Protestos em Angola: ″Corremos o risco de ver um jornalista morto″ | NOTÍCIAS | DW | 17.11.2020

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NOTÍCIAS

Protestos em Angola: "Corremos o risco de ver um jornalista morto"

Jornalistas angolanos exigem explicações à Polícia Nacional por violência contra profissionais que cobriam a manifestação de 11 de novembro, em Luanda. Sindicato pede ainda o pagamento dos danos materiais causados.

O Sindicato dos Jornalistas Angolanos (SJA) exige à Polícia Nacional o pagamento dos materiais de jornalistas danificados pelos agentes que reprimiram as últimas manifestações que aconteceram em Luanda. O secretário-geral do SJA, Teixeira Cândido, disse em conferência de imprensa que desafiou o comandante-geral da Polícia Nacional de Angola a explicar as razões que levam os seus efetivos a maltratar profissionais que reportam protestos contra o Governo.

"A situação é grave. O senhor comandante-geral da Polícia Nacional devia-se dignar a explicar à sociedade por que razão é que a Polícia Nacional tem estado a agredir, tem estado a violentar os jornalistas no sentido das suas funções", afirmou o dirigente sindical.

A direção do órgão que defende os direitos dos jornalistas em Angola condenou as agressões e humilhações de que foram vítimas profissionais de imprensa que cobriam a violência policial contra os manifestantes que exigiam melhores condições de vida e implantação das autarquias no país, a 11 de novembro. O sindicato vai escrever às autoridades policiais a exigir esclarecimentos sobre o desrespeito à classe jornalística angolana, que diz ser "recorrente".

"Corremos o risco de vermos um dia um jornalista morto, simplesmente porque se deslocou para cobertura de uma manifestação que é um facto de interesse público. E é essa a nossa preocupação", alertou Teixeira Cândido.

Angola Teixeira Cândido

Teixeira Cândido mostra fotografias de material danificado durante a cobertura do protesto.

Agressões, detenções e danos

Na semana passada, o correspondente da Rádio Ecclesia em Cabinda, Cristóvão Luemba, foi detido dentro da redação da emissora, localizada no bispado do enclave, por ter noticiado os preparativos da manifestação de 11 de novembro. Os agentes do Serviço de Investigação Criminal (SIC) que o detiveram não apresentaram nenhuma ordem de detenção.

Já no dia do protesto, vários repórteres foram agredidos e detidos. Além disso, segundo o líder do sindicato dos jornalistas, vários perderam os materiais de trabalho. "O colega da Reuters Lee Bogotá foi exatamente agredido e no dia 14 devolveram-lhe a câmara completamente partida, já não é utilizável. No mesmo dia 11, o colega Fernando Guelengue também foi detido, acabaram por devolver o seu telemóvel, mas o colega Agostinho Caiola, assim como os colegas detidos no dia 24 de outubro, a polícia ainda não devolveu os seus materiais de trabalho", explicou Teixeira Cândido na conferência de imprensa, exibindo imagens dos materiais danificados nos protestos.

Para o líder sindical, a força de ordem e segurança pública desrespeitou o pedido do Presidente da República, que em finais de outubro apelou à não violência contra os profissionais. Por outro lado, apela à solidariedade entre os membros da classe jornalística em Angola, frisando que "só os jornalistas podem defenderem-se uns aos outros".

Assistir ao vídeo 00:42

Kwanza Norte: Protesto por melhores condições de vida é reprimido pela polícia

"Ninguém vai fazer isto por nós. Qualquer um de nós está sujeito a ver os seus meios partidos ou a ser agredido no exercício da sua profissão. Portanto, não estamos a defender nomes, estamos a defender uma classe, estamos a defender o direito de exercermos plenamente como qualquer outro profissional", sublinhou.

Jornalista move queixa-crime

Em declarações à DW África, o jornalista Cristóvão Luemba, detido e interrogado pelo SIC em Cabinda, diz que moveu uma queixa-crime contra aquele órgão do Ministério Interior. "Desde o dia 10, em que a situação ocorreu, quer as autoridades oficialmente, quer os próprios efetivos do SIC, ainda não fizeram nenhum pedido de desculpa formal", afirma. "Acho que há aqui uma situação deliberada de ver mal alguém".

Ainda assim, sublinha, acredita nas instituições de justiça: "Junto destas instituições, vamos procurar apurar a veracidade deste caso, porque não basta dizer 'vá-se embora', depois de uma detenção, e as coisas ficam assim. Precisamos que a detenção seja esclarecida. Por isso, demos entrada duma participação junto das instâncias judiciais".

Entretanto, a morte do jovem Inocêncio Matos no protesto de 11 de novembro levou a Convergência Ampla de Salvação de Angola - Coligação Eleitoral (CASA-CE) a propor um debate no Parlamento "com caráter de urgência" sobre a opressão e repressão de manifestações.

As versões sobre a morte do manifestante ainda são desencontradas e a família exigiu um novo exame de autópsia, segundo fonte familiar ouvida pela DW África.

Assistir ao vídeo 00:51

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