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Como África está a afirmar-se globalmente, apesar de Trump

Philipp Sandner
29 de dezembro de 2025

2025 foi um ano fortemente dominado pelas políticas disruptivas do Presidente dos EUA, Donald Trump. Embora algumas ações tenham causado danos, os governos africanos também conseguiram melhorar a sua posição geopolítica.

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Cyril Ramaphosa, Presidente da África do Sul, foi o anfitrião do G20, que decorreu em Joanesburgo, em 22 de novembro de 2025
O Presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, anfitrião do G20, provou ao mundo que, mesmo sem a participação dos EUA, os países podem traçar um rumo em conjuntoFoto: Jerome Delay/AP Photo/picture alliance

20 de janeiro de 2025 foi um ponto de viragem para o mundo inteiro. O dia em que Donald Trump voltou à Casa Branca, em Washington, marcou uma mudança significativa no rumo da política global internacional. 

Em poucos meses, o Presidente dos Estados Unidos introduziu tarifas punitivas e políticas restritivas de vistos, retirou os EUA de importantes estruturas internacionais, como o Acordo de Paris sobre o clima e a Organização Mundial da Saúde (OMS), e desmantelou grande parte do trabalho da agência de desenvolvimento dos EUA (USAID).

A mensagem de que os EUA continuam a ser a principal superpotência mundial foi ouvida em alto e bom som. Mas até que ponto Washington pode ditar as suas condições ao resto do mundo?

A resposta indiferente de África a Trump

Apesar de toda a turbulência que as políticas de Donald Trump causaram a nível mundial, o impacto na vida quotidiana nos países africanos foi limitado, considera Ovigwe Eguegu, analista da empresa de consultoria independente Development Reimagined.

"O continente continua no bom caminho. África não tem um grande mercado de exportação para os EUA de produtos processados. Só são exportadas matérias-primas como petróleo, gás e metais", explica Eguegu, salientando que muitas vezes não são cobrados direitos aduaneiros.

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Mesmo quando o acordo comercial AGOA - cujo objetivo era promover o crescimento e as oportunidades entre os EUA e os países africanos - expirou no final de setembro, a reação no continente foi bastante moderada.

Os países africanos mais afetados pelas políticas de Trump foram o Lesoto, que há anos fabrica jeans para o mercado dos EUA e agora tem de pagar 50% em tarifas, e a África do Sul, exportadora de automóveis, que enfrenta um aumento de 30% nas tarifas.

O sucesso da África do Sul no G20

As relações da África do Sul com Washington tornaram-se particularmente tensas ao longo de 2025. Duas semanas após assumir a presidência, Trump anunciou que "coisas terríveis" estavam a acontecer aos agricultores brancos no país, referindo-se a supostos massacres da minoria branca do país, em particular agricultores.

Embora as taxas de crimes violentos continuem altas em toda a África do Sul, as alegações de assassinatos seletivos contra fazendeiros brancos orquestrados pelo governo foram repetidamente desmentidas - o que, ainda assim, não foi suficiente para o Presidente norte-americano.

Pretória ficou ainda mais irritada quando, logo em seguida, Trump começou a conceder asilo político a um grupo de fazendeiros brancos sul-africanos, o que colocou a África do Sul numa posição delicada no ano em que assumiu a presidência rotativa do G20.

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Quando o país finalmente conseguiu sediar a primeira cimeira do G20 em solo africano, em novembro, o Presidente dos EUA e a sua administração recusaram-se a participar. Trump chegou ao ponto de não convidar a África do Sul para a próxima cimeira do G20, que será realizada em Miami no próximo ano.

Ainda assim, a cimeira do G20 em Joanesburgo foi um sucesso, afirma Noncedo Vutula, investigadora da Escola Nelson Mandela de Governação Pública. "As discussões foram ricas e levaram em consideração todos os diferentes pontos de vista que foram debatidos na preparação para a cimeira", disse à DW.

Para a África do Sul, foi particularmente gratificante que uma declaração conjunta da cimeira tenha sido alcançada, para grande irritação de Washington, que tentou impedir que fosse formulada uma declaração sem a participação dos EUA.

As principais nações industrializadas, a União Europeia (UE)e a União Africana (UA) invocaram a filosofia africana Ubuntu e comprometeram-se com o multilateralismo e as parcerias globais de desenvolvimento: "No espírito do Ubuntu, reconhecemos que as nações individuais não podem prosperar isoladamente." No final, foi assinada uma declaração de intenções para continuar a fortalecer a "a voz de África no G20 e em todos os outros fóruns internacionais."

Criação de valor acrescentado em África

O poder simbólico desta declaração de intenções não deve ser subestimado, sobretudo num continente  que há décadas se esforça para sair da sombra do seu passado colonial. E que também encontrou eco nas palavras do Presidente de Angola, João Lourenço, que, dias depois, como anfitrião da cimeira da União Africana-União Europeia (UA-UE), afirmou: "O mundo não é composto apenas por um ou dois países. Trabalhamos com todos aqueles que estão abertos a nós."

Na reunião em Luanda, os parceiros europeus de África reafirmaram o seu apoio a grandes projetos de infraestruturas - como o Corredor do Lobito, em Angola, uma importante rota económica que liga o porto do Lobito à República Democrática do Congo (RDC) e à Zâmbia.

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Isto foi visto como mais um sinal de que as nações europeias e outros parceiros estão a começar a perceber que não podem ditar condições unilaterais ao continente. "O que é necessário é uma dinâmica em que a cooperação seja estruturada de forma a beneficiar ambas as partes", lembra o analista Eguegu, acrescentando que, devido a séculos de história comum, a Europa continua a ser um parceiro desejável para muitos países africanos.

No entanto, salientou também que existe alguma concorrência, uma vez que as nações africanas continuam a expandir as suas relações com a China, a Rússia e outros intervenientes como a Turquia e os Emirados Árabes Unidos.

Isto tornou-se ainda mais evidente na cimeira UA-UE. Enquanto essas conversações decorriam, a China concluiu outro acordo de mil milhões de dólares com a Zâmbia para expandir a rede ferroviária da África Oriental, mostrando que Pequim está pronta para competir com as melhorias de infraestruturas planeadas no Corredor do Lobito.

Guerras e regimes militares atrasam desenvolvimento

O papel da África no mundo continua a ser prejudicado por grandes crises e conflitos, como a guerra civil no Sudão, que dura há dois anos e meio, e o conflito no leste da RDC, que continua apesar da mediação internacional, inclusive dos EUA.

Além disso, há atualmente oito países africanos sob regime militar, com pouca ou nenhuma perspetiva de retorno à democracia. Em 2025, Madagáscar e Guiné-Bissau foram adicionados à lista de países africanos onde golpes de Estado e subsequentes lideranças militares tornaram o futuro mais incerto.

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Um continente mais pacífico contribuiria significativamente para o desenvolvimento económico geral, afirma a investigadora Noncedo Vutula, enquanto o analista Ovigwe Eguegu argumenta que parte do problema é o facto de África continuar até hoje dependente da influência de potências estrangeiras.

"Essa é a realidade política dos Estados fracos. O continente está repleto de Estados fracos e os Estados fracos não dispõem nem da capacidade nem da experiência política. As suas condições nacionais tornam-nos vulneráveis a influências externas", diz Eguegu.

Avançar em conjunto com os países em desenvolvimento

Outro aspeto é o endividamento ainda elevado, que impede o desenvolvimento económico de muitos países africanos. Este problema também foi reconhecido pelo G20. A situação é particularmente difícil em países de baixo rendimento, especialmente em África, como é lembrado na declaração da cimeira.

Noncedo Vutula vê na zona de comércio livre africana (AfCFTA) uma solução para uma maior independência económica e salienta que a maioria dos países já ratificou o acordo. "Podemos construir cadeias de valor regionais em África e garantir o desenvolvimento das economias africanas", defende, embora ainda haja desafios a superar.

Para alcançar progressos, é também importante que África se una a países com ideias semelhantes, especialmente países do Sul global, afirma Vutula. Isso pode ser observado, por exemplo, na política climática. "África precisa de trabalhar em estreita colaboração com os países em desenvolvimento para fazer avançar esses aspetos", argumenta. Muito mais do que trazer isso à tona em fóruns internacionais, trata-se também de encontrar mecanismos de financiamento dentro dos países em desenvolvimento para amortecer os impactos climáticos.

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