África: Produção de vacinas anti-Covid em risco | NOTÍCIAS | DW | 12.05.2022

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NOTÍCIAS

África: Produção de vacinas anti-Covid em risco

Faz um ano que a África do Sul celebrou a abertura da primeira linha de produção de vacinas anti-Covid no continente. Mas a baixa procura ameaça a existência da fábrica.

Trisha não se deixou vacinar, porque ouviu dizer que pessoas morreram por causa da vacina contra a Covid-19. "Fiquei assustada. Não quero arriscar a minha vida", disse. Só metade dos membros da sua família estão vacinados, contou à DW a estudante de 19 anos. Uma percentagem que ainda assim está um pouco acima da média no país.

Cerca de 40% dos sul-africanos adultos têm a vacinada completa. O número correspondente em todo o continente é de 15%. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabeleceu um objetivo de 70% de cobertura para todos os países até junho de 2022. Até agora, apenas as Ilhas Maurícias e as Seicheles atingiram essa meta em África. Torna-se cada vez mais provável que maioria dos países ficará aquém da expetativa.

De 'acordo histórico' a fracasso histórico?

"Temos de combater a complacência", diz Stavros Nicolaou, administrador sénior do Grupo Aspen Pharmacare. A empresa começou a fabricar vacinas anti-COVID na cidade de Gqeberha, na África do Sul, há cerca de um ano.

À espera da vacina

A relutância em se deixar vacinar ainda é grande em África

A fábrica recebeu financiamento de longo prazo no valor de 600 milhões de euros de várias agências de desenvolvimento, também da Alemanha. Na altura, o Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, falou de um "acordo histórico". Segundo as suas próprias informações, a Aspen estava capacitada para produzir mais de 200 milhões de doses por ano para a Johnson & Johnson. O número nunca foi atingido.

Mais tarde, a Aspen entrou num acordo de licenciamento com a Johnson & Johnson e adquiriu direitos para fabricar a sua própria vacina anti-COVID, a Aspenovax.

Falta de encomendas

Cientistas na África do Sul

A África do Sul está na vanguarda da pesquisa medicinal

Até agora a empresa não recebeu uma única encomenda. Cresce o risco de ter que encerras as linhas de produção. "Toda a gente apoiou a construção de capacidades locais no continente", disse Nicolaou à DW. "Mas essa vontade política não foi expressa de modo prático em encomendas".

A Aspen contava, em vão, com encomendas de agências de aquisições multinacionais. Cerca de 60% das vacinas anti-COVID utilizadas em África foram fornecidas pela iniciativa COVAX apoiada pela Organização das Nações Unidas (ONU). No passado, vários países industrializados doaram as suas doses excedentárias à COVAX e às nações mais pobres. Muitas delas à beira da data de expiração.

'Um enorme revés para os planos de África'

Devido à ausência de encomendas, a Aspen delibera a reorientação de duas linhas de produção da vacina para o fabrico de outros produtos. "O continente perderia a sua única capacidade de fabrico de vacinas para a Covid-19", avisa Nicolaou. "Seria um enorme retrocesso para os planos africanos de localizar, e assim reduzir a sua dependência de vacinas importadas".

Presidente Cyril Ramaphosa recebe a vacina

O Presidente sul-africano Cyril Ramaphosa deu o exemplo ao receber a vacina em público

Cerca de um por cento das vacinas utilizadas em África são atualmente fabricadas no continente. No início da pandemia, vários líderes africanos afirmaram querer 60% de todas as vacinas produzidas localmente até 2040. O principal organismo de saúde pública africano, os Centros Africanos de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC), instou todos os compradores de vacinas para a Covid-19 no continente a encomendar à Aspen.

Wolfgang Preiser, um virólogo da Universidade sul-africana de Stellenbosch, diz que o risco de encerramento da produção é uma notícia alarmante. O perito receia que no caso provável de futuras pandemias, as empresas farmacêuticas possam estar mais relutantes em pressionar o aumento dos investimentos. Para Preiser não se trata de desenvolvimento inesperado. Quando a capacidade de produção global foi aumentada a nível mundial, tornou-se evidente que a oferta de vacinas acabaria exceder a procura, disse à DW.

Adaptar a produção

Seis países africanos estão atualmente a estabelecer linhas de produção de vacinas mRNA. Preiser acredita que estas poderiam ser reequipadas para produzir outros tipos de vacinas. "Este setor cresceu enormemente durante a pandemia. Muitas pessoas esperam que, no futuro, tenhamos vacinas mRNA contra uma série de outras doenças, possivelmente também contra o cancro".

Grafite nas ruas de Joanesburgo

A Covid-19 volta a alastrar na África do Sul

A reputação da vacina da Johnson & Johnson pode ser outra razão para a falta de encomendas, diz Preiser. "Teve um começo um pouco difícil", lembra o virólogo. Na semana passada, as autoridades nos Estados Unidos anunciaram limites estritos para quem pode receber a vacina Johnson & Johnson, por causa de preocupações contínuas sobre um efeito secundário raro mas grave que leva a um aumento de coágulos de sangue com possível risco para a vida dos pacientes.

Insistir na vacinação

Não obstante as dificuldades, os CDC têm vindo a recomendar a vacina Johnson & Johnson no continente, que, ao contrário das vacinas mRNA, é mais fácil de armazenar e distribuir, especialmente em zonas rurais.

Preiser sublinha que todas as vacinas aprovadas são seguras e eficazes. O número de novas infeções por COVID-19 na África do Sul estão atualmente a aumentar, impulsionado pelas variantes BA.4 e BA.5 da Ómicron.

Preiser diz que por vezes se sente cansado de discutir com aqueles que recusam a vacina. "Faz-me lembrar há 25 anos atrás, quando tínhamos cenários semelhantes para a Sida".

"Precisamos de melhorar a nossa forma de comunicar com o público para convencer as pessoas a serem vacinadas", diz o virólogo. A taxa de mortalidade excessiva durante a pandemia sugere que 300.000 mortes na África do Sul estão relacionadas com a Covid-19.