Surto de cólera em Guro: Doença evitável continua a matar
11 de fevereiro de 2026
Atualmente, o único local onde o surto de cólera está ativo na província de Manica, no centro de Moçambique, é o distrito de Guro, onde duas pessoas morreram, dos 57 casos ativos notificados até esta segunda-feira (09.02).
O número de óbitos corresponde a uma taxa de letalidade na ordem de 3,5%, devido à chegada tardia às unidades sanitárias para cuidados médicos associados às complicações da doença.
Segundo o médico chefe provincial Flávio Roque, as autoridades estão a desenvolver trabalhos de intensificação da investigação e a seguir os casos, sobretudo contactos de pessoas, visando eliminar a propagação do vibrião colérico.
"Estamos a fazer testagem dos casos suspeitos usando massivamente os testes de diagnóstico rápido de cólera em todas unidades sanitárias ao nível da província. Continuamos a fazer aquilo que é o refrescamento em sessões clínicas aos profissionais, em matérias de vigilância, manejo de casos e colheita de amostras nas unidades sanitárias ao nível do distrito para laboratório de saúde pública", explicou.
As autoridades da saúde na província destacam como fatores predisponentes à cólera o consumo de água não tratada ou contaminada, saneamento básico precário e higiene pessoal inadequada. Outros riscos são a partilha da mesma cabana durante o repouso noturno de mais de três pessoas e a inexistência de latrinas nos povoados de exploração mineira de Dewa, Tondotsuca e Samora Machel.
Combater desinformação sobre a coléra
Segundo o médico, o setor da saúde está a desenvolver um trabalho nas aldeias com vista a monitorizar os rumores e acabar com a desinformação de ideias erradas que se tem em relação à cólera.
"Porque a maioria dessa população pensa que cólera quem transmite são os próprios profissionais de saúde, confundem quando nós distribuímos cloro para tratar as águas consumidas ou para tratar água para ser própria para consumo, eles acham que o próprio cloro é que pode criar a transmissão de cólera. O que nós estamos a fazer é contrariar as ideias erradas", explica Flávio Roque.
As autoridades apelam que as comunidades sigam as regras básicas de prevenção das doenças diarreicas agudas, devendo lavar sempre as mãos com água limpa e sabão, antes e depois de comer qualquer tipo de alimentos e depois de utilizar a latrina, além do combate ao fecalismo a céu aberto.
Zulmira António, moradora de Guro, conta que, antes de se declarar o surto de cólera, a população pensava que se tratava de doenças diarreicas por causa da água consumida naquele distrito, principalmente nas regiões onde eclodiu o surto.
"Nós pensávamos que fosse diarreias agudas apenas. Estamos a passar mal com essas diarréias. Mas agora ficamos a saber que se trata de cólera. Assim já estamos a nos precaver contra essa doença. Quando isso começou muitos ficaram internados nas tendas. Queremos que o governo nos ajude a encontrar solução de acabar com essa doença", disse.
"A cólera é uma doença evitável"
O analista Kelly Mwenda diz não fazer sentido que em pleno século XXI o país esteja na precariedade de gerir uma doença evitável como a cólera, pois existem países que a doença deixou de ser um problema para a saúde pública.
"A cólera é uma doença evitável. Existem países onde essa doença deixou de ser um problema, porque esses países sempre investiram seriamente em saneamento, educação sanitária, comunicação preventiva, não apenas com campanhas pontuais como o nosso caso - quando há um surto, aí já vamos para campanhas pontuais", exemplifica.
O analista defende ainda que Moçambique deve "investir na comunicação de forma continua e na educação das próprias comunidades".