Irão: Morte de líderes deixa pouca margem para negociação
21 de março de 2026
Fumo negro eleva-se sobre o Golfo Pérsico, enquanto campos de gás, centrais elétricas, infraestruturas civis e instalações militares em toda a região estão sob ataque do Irão. O governo iraniano afirmou que continuará a responder na mesma medida aos ataques dos EUA e de Israel contra alvos militares, civis e de produção de energia no seu território — mesmo que o Presidente dos EUA, Donald Trump, tenha declarado mais do que uma vez que o Irão foi militarmente derrotado.
À medida que a guerra entra na quarta semana, aumenta a pressão política sobre Washington. A subida dos preços da energia está a alimentar a inflação e a incerteza económica a nível mundial. Ainda assim, os EUA e Israel continuam a campanha conjunta de bombardeamentos.
Haverá ainda espaço para negociações?
Marcus Schneider, responsável pelo Projeto Regional de Paz e Segurança no Médio Oriente da Fundação Friedrich Ebert, com sede em Beirute, vê poucas hipóteses de diálogo neste momento.
“Estou muito cético neste momento”, afirma em declarações à DW.
Interlocutores-chave "já não estão presentes"
Com o assassinato seletivo de figuras-chave iranianas, foram eliminados interlocutores importantes. Ao mesmo tempo, potenciais sucessores estão também sob ameaça.
“Essas pessoas já não estão presentes”, observou Schneider. “E aqueles que estão a assumir o seu lugar são considerados muito menos dispostos a compromissos.”
O líder supremo do Irão, Ali Khamenei, foi morto nas primeiras horas da guerra, a 28 de fevereiro. O seu filho, Mojtaba Khamenei, foi nomeado novo líder supremo, mas não foi visto em público desde o início do conflito, entre especulações de que terá ficado gravemente ferido no ataque.
Outros altos responsáveis também foram assassinados, incluindo o chefe de segurança Ali Larijani, amplamente visto como um dos principais decisores do regime.
Défice de confiança
Mesmo que Washington estivesse disposto em avançar para negociações, provavelmente haveria pouco interesse do lado iraniano, afirma Stefan Lukas, diretor do grupo de reflexão Middle East Minds, sediado em Berlim.
A atual liderança iraniana aprendeu com a experiência que ataques podem acontecer mesmo enquanto decorrem negociações, acrescentou. Do ponto de vista de Teerão, os danos causados pelos EUA são demasiado grandes para que se estabeleça qualquer nível de confiança.
No entanto, não se pode excluir a existência de contactos entre as partes em conflito através de canais informais, por exemplo via Iraque ou Omã, sublinha Lukas.
“No entanto, não haverá mudanças significativas a nível diplomático por enquanto”, defende.
Regime iraniano mantém-se resiliente
Do ponto de vista do Irão, é claro que qualquer pessoa em posição de negociar estaria em risco.
“Esta estratégia de ataques de decapitação está agora a produzir o efeito contrário”, diz Schneider.
A suposição de que a eliminação de líderes-chave poderia conduzir a uma rápida mudança de regime revelou-se um erro de cálculo, frisa.
“Para o regime iraniano, sobreviver a um conflito armado com os EUA já constitui uma vitória”, segundo uma análise do grupo de reflexão norte-americano Middle East Institute.
Esta avaliação é consistente com a impressão de que Teerão está atualmente menos focado em avanços militares e mais nos resultados políticos e estratégicos.
Stefan Lukas aponta para a resiliência estrutural do regime, por vezes designada “estratégia de defesa em mosaico”, na qual unidades semi-autónomas podem operar em diferentes áreas sem uma estrutura de comando centralizada. “O regime sempre foi uma caixa negra”, acrescenta.
Apesar dos ataques, a estratégia do regime de exercer pressão económica sobre os mercados energéticos parece estar a ser bem-sucedida.
Escalada económica global
O bloqueio do Estreito de Ormuz e os ataques a infraestruturas energéticas tiveram um impacto direto nos mercados globais.
“Por que haveria o Irão de parar agora?”, questiona Schneider.
“As guerras não são decididas apenas militarmente, mas também politicamente. Teerão espera que a sua capacidade de suportar dificuldades se revele superior à dos seus adversários.”
Embora o Irão possa não ser capaz de igualar militarmente os Estados Unidos, pode escalar a guerra no plano económico, segundo uma avaliação da Thomson Reuters. Isto desloca o equilíbrio de poder, pelo menos em parte, para um terreno onde a superioridade militar é menos decisiva.