestado internamente.
O líder daquela formação política foi candidato presidencial nas últimas eleições, obtendo 6% dos votos, o pior resultado de um candidato apoiado pelo partido, principal força de oposição em Moçambique desde as primeiras eleições em 1994.