1. Ir para o conteúdo
  2. Ir para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW
CriminalidadeMoçambique

Daniel Chapo promete "zero raptos", mas a realidade é outra

18 de novembro de 2025

Em Moçambique, vídeo mostra mulher supostamente raptada em setembro, sendo torturada pelos raptores. O caso surge após promessa presidencial de "zero raptos". Oposição critica: "Assistimos mais uma vez a politiquices".

https://p.dw.com/p/53pK8
Manifestações em Moçambique
Daniel Chapo promete "zero raptos", mas a realidade é outraFoto: picture-alliance/dpa

Moçambique voltou a confrontar-se, no último fim de semana, com a violência dos raptos que há anos aterrorizam o país. Circulou nas redes sociais um vídeo que mostra uma cidadã moçambicana raptada em setembro, em Marracuene, sendo agredida e torturada pelos sequestradores enquanto pede socorro.

O caso surge dias depois de o Presidente da República, Daniel Chapo, ter prometido "zero raptos” no país. Mas a oposição acusa o chefe de Estado de fazer apenas "politiquice”.

A mulher que aparece nas imagens é esposa de um empresário e terá sido sequestrada em setembro. Nas imagens, a mulher surge- acorrentada, ensanguentada e a ser agredida física e psicologicamente pelos sequestradores, enquanto implora à família que pague o resgate exigido.

"Pudor contra a segurança pública”, é assim que reage à DW o jurista Víctor da Fonseca. "Isso revela uma fragilidade no sistema de segurança. O Governo e o Estado deveriam trabalhar para travar o índice de criminalidade – os raptos e os sequestros”, acrescenta o jurista.

À DW, uma fonte do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) confirmou o rapto da senhora e informou que o caso está sob investigação. Quanto às suspeitas levantadas nas redes sociais de uma possível encenação do rapto, o SERNIC afirma que apenas a conclusão das investigações poderá esclarecer.

Presidente moçambicano, Daniel Chapo
Daniel Chapo prometeu "zero raptos” no paísFoto: Carlos Uqueio/AP Photo/picture alliance

A divulgação das imagens ocorreu poucos dias após o Presidente da República, Daniel Chapo, ter reiterado a promessa de eliminar totalmente os raptos em Moçambique, durante a abertura da XX Conferência Anual do Setor Privado (CASP2025).

"Os níveis de raptos reduziram. Nós, como Estado, vamos continuar a trabalhar dia e noite para que esta redução chegue a zero raptos em Moçambique”, disse.

"Politiquices"

A Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), na oposição relembra que não é a primeira vez que o Executivo moçambicano promete acabar com os raptos. O porta-voz do partido, Marcial Macome, afirma que os moçambicanos não precisam de discursos, mas sim de ações concretas para travar este flagelo social.

"Infelizmente, assistimos mais uma vez a politiquices, em detrimento de medidas que garantam a segurança dos cidadãos”, afirma Macome.

Também o Partido Otimista pelo Desenvolvimento de Moçambique (PODEMOS), segunda força política do país, considera que o discurso oficial está distante da realidade que os cidadãos enfrentam diariamente. Duclésio Chico, porta-voz do partido acrescenta que "não basta anunciar a redução dos raptos; é preciso que a segurança seja uma experiência concreta na vida diária das pessoas.”

Falta de transparência

Na semana passada, no Parlamento, a primeira-ministra Benvida Levi, afirmou que nove dos dez casos de rapto registados desde janeiro foram esclarecidos e as vítimas resgatadas. Mas a oposição questiona a falta de transparência nos dados apresentados. Porta-voz da RENAMO Marcial Macome exige detalhes.

"A nossa pergunta é: foram esclarecidos onde? E quando? Significa que já houve investigação, julgamento e sentenças transitadas? Esta informação continua em segredo e nem foi partilhada com os familiares das vítimas”, questiona Macome.

Marcial Macome, porta-voz da RENAMO
"Infelizmente, assistimos mais uma vez a politiquices, em detrimento de medidas que garantam a segurança dos cidadãos”, Marcial MacomeFoto: Nádia Issufo/DW

O jurista Víctor da Fonseca concorda que há equívocos nas declarações da primeira-ministra. O também advogado, considera que "deveria haver publicidade sobre todos os casos julgados, os condenados e os possíveis mandantes materiais e morais dos raptos”.

Neste termos diz ele que a primeira-ministra devia provar "quantas pessoas foram condenadas? Que tipo de pena receberam?”

Para a RENAMO, ao não apresentar os rostos dos mandantes, o Estado moçambicano demonstra que "não leva a sério este assunto de segurança”.
Desde 2013, cerca de 150 empresários foram raptados em Moçambique, e pelo menos uma centena abandonou o país por receio, segundo dados divulgados em 2024 pela Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA).

Moçambique: Empresários da Beira protestam contra raptos