Qual o destino do dinheiro dos subornos nas dívidas ocultas?
27 de fevereiro de 2019
Parte dos dois mil milhões de dólares das dívidas ocultas moçambicanas terá sido usada para esquemas de suborno e pagamento de comissões envolvendo altos funcionários do Governo moçambicano, funcionários séniores do Banco Credit Suisse e um negociador da Privinvest, na ordem de, pelo menos, 200 milhões de dólares.
Suspeita-se que o dinheiro dos alegados subornos tenha sido depositado no Dubai e noutros lugares ainda não devidamente identificados. Seguir o seu rastro parece estar a ser tarefa titânica, pelo menos para as autoridades moçambicanas.
Embora a prisão dos supostos prevaricadores possa ser uma forma de fazer justiça, ela não vai resolver os problemas económicos e financeiros de Moçambique resultantes das dívidas ilegais. Já o dinheiro em causa poderia ser de grande utilidade.
É possível reaver o dinheiro dos subornos?
Diante desse cenário, pergunta-se: é possível Moçambique reaver esse valor adquirido em nome do Estado? Jorge Matine é membro do Fórum de Monitoria e Orçamento (FMO) e defende que há outros pontos nevrálgicos que devem ser ultrapassados antes de se projetar um repatriamento:
"É muito cedo para aferir os mecanismos legais que podem assistir a Moçambique para pedir o repatriamento desse dinheiro. Mas, primeiro, é preciso estar claro se este país africano está em condições de reclamar isso", disse à DW África.
Segundo Matine, foi por esse motivo que o FMO submeteu ao Conselho Constitucional anulação a inscrição do referido negócio nos documentos orçamentais, de modo a permitir que Moçambique não tenha a possibilidade de pagar.
Entretanto, o membro do FMO esclarece: "Até agora não estamos na fase de exigir que os bancos ou instituições de outros países que se tenham beneficiado possam devolver o dinheiro a Moçambique. Pensamos primeiro que é preciso clarificar o nível de envolvimento desse país africano, a confirmação de que este negócio é ilegal, e que exime o povo moçambicano de poder pagar as dívidas".
"Governo pode apresentar argumentos consistentes para não pagar"
Três empresas estão associadas às dividas ocultas: Ematum, MAM e ProIndicus. Embora as dívidas sejam ilegais, por não terem tido o aval do Parlamento conforme manda a lei, foram legalizadas pelo Parlamento a posterior, obrigando o Governo a liquidar as dívidas com os credores, e foi acordada uma reestruturação das dívidas.
E mesmo depois de a justiça norte-americana ter iniciado detenções de figuras envolvidas em crimes financeiros num caso interligado as dívidas ocultas, em janeiro de 2019, o ministro das Finanças, Adriano Maleiane, afirmou que o acordo preliminar de reestruturação dos títulos de dívida soberana mantém-se.
Entretanto, segundo defende o colaborador da Jubilee Debt Campaign, Tim Jones, o Governo moçambicano pode apresentar argumentos consistentes para não pagar, pois "neste caso, porque este dinheiro tem origem em bancos de Londres, o povo moçambicano não teria de pagar o empréstimo", diz.
"O Governo moçambicano está a falhar com os empréstimos, não está a pagar, e poderia declarar que o crédito é ilegal, e pensamos que esse argumento poderia convencer a justiça do Reino Unido - que não têm de pagar a dívida", acrescenta.
"Não há chances de o ter de volta..."
Para o colaborador da Jubilee Debt Campaign, nenhum dos credores processou Moçambique nos últimos três anos, e "esse é um indicador de que sabem que não podem responsabilizar o povo moçambicano por estas dívidas. Cabe aos credores dizerem que querem o dinheiro de volta, mas não deviam tentar cobrá-lo a Moçambique", explica.
Já que o FMO e o Jubilee Debt Campaign não estão ainda focados no destino a ser dado aos milhões dos alegados subornos, a DW África procurou uma instituição que pudesse falar sobre essa possibilidade, a consultora britânica The Economist Intelligence Unit (EIU). Nathan Hayes é analista para Moçambique na consultora e está certo de que o dinheiro dos subornos é um valor perdido:
"Depende do paraíso fiscal offshore onde foi depositado o dinheiro. [Mas] não se sabe para onde foram os milhões de dólares, cujo paradeiro é desconhecido e por isso penso que será difícil saber para onde foi o valor. Acredito que não há chances de o ter de volta. O Governo terá de continuar a pagar, o país terá de pagar, o povo continuará a sofrer porque tem de pagar a dívida", conclui o analista.