1. Ir para o conteúdo
  2. Ir para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW
PolíticaIsrael

O que explica o interesse de Israel na Somalilândia?

7 de janeiro de 2026

Somalilândia entra no centro de uma disputa internacional depois de Israel decidir reconhecê-la oficialmente. Gesto enfurece a Somália, divide aliados e acende alerta geopolítico no Corno de África.

https://p.dw.com/p/56TT7
Homem com a bandeira da Somalilândia em frente a um monumento de guerra em Hargeisa
Israel reconheceu a Somalilândia no final de 2025Foto: Luis Tato/AFP

A Somalilândia não aparece nos mapas institucionais como um país independente. Oficialmente, continua a ser parte da Somália. Na prática, funciona como um Estado há mais de 30 anos, com governo próprio, eleições regulares e forças de segurança - é um território que se declarou independente em 1991, mas que continua sem reconhecimento internacional.

Israel decidiu reconhecer esta região no dia 26 de dezembro. Esta semana, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel esteve na Somalilândia, provocando uma forte reação da Somália, que classificou o gesto como uma "incursão não autorizada".

"Uma Somalilândia independente merece, com justiça, o seu lugar entre as nações. Saúdo a intenção da Somalilândia de aderir aos Acordos de Abraão", disse o chefe da diplomacia israelita, Gideon Saar, durante a visita.

presidente da Somalilândia, Abdirahman Abdullahi Mohamed, destacou os ganhos económicos de possíveis novos laços, frisando que a visita "reflete não apenas reconhecimento político, mas um compromisso partilhado para construir uma parceria estratégica."

Porto de Berbera, Somalilândia
A Somalilândia está situada no Corno de África, à entrada do Mar Vermelho — uma das rotas mais importantes do comércio marítimo mundial. Nesta imagem, o Porto de BerberaFoto: Solomon Muchie/DW

Porquê a Somalilândia?

A explicação começa pela geografia. A Somalilândia está situada no Corno de África, à entrada do Mar Vermelho, muito perto do Estreito de Bab el-Mandeb — uma das rotas mais importantes do comércio marítimo mundial.

Por ali passam navios com petróleo e mercadorias que seguem para a Europa, a Ásia e para Israel. Depois daguerra em Gaza, de ataques dos rebeldes Houthis no Iémen e do aumento da influência do Irão na região, Israel também procura reforçar a segurança marítima num dos seus corredores comerciais mais sensíveis.

Uma aproximação com a Somalilândia poderia garantir melhor acesso ao Mar Vermelho e maior capacidade de vigilância para Israel.

Isso não é visto com bons olhos por outros países. O Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, classificou o reconhecimento como ilegítimo, acusando Israel de tentar desestabilizar o Corno de África.

"A decisão de Israel de reconhecer a Somalilândia é inaceitável. O Governo Netanyahu, com o sangue de 71 mil irmãos e irmãs palestinianos nas mãos, procura agora desestabilizar o Corno de África, depois dos seus ataques a Gaza, ao Líbano, ao Iémen, ao Irão,ao Qatar e à Síria", afirmou o líder turco.

Ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Gideon Saar, na Somalilândia
Visita do Ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Gideon Saar, ao presidente Abdirahman Mohamed Abdullahi, na SomalilândiaFoto: Schlomi Amsalem/GPO/dpa/picture alliance

União Africana

A União Africana pediu a revogação imediata do reconhecimento. A Somália levou o caso às Nações Unidas, reafirmando a soberania e a integridade territorial do país.

Para Abukar Dahir Osman, representante permanente da Somália na ONU, "a ideia de reconhecer uma parte da Somália foi um esforço calculado da força ocupante israelita para distrair o mundo".

As autoridades da Somalilândia negam que o reconhecimento israelita implique a instalação de bases militares ou o reassentamento de palestinianos vindos de Gaza. A Somalilândia procura há décadas reconhecimento internacional.

Israel, por sua vez, poderia usar esse gesto como instrumento diplomático para ampliar a sua influência em África. O país defende que tem o direito de reconhecer a soberania da Somalilândia, destacando que diversos Estados tiveram uma postura semelhante em relação à Palestina.

Por enquanto, haverá apenas um "acordo diplomático" entre Israel e a Somalilândia. Mas no xadrez do Médio Oriente e de África, esta região torna-se cada vez mais valiosa.

Tainã Mansani Jornalista multimédia