A Igreja Universal do Reino de Deus e o ″mercado da fé″ em África | Moçambique | DW | 28.12.2016
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Moçambique

A Igreja Universal do Reino de Deus e o "mercado da fé" em África

A igreja cristã neopentecostal brasileira expandiu-se em África. Estabelecer o "mercado da fé" neste continente é estratégico, dizem pesquisadores.

Igrejas evangélicas neopentecostais brasileiras estabelecem mercado da fé em África, dizem especialistas

Igrejas evangélicas neopentecostais brasileiras estabelecem "mercado da fé" em África, dizem especialistas

Tudo terá começado num coreto num subúrbio do Rio de Janeiro, no Brasil - "com teclado, microfone e uma Bíblia, [...] o então pastor Edir Macedo Bezerra subia os sete degraus do coreto e 'pregava' para poucos. Eram os primeiros passos da Igreja Universal".

É assim que a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) explica, no seu site, como foi fundada no Brasil, nos anos 70. Com promessas de "cura" e "prosperidade", a instituição religiosa multiplicou o número de fiéis não só no Brasil, mas também por todo o mundo.

Numa África em crise, igrejas neopentecostais como a IURD encontraram um terreno fértil, explica Teresa Cruz e Silva, pesquisadora social moçambicana da Universidade Eduardo Mondlane, em entrevista à DW.

Mosambik Nampula Pfingstkirche (DW/J. Beck)

Templo da IURD em Nampula, Moçambique.

IURD em Moçambique

"Em Moçambique, por exemplo, a IURD entra num contexto de crise [após a guerra civil] e a utilização desse contexto faz com que haja uma grande adesão das pessoas. Por exemplo, ao acreditarem que o país pode resolver os problemas, a pobreza", explica Cruz e Silva.

Em 1992, o ano da fundação da igreja no país, a instituição contava com um único pastor que vinha do Brasil e um co-fundador no local, segundo o portal da IURD em Moçambique: "A igreja não contava com uma estrutura consolidada e havia poucos colaboradores".

Hoje a situação será diferente - além de desenvolver ações sociais e produzir programas de televisão e rádio em Moçambique, a IURD fala em templos cheios de fiéis na rede social Twitter.

A antropóloga brasileira Jaqueline Moraes Teixeira tem estudado a atuação da IURD, que se estima ter, só no Brasil, 1,87 milhões de fiéis. Segundo ela, há nesta instituição uma visão teológica da "nação universal", daí o seu nome. Por isso, a importância de se expandir do Brasil para outros países, explica.

Missão

A missão evangelizadora é um dos elementos da fé cristã católica e das igrejas chamadas neopentecostais, como a IURD. De modo semelhante aos missionários católicos do passado colonial, as igrejas neopentecostais almejam levar a "mensagem do evangelho" aos mais necessitados, algo tido como uma "missão”. E isso explica por que a IURD atua em outros países, acrescenta a antropóloga brasileira.

Brasilien Antropologin Jaqueline Moraes Teixeira

A antropóloga brasileira Jaqueline Moraes Teixeira, da Universidade de São Paulo

A IURD cresceu tanto nas últimas décadas em África a ponto de desenvolver projetos na área de saúde pública. Por vezes, substituindo tarefas atribuídas normalmente ao Estado, "a exemplo, os projetos específicos de combate ao HIV/SIDA em África, já que muitos frequentadores neste continente se declaram seropositivos”, explica Moraes Teixeira.

A igreja da "cura"

A Igreja Universal é também considerada a "igreja da cura", diz a professora moçambicana Teresa  Cruz e Silva. "Se lermos os jornais da Igreja Universal, eles relatam que curam doenças incuráveis pela medicina, e as pessoas aderem pelas promessas que são feitas", explica.

Ouvir o áudio 02:46

A Igreja Universal do Reino de Deus e o "mercado da fé" em África

Mas, para alcançarem a "cura material" e "espiritual", muitos dão tudo o que têm em forma de dízimos, fazendo-o "na esperança de receberem sempre mais".

É aí que surge a ideia de um "mercado da fé", pois "negocia-se com a fé das pessoas" em situação de crise - algo que, segundo os especialistas, explica a grande ascensão da Igreja Universal do Reino de Deus nos últimos anos em países africanos.

* Após a publicação desta peça, a Igreja Universal do Reino de Deus esclareceu, numa nota à DW, que "o dízimo representa apenas a décima parte daquilo que o indivíduo recebe no mês - e não corresponde a outra coisa". Além disso, segundo esta igreja, quem "devolve" o dízimo "não o faz com o objetivo de receber mais", mas por "obediência à palavra de Deus. Não se trata de uma doutrina da Igreja Universal, mas sim um ensinamento bíblico. Além disso, não devolve o dízimo somente quem está em crise ou porque está em crise, mas todos aqueles que optam por obedecer às Sagradas Escrituras", escreveram.

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