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Ataque em Nhamapaza é estratégia para "sujar" a RENAMO?

10 de abril de 2025

A "Junta Militar" da RENAMO nega envolvimento no ataque contra viaturas na região de Nhamapaza, em Sofala. Suspeita que seja estratégia para sujar a imagem do partido. O ato só beneficiaria o partido no poder, a FRELIMO.

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André Matsangaíssa Júnior, da "Junta Militar" da RENAMO
André Matsangaíssa Júnior, porta-voz da "Junta Milita" da RENAMO, nega envolvimento do seu grupo no ataque em Nhamapaza, esta semanaFoto: DW/A. Sebastiao

Após o ataque de homens armados contra viaturas na região de Nhamapaza, no distrito de Maríngue, província de Sofala, no centro de Moçambique, várias correntes relacionaram o ato às reclamações dos ex-guerrilheiros da RENAMO e da chamada "Junta Militar" do partido, que exigem o pagamento das suas pensões.

Mas os membros da Junta negam a autoria dos ataques. André Matsangaíssa Júnior, porta-voz do grupo, esclarece que, apesar de não receberem as suas pensões no âmbito do processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR), "nenhum dos seus homens está nas matas para reivindicar os seus valores monetários".

Em entrevista à DW, Matsangaíssa Júnior lança a suspeita de que esse ataque possa ser uma estratégia para tentar sujar a imagem da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO", dos seus desmobilizados e da "Junta Militar". E isso, segundo o porta-voz da Junta, só beneficia um ator: o partido no poder, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO).

A polícia moçambicana disse que decorrem trabalhos de investigação para identificar os autores do ataque de terça-feira e apurar as respetivas motivações. A RENAMO distanciou-se do ataque. A DW tentou ouvir a FRELIMO, sem sucesso.

DW África: Membros da ex-Junta da RENAMO têm denunciado alegados incumprimentos do DDR. O que está realmente a acontecer? Não estão a receber as vossas pensões?   

André Matsangaíssa Júnior (AMJ): Até hoje, não estamos a receber. Se alguém disser na televisão que todos receberam, é uma pura mentira. A verdade é isso que vocês estão a ver. Fomos desmobilizados da RENAMO, mentiram-nos, fomos traídos por Ossufo Momade, pelo seu amigo Filipe Nyusi e pelo Grupo de Contacto das Nações Unidas.

Qual é o objetivo da FRELIMO agora? É não pagar aos desmobilizados, criar problemas Moçambique, começar a disparar, viver dentro da guerra, porque, com guerra em Moçambique, a FRELIMO tem dinheiro. A FRELIMO tem financiamento e tem apoio. Sem guerra, ela não tem como.

O objetivo que eles têm é [continuar a não pagar] aos homens armados da RENAMO, para que, qualquer dia, eles voltem às matas.  Nós já percebemos isso e ninguém da Junta, nem da RENAMO, nem o Matsangaíssa Júnior, irá voltar às matas. O plano é escrever uma comunicação de manifestação para um dia entrar nas cidades para marchar.

Escolta militar em Sofala, em agosto de 2013
Sete viaturas foram incendiadas por homens armados no troço Caia-Nhamapaza em SofalaFoto: DW/E. Valoi

DW África: Quando dizem que querem começar a marchar, o que significa isso exatamente?

AMJ: Nós não queremos fazer greve, queremos marchar dentro da cidade. 

DW África: Que tipo de marcha será?

AMJ: Será uma marcha pacífica. Vamos escrever, para estamos acompanhando pela polícia. Vamos marchar com os nossos cartazes para dizer que Moçambique não está bem.

DW África: Esta semana, houve um ataque na região de Nhamapaza e algumas pessoas relacionam isso ao descontentamento dos desmobilizados da RENAMO. Teve alguma relação ou não?

AMJ: Não tem. A RENAMO não está apta para entrar nas matas para disparar.

Deslocados dos ataques armados em Sofala

DW África: Nem mesmo a "Junta Militar"?

AMJ: Ninguém, nem a Junta Militar, incluindo os desmobilizados da RENAMO. O que eles querem agora, em primeiro lugar, é reivindicar o dinheiro, nas ruas, para mostrar ao país e ao mundo o seu descontentamento. Esse assunto de Nhamapaza  é um assunto da FRELIMO contra a FRELIMO.

DW África: O que quer dizer com isso?

AMJ: Os desmobilizados repudiam a liderança de Ossufo Momade [na RENAMO]. Na FRELIMO também há problemas, e eles querem atirar para a RENAMO. Filipe Nyusi queria continuar um terceiro mandato, mas algumas pessoas na FRELIMO negaram. Agora, eles devem se resolver entre eles sem mexer na Junta e na RENAMO. 

DW África: Está a dizer, por outras palavras, que o que se passou é um ataque para fazer aproveitamento político?

AMJ: Exatamente, querem sujar a imagem do André Matsangaíssa Júnior, da RENAMO e dos seus desmobilizados. Neste momento, não há nenhum homem armado da RENAMO nas matas para reivindicar os seus valores. Nós vamos reivindicar os nossos valores monetários nas cidades. Vamos passear dentro da cidade, com conhecimento do Governo, para nos acompanhar. Se depois o Governo não responder, ainda temos outra alternativa dentro da cidade. Mas [poderá chegar] a vez em que nós vamos declarar que "agora, já que o Governo não nos reconhece, nós vamos voltar às matas". Mas com que poderíamos disparar?