Nampula: Ativista reaparece após alegada perseguição
28 de dezembro de 2025
Sismo Eduardo é um crítico do regime em Moçambique e terá regressado com alegadas garantias de segurança por parte do Governo. O seu reaparecimento tem gerado estranheza e debate na província, com críticos a acusarem o ativista de encenação.
Eduardo Abdula, governador de Nampula, garante, no entanto, que o apoio prestado a Sismo Eduardo não visa conquistar ou persuadir o ativista.
Sismo Eduardo Muchaiabande deixou a sua casa no passado dia 24 de novembro, quando se apercebeu de movimentações estranhas na sua rua e nas proximidades da sua residência.
"O que me motivou a sair foram as ameaças constantes, portanto, antes que as balas pudessem entrar na minha cabeça decidi adiantar-me", afirmou.
Questionado sobre quem poderia estar por detrás da alegada perseguição,Sismo Eduardo não avançou nomes, mas disse: "Quem são os que estão a explorar os recursos minerais em Moçambique? Quem são os que contraem dívidas, fingem ter recebido financiamento para estradas que não constroem e ‘comem' o dinheiro? Quem são esses que fingem combater a corrupção enquanto são eles os primeiros corruptos?", disse.
"Voz crítica"
Sismo Eduardo é conhecido por ter uma voz crítica contra o partido que lidera Moçambique há 50 anos, a FRELIMO. No entanto, o ativista terá regressado a Nampula com garantias de seguranças por parte do Governo.
O caso tem gerado debate com alguns críticos a considerarem que tudo não passou de uma encenação para, alegadamente, ganhar visibilidade.
A jornalista moçambicana Licínia Anastácio levanta dúvidas, dado os contornos do sucedido. Segundo ela, há questões que colocam em causa a atuação dos defensores dos direitos humanos desta província e se calhar do país", disse.
"Nos primeiros sete dias após o desaparecimento do Sismo Eduardo, a Rede Moçambicana dos Defensores dos Direitos Humanos submeteu uma carta à PGR onde exigia que se investigasse as nuances da retirada do Sismo da província e que nem a família e nem a rede conseguia contactá-lo", afirmou.
"Mas, 20 dias depois, volta-se a informar o regresso do ativista à província e levanta-se questões: 'como?', se nem a família, nem a Rede conseguiam contactá-lo. Quem o teria informado de que já era seguro regressar?", questiona.
Gamito dos Santos, da Rede Moçambicana dos Defensores dos Direitos Humanos em Nampula, explica que após contactos com as autoridades, o Governo da província de Nampula "assumiu garantir a segurança do ativista".
"Bons olhos"
"É a primeira vez na história que um defensor desaparece e é custeada a passagem pelo Governo [na pessoa do governador] e este é o primeiro caminho para entrarmos em concordância com as autoridades que gerem o Estado para que esses defensores tenham a sua segurança", disse.
Por sua vez, o governador de Nampula, Eduardo Abdula, argumenta que o apoio na passagem aérea, da Beira para Nampula, e de segurança ao ativista não visa desviá-lo.
"Vejo o Sismo Eduardo como a nossa contraparte na assessoria de governação. Todas as criticas e observações, de todos os membros da sociedade civil, desde que iniciei esta governação, tenho transformado em matriz de ação", afirma.
Já Sismo Eduardo desvaloriza as acusações e sublinha que a alegada perseguição recente não o irá demover de continuar a trabalhar em defesa dos interesses do povo.
"Com que objetivo fingiria que estou a ser perseguido? (…) Eu não pedi passagem de ninguém para sair da cidade [de Nampula, a parte incerta], e nem a minha esposa e disse onde ia, porque havia de fazer isso [encenação]?", questiona o ativista.