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Liberdade de imprensaIrão

Guerra no Irão intensifica repressão à imprensa

Daniel Ameri
3 de maio de 2026

Com a guerra, as autoridades iranianas estão a tornar ainda mais restrito um ambiente jornalístico já de si repressivo, onde a informação é estritamente controlada.

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Iran Teheran | Tageszeitungen Verhandlungen USA Nuklearprogramm
Foto: AO/Middle East Images/IMAGO

Há muito que o Irão figura entre os países mais repressivos do mundo no que diz respeito à liberdade de imprensa. No Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026, a Repórteres Sem Fronteiras colocou o Irão em 177.º lugar entre 180 países, mais abaixo que o Afeganistão. No entanto, jornalistas e observadores garantem que a guerra dos EUA e de Israel contra o Irão alavancou as condições de reportagem para um ponto ainda mais perigoso.

Em declarações à DW, um jornalista que trabalha para um conhecido órgão de comunicação iraniano afirma que esta publicação está agora a ser monitorizada mais de perto e que estão a ser transmitidas instruções editoriais vindas de cima sobre como a cobertura deve ser feita.

Segundo este jornalista, que pediu anonimato, não é possível aceder ao site deste jornal de fora do Irão. No país, atualmente, apenas um número limitado de meios de comunicação próximos das forças de segurança tem acesso fiável à internet.

Este relato assemelha-se a experiências relatadas por grupos de defesa da liberdade de imprensa.

Teerão, 2026
Apenas um número limitado de meios de comunicação próximos das forças de segurança tem acesso fiável à internetFoto: Majid Asgaripour/WANA/REUTERS

Em março, a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) informou que os jornalistas no Irão enfrentavam um bloqueio de informação, ao mesmo tempo que tentavam reportar em condições perigosas de guerra. A organização referiu ainda que alguns jornalistas estavam a receber ameças por telefone de instituições ligadas ao Estado. No mesmo relatório, a RSF afirma que o acesso à informação no Irão tem sido "severamente restringido".

Acesso seletivo à Internet

A agência de notícias Reuters informou, a 28 de abril, que o Irão enfrentava há três meses um bloqueio da internet, mas que as autoridades estavam a dar acesso limitado a algumas empresas ao abrigo de um regime temporário conhecido como "Internet Pro". Segundo a Reuters, o bloqueio começou a 8 de janeiro, foi brevemente aliviado em fevereiro e voltou a ser imposto após o início da guerra, a 28 de fevereiro.

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Outra jornalista iraniana ouvida pela DW confirma que há colegas com acesso à internet. Segundo ela, existem os chamados "cartões SIM brancos", que permitem um acesso mais livre à internet internacional a pessoas aprovadas pelas agências de segurança. No entanto, na sua opinião, o acesso é "politicamente comprometedor", uma vez que a expetativa subjacente a tal privilégio é clara: que a produção destes jornalistas se mantenha dentro dos limites da narrativa estatal.

Medo, censura e propaganda

Outro jornalista ouvido pela DW diz que, com a guerra, até as reportagens do dia-a-dia se tornaram arriscadas, especialmente se implicarem deslocações a locais sensíveis ou eventos políticos.

Baseado em Teerão, o profissional explica que a reportagem independente se tornou quase impossível. Aé mesmo alguns repórteres credenciados que tentaram cobrir os locais dos ataques foram detidos por breves momentos e as suas imagens apagadas, conta.

A DW não conseguiu verificar de forma independente cada um destes casos, mas o padrão geral corresponde ao que os grupos de defesa da liberdade de imprensa têm descrito.

Os jornalistas afirmam que os meios de comunicação nacionais estão, na prática, limitados à versão oficial dos acontecimentos e evitam publicar detalhes sensíveis vindos do terreno, incluindo o sentimento da população sobre a guerra.

Propaganda a falhar?

No entanto, alguns analistas argumentam que o esforço de propaganda do Estado não está a conseguir convencer grande parte do público. Behrouz Turani, especialista em comunicação social, afirmou que "a propaganda mediática do regime iraniano durante esta guerra falhou".

Segundo Turani, as mensagens veiculadas não estão de acordo ao que as pessoas estão a viver. Por isso, em vez de persuadir o público, explica o analista, estas mensagens vieram expor a crescente discrepância entre as narrativas oficiais e o que muitos iranianos vivem.

Pressão sobre jornalistas da diáspora

A repressão estendeu-se também a jornalistas e ativistas políticos exilados. A Reuters noticiou a 9 de março que Teerão tinha avisado os iranianos no estrangeiro que apoiassem publicamente os EUA e Israel de que poderiam enfrentar consequências legais, incluindo a perda dos seus bens no Irão.

Segundo a Reuters, o aviso partiu da Procuradoria-Geral e foi dirigido a membros da diáspora que haviam manifestado o seu apoio aos ataques contra o Irão na internet.

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Essa ameaça foi reforçada no final de março, quando o poder judicial iraniano afirmou que as pessoas acusadas de espionagem, de cooperar com "Estados hostis" ou auxílio em ataques inimigos poderiam enfrentar a pena de morte, ao abrigo de uma lei reforçada durante a guerra.

As autoridades iranianas afirmaram que a lei poderia também aplicar-se a algumas atividades relacionadas com os meios de comunicação social, incluindo a partilha de imagens ou vídeos considerados úteis para forças hostis.

O poder judicial e o aparelho de segurança do Irão perseguem há anos jornalistas, meios de comunicação social e cidadãos comuns devido a reportagens e comentários públicos. O que muitos repórteres descrevem agora não é um sistema inteiramente novo, mas uma versão muito mais severa de um sistema antigo, que está a levar a um vácuo informativo.

Com a crescente dificuldade em produzir reportagens independentes e o acesso à internet ainda restrito, o espaço para o jornalismo verificado diminui.

Isso dá ao Estado mais margem para promover a sua própria versão dos acontecimentos, ao mesmo tempo que torna mais difícil para os cidadãos, repórteres e o mundo exterior compreender o que realmente está a acontecer no terreno.

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