Artemísia: A nova esperança para a erradicação da malária? | Internacional – Alemanha, Europa, África | DW | 31.07.2018
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Internacional

Artemísia: A nova esperança para a erradicação da malária?

Um arbusto vindo da China está a dar que falar na comunidade médica, dividida quanto à forma de combater a malária. A artemísia poderá ter um papel-chave como um medicamento natural e mais acessível contra a doença.

Em 2015, cerca de 429 mil pessoas morreram com malária num total de 212 milhões de casos registados em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Embora todos estejam de acordo quanto à necessidade de erradicar a malária, a comunidade médica está dividida sobre como é que isto deve ser feito.

Um arbusto vindo da China está a agitar as águas. Já utilizada na base de tratamentos contra a malária, a planta Artemisia Annua também se revela eficaz quando as suas folhas são usadas para fazer chá.

Uma rede internacional de cientistas e médicos ligados à associação francesa "La Maison de l'Artemisia" ("A Casa da Artemísia") tenta há alguns anos divulgar a planta como um remédio natural, mais acessível do que produtos farmacêuticos, no combate à malária.

Um chá anti-malária

Cada saco de chá produzido pela organização não-governamental francesa contém 1,7 gramas de Artemisia Annua, suficientes para fazer uma chávena. 

"Quando tomas três chávenas por dia para curar a malária, estás a tomar 5,1 gramas, pouco mais de 5, o que é bom. É melhor tomar a mais do que a menos", diz Pierre Van Damme, um engenheiro agrícola belga que trabalha para "A Casa da Artemísia" em Dakar, no Senegal.

As vantagens são muitas, diz: "Com a artemísia, temos a certeza de que, dois dias depois, a febre baixou. Quatro dias depois, já não há mais sinais de malária. Sete dias depois, os parasitas que se alojaram no fígado desapareceram por completo."

Malaria Senegal

Pierre Van Damme faz sacos de chá com folhas secas de artemísia

Apesar de os testes rápidos de diagnóstico de malária estarem disponíveis há vários anos, o tratamento desadequado ainda é comum em África.

Pessoas que não têm malária tomam medicamentos antimaláricos sem necessidade - por exemplo, quando têm sintomas semelhantes aos da doença, como a febre.

Há vários anos que o tratamento da malária em África se baseia em medicamentos como a cloroquina e a sulfadoxina, combinadas com a pirimetamina e o quinino. Mas, devido ao uso em excesso, desenvolveu-se uma resistência a alguns destes medicamentos, e foi preciso encontrar novos tratamentos. Atualmente, recomenda-se a utilização de terapias combinadas com base em artemisinina no combate à malária - tratamentos que não são baratos.

A artemisinina vem da artemísia, e um número crescente de cientistas, profissionais de saúde e investigadores como Van Damme acreditam que usar a folha inteira da artemísia - e não apenas um extracto - poderia ter um papel-chave na erradicação da malária.

"Recomendamos o uso da planta inteira, porque está provado que a planta como um todo, com as suas 200 substâncias ativas que trabalham em sinergia, combate todos os parasitas encontrados no sangue, entre eles a malária", explica Pierre Van Damme.

Dúvidas persistem

Há vários anos que as empresas farmacêuticas usam a artemisinina para produzir medicação antimalárica. Em 2015, um investigador chinês venceu o prémio Nobel da medicina pela redescoberta dos benefícios da planta, que há anos é usada na medicina tradicional chinesa. No entanto, a OMS alerta para a utilização exclusiva da planta apenas como um medicamento natural.

Ouvir o áudio 03:41

Artemísia: A nova esperança para a erradicação da malária?

Desde 2000, a taxa de mortalidade por malária diminuiu 60% em todo o mundo, segundo a OMS. No Senegal, há menos de 300 mil pacientes de malária atualmente, comparando com 700 mil, há dez anos. Alioune Gueye, do Programa Nacional de Controlo da Malária, diz que isto se deve à política nacional de distribuição gratuita de medicamentos e redes mosquiteiras.

"Se hoje em dia o Senegal está à beira da pré-eliminação da doença, é porque as ferramentas que usamos há 15 ou 20 anos são claramente eficazes", afirma.

Quanto ao uso da artemísia no tratamento da malária, o médico ainda tem algumas dúvidas: "É uma planta que tem virtudes, mas trata-se de saúde pública e, no Senegal, temos uma população de 14 milhões de pessoas. Os riscos são significativos, por isso temos de garantir a segurança destes produtos antes de os distribuirmos à escala nacional".

Artemísia já cresce em África

A Artemisia Annua não cresce naturalmente em África, mas a sua "prima", a Artemisia Afra, sim. No entanto, a variante africana tem outras substâncias ativas.

Malaria Senegal

Karim Sankaré cuida das plantas de artemísia na plantação de Tiavaoune

"A Casa da Artemísia", que já está presente em 31 países africanos, usa as folhas inteiras das duas plantas nos seus sacos de chá, e planta as duas variantes em Tivaouane, a norte de Dakar. 

Karim Sankaré é agrónomo e, juntamente com dois colegas, toma conta do terreno de quatro hectares, onde são plantadas cerca de 8 mil plantas, no total: "As propriedades medicinais estão principalmente nas folhas. As sementes são colhidas para termos plantas na próxima época", explica. As plantas crescem rapidamente, diz Karim. Quando atingem 1,20 metros de altura, são colhidas.

A folha de artemísia seca já curou pessoas com malária, segundo um estudo levado a cabo no Congo e nos Estados Unidos, em 2017. Após beberem o chá, 18 pessoas que sofriam de malária grave foram curadas, depois de os medicamentos comuns terem falhado. Desde então, o gabinete da OMS em Brazzaville decidiu estudar as possibilidades desta planta chinesa e da variante africana que cresce no continente.

Uma planta em vez de agulhas

A irmã Marie Emilie Diouf, parteira de formação, dirige o centro católico de saúde em Popenguine, uma aldeia nos arredores de Dakar. Começou a prescrever artemísia para tratar a malária há três anos, depois de uma formação sobre plantas medicinais.

Malaria Senegal

Marie Emilie Diouf prepara um medicamento natural com artemísia

As plantas revelaram-se mais eficazes do que as terapias combinadas baseadas em artemisinina. "Apercebi-me de que, com todos os pacientes que tratei, não usei quinino ou terapias combinadas. Usei artemísia e não precisei de fazer nenhuma infusão", conta.

O quinino é geralmente utilizado quando há suspeitas de resistência à cloroquina, um medicamento usado para tratar ou prevenir a malária, e é administrado por infusão intra-venosa, durante quatro horas. Mas alguns pacientes não queriam ser picados com agulhas, e, noutras ocasiões, o centro de saúde estava sobrelotado.

Os pacientes iam ter com a irmã Emilie para fazer perguntas sobre a planta e a irmã acabou por perceber que estava a usar apenas artemísia para os tratar, apesar de ter medicamentos disponíveis: "Acabei por devolver as terapias combinadas que, suponho, são derivadas da artemísia. Para mim, é melhor usar a planta inteira", afirma.

Um impulso para a erradicação?

Ciente de que as pessoas preferem muitas vezes um tratamento natural ou tradicional, o médicoAlioune Gueye diz que o Programa Nacional de Controlo da Malária dá algumas instruções aos curandeiros tradicionais sobre a melhor forma de tratamento.

"Tentamos ter uma colaboração franca com os curandeiros, para que, se estiverem assoberbados ou não tiverem as ferramentas necessárias, reencaminhem os pacientes para as unidades de saúde apropriadas", explica.

O Senegal está a trabalhar para erradicar a malária até 2030. Muito graças aos significativos apoios do Fundo Global - uma parceria entre governos, sociedade civil e o setor privado. Em janeiro, o Senegal recebeu 32 milhões para o combate à malária nos próximos dois anos.

Ainda que os medicamentos estejam disponíveis de foram gratuita no país, aceder aos tratamentos pode levar algum tempo nas localidades mais remotas, ou se os centros de saúde estiverem sobrelotados.A vantagem da artemísia é que pode ser plantada em qualquer lado e as suas folhas secas podem ser usadas como um medicamento natural eficaz.

Com mais investigações a decorrer, os resultados positivos revelados até agora sugerem que a milenar erva chinesa pode impulsionar a erradicação da malária no Senegal. Noutros país afetados pela doença, como o Congo, o Benim e o Burkina Faso, algumas comunidades já estão a optar pelos medicamentos naturais, como a artemísia.

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