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Carne de caça é vendida num mercado de Mbandaka, na RDCFoto: Reuters/K. Katombe
SaúdeRepública Democrática do Congo

Carne de caça: Iguaria com sabor de pandemia

Silja Fröhlich
25 de fevereiro de 2021

A carne de caça é considerada um vetor de vírus e causa de surtos de incontáveis doenças. Estimula também a caça furtiva, dizimando a biodiversidade. O seu consumo e venda descontrolados podem ter efeitos catastróficos.

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Em muitos mercados em África, a venda de carnes de caça é frequente. Na África Ocidental e Central, a caça e o comércio de animais selvagem é legal ou semi-legal.

O consumo de carnes selvagens é geracional no continente e tem cada vez mais apreciadores apesar dos seus perigos, segundo Luwi Nguluka, gestora do programa de sensibilização da organização não governamental zambiana Wildlife Crime Prevention (WCP).

"As pessoas querem consumir alimentos orgânicos, naturais ou tradicionais. Existe uma percepção de que a carne de animais selvagens ilegal é mais saudável do que a carne de animais de criação. Obviamente, isso não é verdade quando se trata de carne que não tenha passado por verificações de segurança," explica.

A gripe das aves, o VIH/SIDA, o ébola ou a Covid-19 são doenças zoonóticas, transmitidas dos animais para os seres humanos. E são responsáveis por cerca de 75% das doenças emergentes que afetam atualmente os seres humanos.

A pandemia do novo coronavírus é exemplo disso, o que não surpreende a ativista ambiental Nguluka. "Quando a Covid-19 apareceu, não foi uma surpresa. Não é a primeira doença que rastreamos à vida selvagem. E duvido que seja a última," avalia.

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A carne de caça pode transportar muitos vírusFoto: Getty Images

Propagação de doenças

De acordo com a Rede Global de Doenças Infecciosas e Epidemiologia (GIDEON, na sigla inglesa), houve quase 1.000 surtos excepcionalmente graves de doenças zoonóticas entre 1980 e 1985. Entre 2005 e 2010, o número foi quase três vezes maior.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), pelo menos cinco milhões de toneladas de carne de animais selvagens são caçadas todos os anos na Bacia do Congo, na República Democrática do Congo (RDC).

Segundo a ONU, muita carne de caça é agora exportada para todo o mundo - uma condição ideal para a propagação de agentes patogénicos - o que pode provocar uma catástrofe humanitária.

"A próxima pandemia está à espera. E não teremos dinheiro para isso. O próximo agente patogénico pode vir do próximo carapato que atravessar os Alpes. Não precisamos de esperar pela carne de animais selvagens de África, teoricamente já está tudo aqui", alerta Ulrike Beckmann, conselheira científica do Instituto Jane Goodall, uma organização mundial de proteção da vida selvagem.

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Venda de carne de caça num mercado em Kisangani, na RDCFoto: picture-alliance/AP Photo/S. van Zuydam

Ameaça à biodiversidade

Para além das doenças, o consumo de carnes selvagens tem desafiado a biodiversidade.

Na República Democrática do Congo não há uma lei clara que regule o comércio de carne de animais selvagens, por isso que a ONU adverte que a floresta tropical congolesa poderá estar completamente desaparecida até ao final do século.

Ulrike Beckmann apela para uma ação política global para acabar com o tráfico de animais selvagens, as alterações climáticas, a degradação ambiental e a agricultura industrial.

"A questão é que estamos a destruir os últimos ecossistemas funcionais, invadindo-os. Através da caça furtiva, desflorestação, construção de estradas e assentamentos ou extração de minerais, corremos o risco de entrar em contacto com seres vivos e agentes patogénicos que não ocorreriam em condições naturais," descreve.

Em dezembro passado, o Governo tanzaniano legalizou a venda de carne de animais selvagens, sujeita a regras estritas, como forma de acabar com a caça furtiva naquele país da África Austral.

Estimativas recentes indicam que, na Tanzânia, tenham sido confiscadas cerca de 2.000 toneladas de carne de animais selvagens, no valor de 50 milhões de dólares (cerca de 41 milhões de euros) por ano.

Nigéria: Ativista tenta salvar animais selvagens em mercados

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