Guerra no Irão abala rota de medicamentos Índia-África
30 de maio de 2026
A Índia tem frequentemente sido chamada de "farmácia do Sul Global” e, para os países africanos, a saúde pública e os produtos farmacêuticos indianos estão profundamente interligados.
A África concentra quase um quarto da carga global de doenças, com uma proporção desproporcional de casos de HIV, tuberculose e malária, segundo dados de agências de saúde pública como a Organização Mundial da Saúde (OMS).
De acordo com a Comissão Econômica das Nações Unidas para a África e a agência reguladora farmacêutica da Nigéria, NAFDAC, a Índia fornece cerca de 40% dos medicamentos importados pela África, sendo o maior parceiro comercial farmacêutico do continente.
Do Nigéria ao Quénia e à África do Sul, os medicamentos genéricos indianos formam a espinha dorsal dos sistemas públicos de saúde.
Em todo o continente, fornecem antibióticos de baixo custo, antirretrovirais para HIV, medicamentos contra malária e tuberculose, insulina, remédios para pressão arterial e analgésicos comuns usados diariamente por milhões de pessoas.
Um corredor logístico frágil
Este sistema funcionou porque os medicamentos indianos eram acessíveis, fiáveis e circulavam através de um dos corredores logísticos mais eficientes do mundo.
Fármacos produzidos em centros indianos como Hyderabad, Ahmedabad e Mumbai passavam regularmente por centros de carga no Golfo, em Dubai, Doha e Abu Dhabi, antes de chegar a portos e aeroportos africanos.
Ingredientes farmacêuticos vindos da China e da Europa também seguem pela mesma rede.
Os medicamentos passam por hubs do Golfo que permitem a logística avançada necessária para fármacos sensíveis à temperatura e ao clima, como certas vacinas. Esses centros também têm maior capacidade para organizar grandes remessas destinadas aos mercados africanos.
O sistema depende de rotas marítimas previsíveis, fretes relativamente baratos e estabilidade no trânsito pelo Golfo.
Mas com a guerra no Irão a bloquear o Estreito de Ormuz, o transporte comercial na região foi interrompido, os prémios de risco de guerra aumentaram, os custos de frete subiram e companhias aéreas desviaram rotas ou reduziram a capacidade de carga no espaço aéreo do Golfo.
O aumento dos preços do petróleo também está a elevar simultaneamente os custos de fabrico e transporte para as empresas farmacêuticas.
Ao contrário da Europa ou dos Estados Unidos, a maioria dos países africanos não mantém grandes reservas de medicamentos. Estados europeus exigem vários meses de stock de medicamentos essenciais, enquanto grandes distribuidores norte-americanos podem manter até seis meses de inventário.
Já muitos sistemas africanos dependem de ciclos de aquisição just-in-time e reservas limitadas, o que significa que atrasos rapidamente se transformam em escassez.
Abastecimento de medicamentos básicos
Segundo especialistas, a crise expõe uma vulnerabilidade estrutural profunda. Remi Adeseun, fármacêutico, explica que "África continua altamente dependente de genéricos indianos e de cadeias asiáticas", diz.
"E isso mesmo quando medicamentos são montados localmente, porque os ingredientes farmacêuticos ativos, excipientes e materiais de embalagem ainda são amplamente importados da Índia e da China", acrescenta.
Segundo Adeseun, o conflito atual está a aumentar custos em quase todas as etapas da cadeia farmacêutica: ingredientes, embalagens derivadas do petróleo, frete, seguros de transporte, combustível e prazos de entrega.
Algumas matérias-primas tiveram aumentos de até 40% a 50%, ele explica, e certos insumos quase duplicaram de preço. Os fabricantes, porém, conseguem repassar apenas parte desses aumentos, já que os mercados africanos têm pouca capacidade financeira.
Os medicamentos mais vulneráveis são os essenciais da atenção primária: antibióticos, fármacos para diabetes e hipertensão, injetáveis de rotina e analgésicos comuns.
Em muitas clínicas africanas, são exatamente estes os medicamentos esperados diariamente.
Medicamentos que exigem cadeia de frio, como vacinas e insulina, são ainda mais afetados, pois dependem do transporte aéreo, mais vulnerável a interrupções no Golfo.
Especialistas alertam que a perda de capacidade de carga aérea não é facilmente substituível, podendo criar atrasos de semanas.
Uma crise de saúde em África
O Fórum Índia–África, previsto para começar em Nova Deli, foi adiado devido ao surto de Ebola na República Democrática do Congo e no Uganda.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) reportou no final de 2025 que mais de metade dos países africanos enfrentavam escassez de produtos de saúde essenciais, incluindo vacinas e medicamentos para tuberculose.
O Sudão terá visto medicamentos críticos retidos em portos de Dubai, enquanto o Botsuana declarou recentemente uma emergência de saúde pública devido à falta de medicamentos e suprimentos médicos.
Para os médicos, as consequências são imediatas. Rajeev Jayadevan, profissional de saúde e comunicador em saúde, disse que estas interrupções no tratamento podem rapidamente tornar-se perigosas para pacientes com doenças crónicas ou infecciosas.
No caso da tuberculose, interrupções aumentam o risco de formas resistentes da doença. Em condições como glaucoma, podem levar à cegueira.
Pode África reduzir a dependência?
O atual choque no abastecimento de medicamentos reacendeu o debate sobre a produção farmacêutica local em África. Javin Bhinde, especialista da indústria farmacêutica e diretor da consultoria SynCore, baseada na Índia, disse à DW que a Índia tem raízes estruturais profundas no continente.
“Durante muitas décadas, a Índia forneceu à África medicamentos acessíveis e essenciais, especialmente antirretrovirais”, afirmou Bhinde.
Ele observou que várias grandes empresas farmacêuticas indianas, incluindo Cipla, Sun Pharma e Dr. Reddy’s Laboratories, estabeleceram subsidiárias e unidades de produção em África para reforçar o abastecimento local.
Mas Bhinde disse que o conflito atual expôs o quão vulneráveis essas cadeias de abastecimento continuam a ser. "As remessas foram desviadas, os custos de logística e de seguros aumentaram e os materiais críticos para a indústria farmacêutica indiana estão sob pressão”, disse.
O executivo farmacêutico Adeseun afirmou que o desafio da segurança de medicamentos em África vai além de simplesmente produzir mais medicamentos localmente.
Sistemas de aquisição fracos, compras públicas atrasadas, redes de distribuição opacas e baixa visibilidade da cadeia de abastecimento frequentemente transformam choques externos numa crise de abastecimento em larga escala.
"O que parece um aumento no preço dos medicamentos é, na verdade, um teste à soberania da cadeia de abastecimento", disse Adeseun.
"A produção local é necessária, mas não será suficiente a menos que esteja ligada a compras previsíveis, visibilidade da cadeia de abastecimento e responsabilidade"
Editado por: Wesley Rahn