Notícias falsas dificultam resposta ao coronavírus em África | Internacional – Alemanha, Europa, África | DW | 24.03.2020
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Fake news

Notícias falsas dificultam resposta ao coronavírus em África

O clima quente mata o coronavírus? Esta e outras notícias falsas estão a atrapalhar a resposta à pandemia da Covid-19. Correspondentes da DW em África pediram a especialistas para desfazerem alguns mitos perigosos.

Fracos sistemas de saúde pública, cidades superlotadas e altos níveis de pobreza são uma combinação de fatores que dá ao coronavírus uma base fértil para causar estragos.

Um pouco por todo o continente africano, os países já estão a tomar medidas de precaução para conter a propagação do vírus - restrições várias, encerramento de espaços públicos ou até das fronteiras - mas nenhum governo consegue impedir a disseminação de notícias falsas. À medida que a pandemia ganha terreno, cresce também a onda de informações erradasou de curas e conselhos sem fundamento. Os especialistas de saúde pedem cautela.

África Oriental no limite

O Instituto de Investigação de Vírus do Uganda está em alerta máximo. O diretor, o professor Pontian Kaleebu, sabe que o rastreamento é crucial para travar o novo coronavírus. "Quanto mais pessoas de sítios infetados viajarem, mais casos vão surgir", constatou à DW.

Uma teoria popular é que o clima geralmente quente de África desacelera a propagação do vírus, mas ainda é muito cedo para afirmar se o clima desempenha algum papel. "Não temos casos suficientes para dizer que em África há menos transmissões. O melhor é assumir que o vírus pode ser transmitido por africanos em África", alerta Kaleebu.

Assistir ao vídeo 03:09

Coronavírus: Como se proteger a si e aos outros

Outra teoria: como a população vive maioritariamente em zonas rurais, a pandemia propaga-se mais lentamente. Isto pode ser verdade, de acordo com Kaleebu: "Viver em cidades grandes e sobrelotadas é um risco maior porque a probabilidade de contágio é maior, assim como a de transmitir o vírus a outras pessoas".

Um boato que circula no Uganda é que as roupas em segunda mão importadas podem propagar o coronavírus. Elizabeth Kiracho, diretora de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade Makerere, esclarece que a transmissão só pode acontecer se as pessoas que vendem as roupas estiverem infetadas. "O vírus só se propaga num número limitado de horas. Quando as roupas chegam ao destino, elas já não terão o vírus. Contudo, é preciso assegurar que usamos sempre desinfetantes", diz Kiracho.

Epicentro do coronavírus em África

A maioria dos 54 países da África já registou casos do novo coronavírus. A África do Sul tem de longe o número mais alto. Até agora, são mais de 400 casos detedados. Os primeiros foram atribuídos a pessoas que regressavam da Europa, mas agora a África do Sul já registou transmissões locais.

A partilha de notícias falsas e a desinformação sobre a Covid-19 passou a ser crime quando o país declarou o estado de emergência nacional.

À medida que as pessoas procuram respostas, as notícias falsas levaram alguns a acreditar que quanto mais europeus e asiáticos estivessem por perto, maiores as probabilidades de um surto. A professora Karen Hofman, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Witwatersrand, diz que isso não faz sentido. "Não acho que em países africanos, onde há muitos europeus ou chineses, as pessoas estejam em maior risco", afirma.

Assistir ao vídeo 01:14

O consumo de morcegos e o coronavírus

No início, o coronavírus afetou sobretudo as pessoas mais velhas, o que originou rumores de que as crianças e os jovens não seriam infetados. Hofman não tem tanta certeza disso. "Parece que as crianças não são muito sintomáticas. Potencialmente, até podem espalhar o vírus, mas parece ser muito improvável que morram".

Hofman diz que para combater o vírus tem de se manter a higiene pessoal e lavar as mãos. Não há receitas secretas. "Infelizmente, não existe uma dieta específica. Eu gostaria que houvesse. Apenas comer da maneira mais saudável possível", esclareceu à DW.

A "cura" do coronavírus na Nigéria

O coronavírus causou pânico na Nigéria. No Facebook, Twitter, WhatsApp e noutras redes sociais foram partilhadas curas falsas, como misturar alho e mel ou consumir urina de vaca. E não é só, alerta Zaharadden Ubale, ativista de redes sociais na Nigéria. "As pessoas dizem que é possível matar o coronavírus com cloroquina. Nalguns sítios dizem que o coronavírus não resiste à temperatura que temos na nossa localidade. Isso também é uma notícia falsa".

Assistir ao vídeo 00:36

Como manter as mãos limpas para evitar o coronavírus

O medo e o alarme social já levaram cidadãos a fugirem de pessoas com aparência estrangeira. Também existe ansiedade em relação aos laços estreitos da Nigéria com a China. Isso não significa, no entanto, que a Nigéria deva parar de fazer negócios com o país, segundo o epidemiologista Yerma Ahmad Adamu. "Não se pode dizer que, por ter começado na China, temos de fugir das empresas chinesas. O vírus entrou na Europa e em quase todas as outras regiões do mundo", diz.

Mas ficar no mesmo sítio será a solução? Na Nigéria, a especialista em saúde pública A'isha Muhammad Yayajo acredita que isso pode retardar a disseminação. "Não se deve viajar para lugares com casos de infeção. Este coronavírus espalha-se através do contacto de pessoa para pessoa."

Há quem acredite que o surto de ébola deixou África preparada. Afinal, ainda existem instalações de isolamento e a experiência no controlo de doenças infeciosas mantém-se. Mas o Dr. Adamu duvida que isso ajude a combater o coronavírus: "O tratamento para o ébola é diferente. Nada garante que o nosso sistema de saúde esteja preparado para estas infeções".

Até agora, nenhuma fronteira geográfica, cultural ou nacional tem sido demasiado grande para o coronavírus. Até onde a pandemia deixará África em termos de saúde e ao nível económico é uma incógnita. Mas os especialistas concordam numa coisa: divulgar notícias falsas não ajuda em nada. 

Frank Yiga (Kampala), Thuso Khumalo (Joanesburgo), Muhammad Al-Amin (Maiduguri) e Benita van Eyssen (Bona) contribuíram para este artigo.