Biólogo alemão explica ″anéis de fada″ no deserto do Namibe | Angola | DW | 03.04.2013
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Angola

Biólogo alemão explica "anéis de fada" no deserto do Namibe

Um artigo de Norbert Jürgens, publicado na revista "Science", parece ter solucionado o mistério em volta dos milhares de círculos de grama em imensas da periferia árida. Mas a publicação gerou polémica e muitas críticas.

Biólogo alemão explica anéis de fada no deserto do Namibe

Biólogo alemão explica "anéis de fada" no deserto do Namibe

Milhares de círculos de grama cobrem imensas áreas na periferia árida do deserto do Namibe, inclusive no sudoeste de Angola, onde os círculos são os maiores: alcançam até 50 metros de diâmetro. O fenómeno, até hoje não explicado, é conhecido como "anéis de fada".

O professor da Universidade de Hamburgo estudou o fenómeno entre 2006 e 2012. Percorreu 2 mil quilómetros entre o sudoeste de Angola e o noroeste da África do Sul. Para entender como são formados os milhares de anéis de fada, Norbert Jürgens estudou a humidade do solo nas áreas vazias circundadas por grama e que aparecem aos milhares nas regiões analisadas.

Em entrevista à DW África, o professor explicou o que são, afinal, essas aparições únicas no mundo que suscitaram inclusivé teorias que dizem que os anéis foram criados por extraterrestres. "São como manchas vazias, redondas na vegetação", descreve, explicando que "esses anéis aparecem exclusivamente nas periferias do deserto do Namibe [que se estende pelo sudoeste de Angola até à Namíbia], onde ainda não há árvores nem savana, onde só existem solos de areia ou de grama que cresce após chuvas raras".

De 1 a 50 metros, círculos parecem "plantações no deserto"

Térmites e cupins modificam totalmente o ecossistema do deserto do Namibe, explica especialista

"Térmites e cupins modificam totalmente o ecossistema do deserto do Namibe", explica especialista

Essas áreas circulares, cercadas por um anel de grama mais espesso que a parca vegetação no resto da região, podem aparecer às centenas ou aos milhares. Na África do Sul, diz Jürgens, os chamados "anéis de fadas" são pequenos, têm de 1 a 2 metros de diâmetro. "Na Namíbia e até à fronteira com Angola, a dimensão aumenta, o diâmetro pode chegar até 15 metros. E, em Angola, os anéis ficam gigantescos: têm mais de 20 metros de diâmetro. Alguns círculos isolados chegam a ter 50 metros de diâmetro", afirma o biólogo alemão.

O que faz desse fenómeno natural algo especial, segundo o professor Norbert Jürgens, é o fato de os círculos de grama serem uma espécie de "plantação" permanente em áreas que normalmente seriam um deserto completo ou uma savana seca. Os anéis de fadas duram vários anos e só aparecem depois das chuvas – antes de serem formados os anéis, o deserto fica com cara de deserto, diz o cientista. "Depois de os animais comerem a grama do círculo, a marca circular desse gramado permanece e acaba servindo de alimento para muitos animais que vivem constantemente no deserto", afirma.

Os anéis de fada, continua o biólogo, só aparecem no deserto do Namibe porque o Namibe é a região árida mais antiga do planeta, em comparação com outros desertos que tiveram áreas húmidas mais recentes. "Há 7 mil anos, por exemplo, o deserto do Saara era uma savana seca com árvores, elefantes e outros animais típicos da savana. No Namibe, a evolução teve mais tempo de desenvolver e adaptar fenômenos como os anéis de fada", afirma Jürgens.

Namibe é a região mais árida do planeta, pelo que teve mais tempo de desenvolvimento, o que ajuda a explicar o fato de só neste deserto se verificar o fenómeno

Namibe é a região mais árida do planeta, pelo que teve mais tempo de desenvolvimento, o que ajuda a explicar o fato de só neste deserto se verificar o fenómeno

Térmites e cupins estão por trás do mistério

Segundo o biólogo, o fenómeno surge quando, depois da chuva, uma nova colónia de térmites ou cupins de areia come alguns metros quadrados das sementes de grama que ficam armazenadas permanentemente debaixo da terra. Nos solos arenosos, a chuva não é absorvida pela grama, mas entra diretamente no solo, formando, portanto, a área circular.

Essa água que penetra no solo arenoso acaba sendo armazenada a 50 centímetros abaixo da superfície e forma um tipo de reserva de água", explica o biólogo. "Nessa profundidade, a água não evapora. E esse é o truque com o qual os térmites modificam totalmente o ecossistema do deserto do Namibe. Comendo as raízes da grama abaixo do solo, os térmites criam uma espécie de oásis subterrâneo no deserto. E essa bolha de água alimenta a grama ao redor do círculo consumido pelos térmites", esclarece o especialista, concluindo que, por isso, "a grama é mais espessa nas bordas da área roída pelos insetos"

"Faltam provas", dizem outros cientistas

A teoria de Norbert Jürgens não é nova, mas é a primeira que apresenta uma ligação estatística entre o número de térmites e os círculos. O biólogo foi bastante criticado por outros cientistas, que disseram, por exemplo, que Jürgens não tem nada além dessas estatísticas para provar o fenómeno e que faltam provas concretas de que os cupins sejam os primeiros responsáveis pelos "anéis de fada".

Jürgens, por seu lado, acha que os cientistas que criticaram o trabalho usaram os meios de comunicação para criar uma polémica e que ele, ao contrário do cientista Walter Tschinkel, da universidade norte-americana Florida State, estudou os "anéis de fada" em vários locais e não só na Namíbia.

O fato de térmites normalmente "limparem" áreas em forma de túneis em vez de círculos também foi explicada por Norbert Jürgens na entrevista que deu à DW África: "Realmente esses animais se movimentam em túneis ou em ziguezague. No primeiro ano, a forma das áreas é mais quadrada. Mas, com o tempo, acontecem dois processos: em primeiro lugar, provavelmente, a água armazenada no solo é puxada para todas as direções pelo solo mais seco; em segundo lugar, os térmites no solo se acumulam circularmente no solo ao redor da maior bolha d'água", explica.

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