G20: África do Sul recebe líderes da economia mundial
20 de novembro de 2025
Na maior cidade da África do Sul, Joanesburgo, os preparativos para receber os principais atores económicos do mundo na cimeira anual do G20 decorrem há várias semanas.
A primeira cimeira realizada em solo africano é um momento marcante para a África do Sul, que procura equilibrar o seu papel enquanto membro dos BRICS, mantendo-se simultaneamente como um parceiro comercial valorizado pelas democracias ocidentais.
Para Mavis Owusu-Gyamfi, presidente do African Center for Economic Transformation, o foco da África do Sul na solidariedade, igualdade e sustentabilidade tem sido encorajador.
Considera também que o continente é crucial para enfrentar desafios globais: "Penso que ocorre numa altura em que o mundo começa a reconhecer que a África é central para resolver muitos dos desafios globais que estamos a enfrentar neste momento. Em primeiro lugar, é o lar da população mais jovem e de crescimento mais rápido do mundo."
Mavis Owusu-Gyamfi lembra ainda que "o continente possui uma percentagem significativa dos minerais críticos necessários para o crescimento verde, enquanto enfrentamos uma crise climática. Portanto, o crescimento e a estabilidade globais dependem de a trajetória do continente africano ser positiva ou negativa.”
Boicote dos EUA
Os Estados Unidos, que assumem a presidência rotativa do G20 a 1 de dezembro, estão a boicotar a cimeira em Joanesburgo. As relações com a África do Sul deterioraram-se devido a cortes da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional e à imposição de tarifas elevadas.
Washington acusou ainda, sem provas, a África do Sul de genocídio contra brancos, alegação que o governo sul-africano nega. Além disso,o país foi ainda criticado pelo processo apresentado contra Israel no Tribunal Internacional de Justiça.
No entanto, segundo Menzi Ndhlovu, analista de risco político da Signal Risk, o boicote ao G20 tem outra finalidade: "Trata-se da deslegitimação da África do Sul, do seu estatuto de liderança e da sua pertença aos escalões superiores das estruturas de poder global."
O grupo reúne as 19 maiores economias do mundo, a União Europeia (UE) e a União Africana (UA), representando 85% do Produto Interno Bruto (PIB) global. Apesar da ausência dos EUA, altos funcionários vão marcar presença na cimeira.
A economista Owusu-Gyamfi sublinha que cooperação global não gira em torno de um único país: "A África do Sul utilizou esta presidência do G20 para destacar que resolver os desafios globais atuais, seja reforma da dívida, financiamento climático, comércio, ou o que quer que seja, é uma ação coletiva do G20 e de outros. Portanto, estejam ou não os EUA presentes, o restante do G20 deve colaborar para encontrar soluções."
O que pode a África do Sul ganhar com o G20?
Mas o que pode a África do Sul beneficiar com o G20? A África do Sul enfrenta graves problemas, como corrupção, criminalidade elevada, economia estagnada e desemprego.
No entanto, os especialistas acreditam que, apesar do aparente desdém dos EUA, os objetivos ambiciosos da liderança sul-africana trazem desafios, mas também oportunidades, como o crescimento económico do continente.
Mavis Owusu-Gyamfi elogia ainda a África do Sul por colocar a sustentabilidade da dívida no centro da agenda: "África tem de aprofundar o seu modelo de crescimento e transformar as suas economias, deixando de depender da exportação de matérias-primas para investir na criação de valor que gere emprego para a sua população."
"Para que a África realize este potencial, precisa de acesso aos tipos certos de financiamento quando necessário. E penso que o foco da África do Sul no custo de capital é um excelente exemplo do porquê de o G20 acontecer em solo africano ser bom para a África”, acrescenta a economista.
O jovem sul-africano Lindelani Mkhaliphi sublinha a importância histórica da realização do G20 na África do Sul e a esperança de que o encontro produza resultados concretos para o continente.
"É a primeira vez que o G20 se realiza em solo sul-africano. E, claro, o que estamos a fazer na África do Sul não é apenas por nós; estamos também a representar todo o continente africano. Por isso, enquanto jovem africano, este é um grande momento para todos nós. E esperamos realmente que, daqui, resultem conclusões concretas”, afirma.
A cimeira do G20 de dois dias começa no próximo sábado (22.11).