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Mondlane acusa embaixador da UE de falsidade e silêncio

16 de setembro de 2025

Venâncio Mondlane acusa o representante da UE em Moçambique de ignorar abusos pós-eleitorais e de apoiar o Governo no diálogo de paz. Académico alerta para falta de prudência diplomática.

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Moçambique Maputo | Chegada do líder da oposição Venancio Mondlane
Venâncio Mondlane acusa embaixador da UE em Moçambique de ignorar abusos policiais contra manifestantes indefesos durante os protestos pós-eleitoras Foto: Carlos Uqueio/AP Photo/picture alliance

O representante da União Europeia (UE) em Moçambique, Antonino Maggiore, foi duramente criticado por Venâncio Mondlane. O líder da Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (ANAMOLA) acusou o diplomata de "fechar os olhos" às violações dos direitos humanos nos protestos pós-eleitorais e de se posicionar ao lado do Governo no diálogo de paz.

Mondlane foi ainda mais longe e disse: "o Governo, nas suas iniciativas de diálogo, é falso. Esse senhor é um falso, é um irónico, porque os 27 Estados da União Europeia não estão de acordo com um Governo, que é um Governo de sequestros, de crimes que mantêm presos por um ano", criticou Mondlane durante uma transmissão nas suas redes sociais.

Venâncio Mondlane
Venâncio Mondlane em entrevista à DW (foto de arquivo)Foto: Nádia Issufo/DW

Libertação de Manifestantes

As críticas surgiram no mesmo dia em que o mais novo partido político do país celebrou a libertação de vários jovens detidos no âmbito dos protestos pós-eleitorais.

Os manifestantes terão sido mantidos presos ilegalmente durante quase um ano. A libertação surge também no quadro de um acordo entre o Presidente da República, Daniel Chapo, e Venâncio Mondlane, como parte de um esforço para amenizar as tensões pós-eleitorais.

Depois da decisão do tribunal, Mondlane acusou a politização da justiça e não poupou Antonino Maggiore. "Não acredito que um Estado da UE esteja de acordo com ele... e em nenhum momento falou em matéria de direitos humanos, não falou das pessoas que foram mortas, das que foram baleadas", disse.

Para o académico Elísio Macamo, professor moçambicano na Universidade da Basileia, na Suíça, os comentários de Mondlane têm legitimidade, mas podem não ser prudentes na frente diplomática.

"A questão é se as declarações de Mondlane são prudentes ou não. Eu acho que não são, acho que diminui um pouco o capital que ele precisa de ter para fazer a luta que ele faz em todas as frentes", anota Macamo.

Elísio Macamo
Elísio MacamoFoto: DW/J. Beck

Riscos 

Para o acadêmico, "a frente diplomática é muito importante e não acho prudente falar da maneira que falou sobre o embaixador europeu em Maputo tendo em conta a importância desta frente diplomática."

Na análise de Macamo, a postura contundente de Mondlane pode também estar ligada à necessidade de afirmar liderança perante os seus seguidores. "As pessoas precisam frequentemente deste tipo de manifestação e ele pode estar realmente a servir este público e não necessariamente a servir o interesse da luta que ele trava. Mas isso são opções que ele faz e a gente só pode desejar boa sorte", disse.

A União Europeia é diversa na sua composição e nem sempre as posições do grupo comunitário refletem os desejos de todos os seus Estados-membros ou famílias políticas.

Em 2024, a eurodeputada portuguesa Ana Martins, do partido Iniciativa Liberal - que integra o grupo "Renovar a Europa" no Parlamento Europeu, já tinha saído em defesa de Mondlane no contexto dos abusos de poder em Moçambique.

Na altura, a eurodeputada pediu maior coerência aos 27, denunciando "dois pesos e duas medidas" face ao tratamento dado a outras crises, como a da Venezuela.

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Cultura democrática consolidada

Para Elísio Macamo, essa diversidade só é possível porque a Europa tem uma cultura democrática consolidada, onde predomina a aceitação do pluralismo.

Para o académico, a União Europeia dispõe de mecanismos que garantem o respeito por valores fundamentais, mesmo quando determinadas posições individuais possam divergir do discurso oficial.

"Pode ser que o embaixador esteja a fazer uma interpretação da situação baseada na sua própria trajetória ou alinhamento político, mas se isso entrar em contradição com os valores da UE, a UE iria intervir e, inclusive, chamar atenção”, afirmou.

Macamo sublinhou que a liberdade individual de interpretação constitui um dos pilares da cultura democrática europeia.

"Não há nenhuma obrigatoriedade da parte de quem ocupa um cargo num sistema político que reconhece o pluralismo e a autonomia individual, que essa pessoa assuma sempre um discurso oficial. As pessoas sempre têm a liberdade de interpretar as decisões do organismo a que pertence, a partir do lugar de onde fala”, disse.

O sociólogo salientou ainda que eventuais críticas a posições divergentes podem resultar de um desconhecimento sobre a natureza do sistema democrático europeu. "Pode haver aqui talvez uma incompreensão em relação à natureza da cultura política e democrática”, observou.

Segundo Elísio Macamo, essa abertura à pluralidade é o que permite à União Europeia lidar com diferentes sensibilidades políticas sem colocar em causa os princípios que a sustentam.

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Jornalista da DW Nádia Issufo
Nádia Issufo Jornalista da DW África
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