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Peças de bronze do Benim expostas em museu da Alemanha (Foto de arquivo / 2018)Foto: Daniel Bockwoldt/dpa/picture alliance
CulturaÁfrica

Africanos "não querem" todos os objetos dos museus europeus

Lusa
19 de fevereiro de 2022

Primeiro africano a gerir o Património Mundial da UNESCO considera que a restituição de bens a países africanos é importante, mas que "os museus africanos não querem todos os objetos dos museus ocidentais".

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O novo diretor do Centro do Património Mundial da UNESCO considera que a restituição de bens a países africanos é importante, mas não vai esvaziar os museus europeus, salientando a "universalidade" dos locais inscritos na lista do Património Mundial.

"A ligação entre o Património Mundial e a restituição de obras de arte não é óbvia, porque se trata da restituição de objetos. Mas as restituições são muito importantes porque podem dar mais sentido a um determinado lugar [...] Os profissionais dos museus africanos não querem a restituição de todos os objetos nos museus ocidentais. Eles reclamam os objetos mais importantes para eles que devem voltar", afirmou Lazare Eloundou Assomo em entrevista à agência de notícias Lusa.

Com um percurso de quase 20 anos na organização, Lazare Eloundou Assomo é o primeiro africano a dirigir este centro da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) que tem como principais missões acompanhar os 1.124 locais classificados como Património Mundial espalhados pelo globo e ajudar a preparar as candidaturas.

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Restituição de obras

Este alto funcionário da UNESCO tem participado nos processos de restituição de obras de arte roubadas ou espoliadas a certos países, nomeadamente em África, e acredita que os museus europeus, como o Museu Quai Branly - Jacques Chirac, em França, que recentemente devolveu obras de arte ao Benim, são "importantes" e têm feito um bom trabalho de conservação.

Tendo África como uma prioridade, a diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, escolheu Lazare Eloundou Assomo para encabeçar uma das partes mais importantes da instituição, um simbolismo que não escapa a este camaronês de 58 anos.

"Sinto-me muito honrado da confiança que a diretora-geral me depositou. É um grande orgulho e estou ainda mais contente porque a mensagem é: qualquer que seja a região do Mundo de onde venhamos, podemos ter este cargo", indicou.

Esclarecendo que não lhe cabe a ele estabelecer as prioridades do Centro do Património Mundial da UNESCO, Assomo diz que a sua experiência no terreno lhe permite compreender a importância que este património representa para as comunidades.

"Percebi como o património é importante para as comunidades, é uma questão de brio, mas também porque o património mundial tem um papel importante na preservação das identidades culturais, promoção da paz e até na reconciliação", explicou.

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Terrorismo ameaça herança cultural

Uma das maiores ameaças atualmente a estes lugares com forte carga de herança cultural é o terrorismo, com pequenas comunidades a verem-se privadas do seu passado.

"O terrorismo é uma ameaça, porque, por exemplo, se falarmos do Sahel, ele não foi erradicado. Quando vemos as consequências do terrorismo em aldeias que são pequenos patrimónios e são completamente aniquiladas, incendiadas, são todas as referências culturais destas pequenas comunidades que desaparecem", lamentou.

Quanto às mudanças súbitas de regime, nomeadamente no Mali onde Lazare Eloundou Assomo trabalhou durante vários anos, o funcionário da UNESCO lembra que a organização trabalha com as comunidades e que a proteção do património vai continuar.

Com menos de um décimo dos lugares classificados como património mundial, África está ainda sub-representada na lista de locais naturais ou construídos pelo Homem, uma situação reconhecida pela UNESCO, mas que tem causas históricas.

"Na altura em que foi criada a Convenção do Património Mundial, certos países estavam aa aceder à independência, portanto a inscrição não era uma prioridade como foi na Europa. [...] Quando vemos as primeiras inscrições, ela eram sob categorias que não existiam em África, não daquela maneira, dou muitas vezes o exemplo da Torre Eiffel. Mas há certas categorias que são testemunhos importantes de como as sociedades se desenvolveram. Estas novas categorias começam a ser aceites no Património Mundial e isso vai levar a mais inscrições", declarou.

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Novos patrimónios mundiais

Quanto a uma possível limitação de inscrição de novos lugares nas listas, Lazare Eloundou Assomo diz que os Estados estão cada vez mais conscientes da apresentação de dossiers sólidos e que devido ao desequilíbrio entre regiões do Mundo, não pode haver um número máximo de inscrições.

"Esta ferramenta tornou-se verdadeiramente universal há poucos anos, portanto os países que assinaram mais tarde, têm, como é óbvio, o direito de ser inscrever lugares na lista do Património Mundial", indicou.

Fora dos critérios mais formais que levam ou não a um reconhecimento de um edifício ou uma cidade a Património Mundial, o novo diretor considera que a universalidade é o que liga todos estes locais.

"Quando chegamos a qualquer sítio no Mundo classificado como património mundial é o respeito que importa, portanto quando compreendemos o seu valor, a sua importância para as comunidades que ali vivem, é isso a universalidade", indicou.

Com a Convenção do Património Mundial a celebrar 50 anos em 2022 e com uma ratificação plena por todos os países do Mundo, Lazare Eloundou Assomo espera que o património mundial continue a unir os povos nos próximos 50 anos.

"Espero que o património Mundial continue a ser uma ferramenta da UNESCO que continue a juntar toda a gente no intuito de promover a diversidade cultural, mas que ele não divida", concluiu.

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