1. Ir para o conteúdo
  2. Ir para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW

EUA-África: Washington "negligenciou presença no continente"

13 de dezembro de 2022

À DW, o analista Herlander Napoleão afirma que cimeira EUA-África é "muito importante" e que os EUA vão tentar "reverter esta tendência". Casa Branca já anunciou um investimento de 55 mil milhões de euros para África.

https://p.dw.com/p/4Kst1
Secretário de Estado norte-americano, Antony BlinkenFoto: Saul Loeb/AFP

Arrancou, esta terça-feira (13.12), na capital norte-americana a Cimeira EUA-África, que reúne em Washington 49 chefes de Estado africanos além do presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat.

Na véspera do encontro, a Casa Branca anunciou que os EUA "destinarão 55 mil milhões de euros para África" nos próximos três anos. A informação foi divulgada por Jake Sullivan, assessor de segurança nacional do Presidente Joe Biden, que acrescentou que os fundos serão destinados à área da saúde e para a resposta às mudanças climáticas.

Remetendo mais detalhes para os próximos dias, a Casa Branca disse ainda que, destes 55 mil milhões de euros, 4 mil milhões serão investidos, até ao final de 2025, na formação de profissionais de saúde no continente.

Durante os três dias da Cimeira estarão em cima da mesa temas como investimento, as consequências da pandemia da Covid-19, mudanças climáticas, segurança e impacto da invasão russa da Ucrânia no continente. Aos jornalistas, Jake Sullivan garantiu que este encontro será "sobre o que os EUA podem oferecer" a África.

Questionado sobre a importância desta cimeira no panorama atual, o analista angolano Herlander Napoleão diz à DW que os EUA "negligenciaram" a sua presença em África, abrindo caminho para a crescente influência russa e chinesa no continente. Algo que, segundo Napoleão, Washington está agora a procurar "inverter".

DW África: O que esperar da Cimeira EUA - África que arrancou hoje em Washington?

Herlander Napoleão (HN): É uma cimeira bastante importante, tendo em conta o histórico de relações existentes no continente africano. Os americanos têm os seus parceiros tradicionais, nomeadamente a África do Sul, a Etiópia, a Nigéria e também o Senegal. Angola, por causa do contexto histórico e político que viveu, privilegiou relações com a antiga União Soviética, muito por conta da venda de armamento e de algum expertise militar. Mas enfim, o mundo mudou e, hoje em dia, os americanos também percebem que, ao longo desses anos, foram perdendo muito espaço e terreno privilegiado que tinham no continente africano. Surgiram novos players, neste caso a China, que é o maior credor do continente africano. Neste sentido, os americanos pretendem inverter esta tendência. Esta cimeira é importante porque tem pontos essenciais que se referem ao engajamento económico para reforçar as parcerias entre a América e o continente africano; consolidação da democracia; direitos africanos. Vai-se falar inevitavelmente do impacto da pandemia da Covid- 19 e estabelecer algumas parcerias também no âmbito da saúde e de produção de medicamentos e vacinas.

USA Washington | USA-Afrika-Gipfel | Ankunft Macky Sall, Präsident Senegal
Chegada aos EUA do Presidente do Senegal, Macky Sall, que é um dos 48 chefes de Estado africanos presentes nesta cimeiraFoto: Mandel Ngan/AFP/Getty Images

DW África: Tanto a China como a Rússia têm hoje uma forte presença e influência em África. Considera que os EUA estão a despertar tarde para o potencial do continente?

HN: Eu não diria que despertaram tarde. Os americanos têm uma presença muito mais marcante e estão há muito mais tempo no continente africano do que está a China. Mas aqui a grande questão é que os investimentos americanos, no caso, eram predominantemente virados para áreas específicas, nomeadamente o petróleo. Já as parcerias chinesas são mais variadas e [incidem mais] na reconstrução de portos, estradas, tudo o que é infraestrutura, sobretudo na zona da África subsaariana. Penso que os americanos "adormeceram", digamos assim, e foram negligenciando a sua presença no continente africano. Os africanos, como países soberanos, foram-se inclinando para outros países e outras tendências, nomeadamente a Rússia, que é o maior exportador de armamento para o continente. E estas relações foram-se diversificando para outras áreas.

DW África: De que forma é que África poderá tirar partido, junto dos EUA, face à presença da China e da Rússia, que provavelmente não é vista com bons olhos pelos EUA?

HN: Tanto os russos como os americanos já têm enviado sinais que os países africanos devem escolher de que lado é que pretendem estar. Há seis meses, os americanos deram um sinal claro a Angola [com o anúncio] de um apoio que rondará os 6 mil milhões de dólares para fomento de energias limpas e alternativas. Isto, no fundo, é querer dizer que apostam e acreditam numa nova Angola, mas é preciso que se eliminem alguns hábitos relacionados com o outro lado, que tem visões completamente antagónicas - neste caso, a Rússia. Os países africanos  soberanos têm o direito de escolher com quem devem negociar, mas é preciso entender que, no mundo da política internacional, por vezes há alianças que podem ser perigosas e venenosas, e os países nem sempre encaram isso de ânimo leve.

DW África: O continente enfrenta grandes desafios relativamente à segurança. Qual poderá ser o papel dos EUA nesse quesito?

HN: Já existem algumas bases americanas no continente africano. Tem existido algum apoio direto a alguns Estados, nomeadamente à Somália, Nigéria e ao Quénia. Mas também há fornecimento de muita tecnologia, desde "drones" a equipamento militar. Portanto, penso que há um leque de informação que os americanos dispõem que pode efetivamente ser muito útil para esta parceria EUA-África.

Neste sentido, penso que há planos que estão em curso. Mas é preciso que haja mais formação local, sobretudo [relacionada com a] Internet. [É preciso] que a juventude esteja mais ligada às novas tecnologias para que possamos ter, por exemplo, satélites construídos em Angola ou em África. Sei que há muitos países africanos que já fazem isso mas, por exemplo, nós, angolanos, gastámos 300 milhões de dólares num satélite que desapareceu. Esse tipo de conhecimento, de informação, também é segurança. E isso sim, deve ser o investimento em que os africanos devem apostar para que tenhamos um continente coeso e para que consigamos inverter esta pirâmide de sermos um continente rico, mas empobrecido. 

Macron e Lavrov em África: Nova "guerra fria" no continente?