Médio Oriente: Como ficam as relações entre Irão e África?
6 de março de 2026
A presença do Irão em África remonta ao século XVI. Teerão tem interesse em reforçar as suas parcerias estratégicas, económicas, de segurança militar, religiosas, científicas e académicas com os países africanos - ao mesmo tempo que contorna, tanto quanto possível, as sanções internacionais. Em 2025, as exportações iranianas para África aumentaram 85% face a 2024.
No entanto, a guerra dos EUA e Israel com o Irão surge num momento difícil para muitas economias africanas. Analistas entendem que as consequências para o continente africano ainda permanecem incertas.
Para já, o conflito está a afetar o comércio global, desviando os navios do Canal do Suez para a rota mais longa à volta de África, via Cabo da Boa Esperança, o que aumenta os custos de transporte e faz subir os preços para os consumidores. Na Nigéria, por exemplo, segundo a imprensa local, o preço dos combustíveis já subiu cerca de 11% esta semana.
Irão e a Aliança dos Estados do Sahel
Com o enfraquecimento da influência ocidental na região do Sahel, particularmente a da França, o Irão acabou por aprofundar os seus laços com países como o Mali, Burkina Faso e Níger.
No final de fevereiro, o Presidente iraniano Massoud Pezeshkian recebeu em Teerão o ministro da Defesa do Burkina Faso, o general Célestin Simporé, para discutir o reforço da parceria no domínio da segurança. Também o primeiro-ministro do Níger, Ali Lamine Zeine, viajou para Teerão em janeiro de 2024.
Ainda assim, apesar da aproximação, a presença do Irão em África continua a ser mais reduzida do que a da Alemanha ou da França, explica Salifou Nouhou Jangorzo, professor e investigador da Universidade de Maradi, no Níger.
"O Irão tem representações diplomáticas em 22 países africanos, o que demonstra o seu interesse pelo continente. Através dessas embaixadas, mantém relações em vários domínios, nomeadamente económicos. Também organiza, pontualmente, fóruns e encontros", diz.
Possível interesse do Irão no urânio do Níger
Os EUA, Israel e outros países acusam o Irão de querer enriquecer urânio para construir armas nucleares, fazendo do Níger, rico em urânio, um país de possível interesse de Teerão.
Um artigo da revista militar Africa Defense Forum, publicado em 2024, dava conta que Níger e Irão estariam a negociar a compra, por parte de Teerão, de 300 toneladas de urânio. No entanto, isso ainda não aconteceu: "Até à data, o Níger não vendeu urânio ao Irão", garante o jornalista e escritor nigerino Seidik Abba.
"É verdade que o Irão manifestou interesse, no âmbito da sua estratégia de desenvolvimento de energia nuclear. Algumas especulações apontam mesmo para ambições relacionadas com armas nucleares. Mas atualmente não existem relações económicas intensas entre Niamey e Teerão nesta área. O intercâmbio continua a ser essencialmente de natureza diplomática", acrescenta o mesmo analista.
Teerão tem repetido que não está a desenvolver um programa de armas nucleares e insistido que os seus planos são de natureza puramente civil.
Drones iranianos para os Estados africanos
Seidik Abba acrescenta que o que existe é uma cooperação tecnológica e militar. O Níger, assim como outros países africanos, está a comprar drones iranianos.
"Sabemos que em vários países africanos existe o desejo de adquirir drones, especialmente nos países que enfrentam o terrorismo", disse o também presidente do Centro Internacional de Reflexão e Estudos sobre o Sahel (CIRES), que acrescenta: "Grande parte dos drones é comprada à Turquia, mas alguns países também recorrem ao Irãoz".
Na opinião de Seidik Abba, com a guerra, o Irão pode ser forçado a concentrar a maior parte dos seus recursos políticos, económicos e diplomáticos no Médio Oriente, o que pode impactar algumas dinâmicas de cooperação em África.
Comunidades xiitas em África
"A vertente cultural, nomeadamente religiosa, desempenha um papel muito importante", diz Salifou Nouhou Jangorzo, que acrescenta que "através das comunidades xiitas, o Irão está fortemente enraizado em África".
Os xiitas encontram-se principalmente na África Ocidental - Guiné, Senegal, Níger e Nigéria - e em alguns países da África Oriental.
No Mali, mais de 95% da população é muçulmana.
À DW, Chouala Bayaya Haidara, imã xiita de Bamako, condena veementemente a morte do aiatolá Ali Khamenei.
Para ele, "matar Khamenei não é um ato de grandeza para os Estados Unidos. A América teria sido grande se tivesse conseguido impedir o Irão de lançar mísseis, mas o Irão continua a disparar mísseis quando e onde quer".
Também o imã sunita Ayouba Toure, do Mali, expressou a sua solidariedade com o povo iraniano.
"Por vezes, o Irão quer produzir armas nucleares, outras vezes quer fazer isto ou aquilo... Mas quem autorizou os Estados Unidos, que possuem armas nucleares, a fabricá-las? Conclui-se que eles são os senhores do mundo, que são os mais merecedores, que devem beneficiar de tudo e os outros devem segui-los. Isso já não é hegemonia, mas uma selva", disse.
Analistas dizem que as consequências para a África permanecem incertas.