"A RENAMO precisa de se organizar"
15 de outubro de 2025
A Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) propõe-se a analisar dossiers "controversos" durante o Conselho Nacional desta quinta-feira, na província de Nampula. As críticas à liderança do partido aumentam, depois da RENAMO ter passado de segunda para terceira maior força política em Moçambique, nas últimas eleições.
O presidente do partido, Ossufo Momade, diz que o mar de gente que o recebeu em Nampula, na véspera do Conselho Nacional, é sinal de que a RENAMO se mantém forte. Ainda assim, deixou uma mensagem aos críticos: "No próximo congresso, eu não vou concorrer", afirmou Momade.
Para o analista André Mulungo, do Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD), a saída de Ossufo Momade devia acontecer já.
DW África: Como interpretar as palavras de Ossufo Momade de que não vai concorrer no próximo congresso?
André Mulungo (AM): Se diz que não vai concorrer, significa que ele deve ter um plano de continuar na liderança da RENAMO. Esse é um direito que Ossufo Momade tem, tendo em conta que foi eleito pelo congresso, mas ele deve tomar em conta um aspeto fundamental – o facto de estar a ser contestado e de essa contestação estar a ter um impacto negativo para a RENAMO. Está a levar à divisão do partido e à destruição da sua imagem.
Sendo assim, Ossufo Momade poderia olhar para o exemplo de Pedro Nuno Santos, o antigo líder do Partido Socialista português, que depois de perder as eleições, colocou o cargo à disposição.
DW África: Há muitos anos que se fala na necessidade de uma reforma na RENAMO. Na sua opinião, o que é preciso fazer? E como deve o partido agir face ao peso de Venâncio Mondlane?
AM: A RENAMO precisa de se organizar e reestruturar.
Parte considerável da base de apoio de Venâncio Mondlane é feita de pessoas que eram membros da RENAMO. Quando Venâncio Mondlane entrou em desentendimento com a liderança de Ossufo Momade e saiu do partido, ele levou consigo muita gente. Mas eu arrisco a dizer que não é porque essas pessoas não querem a RENAMO – saíram porque não estavam satisfeitas com a liderança de Ossufo Momade.
Então, o problema não é a RENAMO, como partido, o problema é a liderança da RENAMO.
A RENAMO precisa de compreender que o contexto e o tempo são outros. Tem de compreender que precisa de se reestruturar e precisa de uma liderança que comunica, e uma liderança jovem, para responder aos atuais desafios do país. E uma das coisas importantes a fazer é mesmo tirar Ossufo Momade da liderança. Ele próprio tinha que compreender isso e abandonar a RENAMO para abrir espaço para essa reestruturação.
DW África: Como seria essa reestruturação?
AM: Primeiro, é preciso que Ossufo Momade saia da liderança da RENAMO. Depois, há a oportunidade de a RENAMO – que foi sempre um partido dominado pela ala militar – ser um partido político normal. Essa ala militar já não existe, porque as pessoas foram desmobilizadas, já não têm armas. Então, é a altura de termos um partido verdadeiramente político, no contexto de uma democracia normal. E é a altura de dar espaço a pessoas mais frescas, mais jovens, mais capazes, mais comunicativas.
DW África: E pessoas que ouçam o eleitorado?
AM: Exatamente, porque os partidos não são feitos das lideranças. As lideranças são importantes, mas os partidos são feitos pelos seus membros. Se eles não são ouvidos, perde-se o eleitorado. E o que está a acontecer na RENAMO é isso: A RENAMO está a pensar que o partido é Ossufo Momade ou que é aquela RENAMO que lutou pela democracia e colocou a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) muitas vezes em alerta.
Não, a RENAMO é a RENAMO porque tinha o povo. A FRELIMO foi o que foi durante o contexto da luta de libertação porque a FRELIMO tinha o povo. A RENAMO foi uma ameaça para a FRELIMO porque o povo estava com a RENAMO. E, neste momento, o povo não está feliz com a liderança da RENAMO.
DW África: Portanto, o que esperar do Conselho Nacional desta quinta-feira?
AM: Eu penso que a RENAMO precisa de se sentar, olhar para a saúde dela com realismo, compreender que não está bem, que está dividida e está a perder espaço na cena política moçambicana e precisa de fazer reformas. As pessoas que vão ao Conselho Nacional devem ser capazes de falar com Ossufo Momade e de lhe mostrar isso, porque ele pode, se calhar, não estar a entender.