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Espionagem em Angola: "Violaram o meu telemóvel"

18 de fevereiro de 2026

Jornalista angolano Teixeira Cândido denuncia ter sido alvo de spyware, que infetou o seu telemóvel após receber links suspeitos no WhatsApp. Caso revela uma nova ameaça à liberdade de imprensa e à privacidade em Angola.

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Teixeira Cândido, secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos
"Sinto‑me nu após esta invasão da minha privacidade"Foto: Borralho Ndomba/DW

A Amnistia Internacional revelou uma nova investigação que confirma que o jornalista angolano Teixeira Cândido foi alvo do spyware Predator em 2024. Trata‑se de um software altamente invasivo, desenvolvido pela empresa Intellexa, capaz de aceder a todos os dados de um telemóvel, incluindo mensagens, fotografias e até ao microfone do dispositivo.

Segundo a organização, Cândido terá recebido, via WhatsApp, vários links maliciosos que aparentavam ser notícias legítimas. Um desses links, aberto a 4 de maio de 2024, infetou o seu iPhone e permitiu ao atacante acesso ilimitado ao aparelho. A Amnistia Internacional afirma que este é o primeiro caso forensicamente confirmado do Predator em Angola e alerta para uma possível campanha mais ampla de vigilância no país, num contexto de crescente autoritarismo e repressão contra jornalistas e opositores.

Cândido descreve sentir‑se "nu" perante esta invasão da sua privacidade. E diz que vai apresentar queixa na Justiça.

DW África: Como é que explica o que aconteceu consigo? O que aconteceu?

Teixeira Cândido (TC): Bom, eu não consigo explicar a razão de fundo. Não sei porque fui alvo de espionagem digital. Não tenho, à partida, uma explicação concreta. Não sei o motivo exato que fundamenta isto.

O que aconteceu foi que, em 2024, alguém me enviou uma mensagem pelo WhatsApp, apresentando-se como integrante de um grupo de estudantes que tinha um projeto e que gostaria de ouvir a minha opinião. Na altura, não dei seguimento à mensagem.

Nos dias seguintes, esse mesmo contacto voltou a escrever, mas já não sobre o tal projeto. Passou a enviar vários links de sites de informação, algo como "Info Informação 24" ou parecido, para que eu acedesse a essa suposta informação. Não acedi, até que, num dos dias, surgiu uma situação relacionada com um sindicato da Guiné-Bissau. Esse contacto enviou-me um link sobre o que estaria a acontecer com esse sindicato, perguntando se eu sabia algo sobre o assunto. Abri o link – e isso bastou para o meu telemóvel ser infetado.

DW África: Sabe de onde ligava o número?

TC: O número era angolano. Nunca tive contacto com a pessoa. Não tinha fotografia de perfil no WhatsApp. Pelo teor da conversa, comecei a desconfiar. Era insistente no envio de links. Mas, por várias circunstâncias e porque estava mais resguardado, não abria esses links. Segundo o relatório da Amnistia, isso terá ajudado a limitar os danos.

DW África: E o que aconteceu ao seu telemóvel depois?

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DW: Tive de restaurar o telemóvel completamente. Foi necessário apagar todo o conteúdo. Segundo a Amnistia, este tipo de spyware permite ao atacante vigiar a vítima, aceder a todos os seus dados e até ativar o microfone e acompanhar a localização. É algo extremamente invasivo. A Amnistia tem estudado este tipo de vírus ou produtos que a Intellexa comercializa, e foi isso que aconteceu ao meu telemóvel.

DW África: Acha que isto tem motivação política? Está relacionado com o seu trabalho?

TC: Não tenho a menor dúvida de que tem a ver com o meu trabalho, tanto enquanto líder sindical como enquanto jornalista. Temos defendido, de forma intransigente, a liberdade de imprensa. Temos denunciado a censura, os monopólios, a falta de transparência no licenciamento de órgãos de comunicação social em Angola e as limitações reais à liberdade de imprensa.

Aqui, a liberdade de imprensa varia conforme o estado de espírito de quem governa. Basta olhar para os órgãos públicos, para o monopólio da televisão, para a suposta televisão privada que se sabe ser controlada pelo MPLA, ou para o processo de concessão de rádios, que não é transparente. Quem obtém licenças são pessoas próximas do poder ou ligadas ao próprio Ministério.

Quando não conseguem calar um órgão de comunicação social, retiram-lhe publicidade ou pressionam empresas a não publicitar. Portanto, estou convencido de que isto tem relação direta com o nosso posicionamento.

Jornalista angolano Teixeira Cândido
"É um ataque que pretende silenciar jornalistas"Foto: Borralho Ndomba/DW

DW África: Acha que isto vem de dentro ou de fora de Angola?

TC: Tenho muitas dúvidas de que alguém externo ao país tivesse interesse nisto. Também duvido que sejam entidades privadas apenas por si. O número é angolano, não é de nenhuma operadora internacional. É de uma das nossas redes, da Unitel. Alguém usou esse número para infetar o meu telemóvel.

DW África: Estes casos são frequentes em Angola ou é uma novidade?

TC: É uma novidade. É a primeira vez que se confirma algo assim. A Amnistia já tinha denunciado, em 2023, que o Governo de Angola teria manifestado interesse em adquirir este sistema à Intellexa. E agora, em 2024, temos esta confirmação de que fui alvo do ataque. Coincidência ou não, os factos são estes.

DW África: Fez alguma denúncia? As autoridades estão a investigar?

TC: O relatório foi publicado hoje. Vou escrever ao Ministério Público, porque qualquer entidade, pública ou privada, que tenha este tipo de software viola direitos fundamentais, intimidade, vida privada, privacidade, acesso a documentos pessoais, entre outros. Estou a equacionar apresentar queixa.

DW África: Sente-se seguro agora? Ou continua a sentir-se ameaçado?

TC: Nunca se está verdadeiramente seguro. Se não sabemos quem está por trás, nem porquê, nem com que finalidade, como é que podemos dizer que estamos seguros? O meu maior consolo, como tenho dito, é que, no fim, ninguém sai vivo deste mundo. É o que me resta pensar.

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Braima Darame - Jornalista DW
Braima Darame Jornalista da DW África
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