Como chega a internet às regiões mais remotas de África? | NOTÍCIAS | DW | 17.06.2019
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Como chega a internet às regiões mais remotas de África?

As empresas tecnológicas, americanas e chinesas, estão atualmente envolvidas numa corrida para expandir a infraestrutura digital em África. Para o continente, isto é simultaneamente uma oportunidade e um risco.

Os países africanos são líderes mundiais na utilização de serviços móveis, como o acesso a serviços governamentais e a transferência online de dinheiro. É certo que a revolução digital em África poderia ter ido muito mais longe, se não fosse pela falta de infra-estrutura no continente. Mas isso está mudando.

Gigantes como Facebook, Amazon e Google estão a investir em satélites, balões de hélio e até drones para garantir que os cantos mais remotos de África estejam conectados à internet. A China, por exemplo, está por trás de um programa de investimentos para o desenvolvimento de infraestrutura digital - o projeto chinês da "Digital Silk Road" - que pretende levar tecnologia do Grupo Huawei ao continente.

"Desertos da Internet" em partes da África

Apesar das conquistas digitais na África, o mercado está longe de ser aproveitado e as necessidades de investimento são altas. Um estudo recente do Banco Mundial mostra que apenas uma em cada cinco pessoas na África subsariana usa a internet, índice bem abaixo da média global, que é pouco mais de 50%.

Entretanto, estes números obscurecem as grandes diferenças regionais em África, avalia Félix Blanc, da organização Internet sem Fronteiras.

"Alguns países, como a Libéria, o Quénia ou os países do Magrebe alcançam 80% da população com forte conectividade, enquanto outros são verdadeiros desertos da internet. A República Centro-Africana está longe da costa e não tem conexão com os cabos submarinos de alto desempenho".

Quota de empresas estatais de telecomunicações em declínio

Os principais atores da infraestrutura digital em África são os gigantes multinacionais das telecomunicações, como a MTN, com sede na África do Sul, a francesa Orange S.A. e a Bharti Airtel, da Índia. As estatais representam hoje apenas um quinto dos prestadores de serviços no continente. Segundo a cientista política Tina Freyburg, isso se deve ao aumento dos custos. "Muitos estados não podem pagar isso sozinhos e, portanto, são dependentes dos investimentos de empresas estrangeiras", disse.

Tina Freyburg diz que as gigantes do mercado, incluindo Facebook, Google e Amazon, são dependentes da infraestrutura existente nos países. "O Facebook, o Google, a Amazon e outras empresas têm o problema de dependerem dessas empresas. Se, por exemplo, a MTN for desativada no Uganda, o Facebook também será. O Facebook e outros grandes provedores de aplicativos querem se tornar independentes".

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Como chega a internet às regiões mais remotas de África?

O controlo sobre infraestruturas digitais é um fator central de poder. No contexto de eleições e manifestações, muitos Governos africanos, sobretudo regimes totalitários, dificultaram no passado o acesso a aplicativos individuais, como o Twitter e o Facebook, ou encerraram totalmente o serviço de internet. Os regimes se aproveitam desse instrumento de controlo para pressionar as prestadoras de serviços, que se mostram dispostas a cooperar. Félix Blanc, da Internet sem Fronteiras, diz que até empresas europeias como a Orange aceitariam a censura para abrir novos mercados. Dessa forma, os agentes económicos tornam-se cúmplices quando os Governos ameaçam retirar as suas licenças.

Para evitar o controle e a censura de regimes autoritários, os gigantes da tecnologia estão a se esforçar para ampliar o mercado de infraestrutura em África.

Salto tecnológico

O consultor e ativista digital Steve Song está convencido de que a África terá um salto em desenvolvimento tecnológico com os investimentos dos Estados Unidos. Um dos projetos promissores é o Starlink, dirigido pela empresa espacial SpaceX. Uma nova geração de satélites vai orbitar o globo numa órbita muito baixa que vai permitir o fornecimento de internet a áreas remotas. Os primeiros 60 dos 12.000 satélites planeados foram lançados no espaço a 24 de maio a uma altitude de apenas 450 quilómetros.

"A Amazon também anunciou um projeto chamado Kuiper, uma outra constelação de satélites de órbita baixa que se tiver sucesso pode transformar o acesso à internet nas zonas rurais, porque poderiam oferecer serviços virtuais em qualquer zona."

Entretanto, nem todos os projetos trouxeram os resultados esperados. O Facebook e o Google perderam os seus investimentos em drones de internet. Ainda não se sabe se o Projeto Loon da multinacional Alphabet, dona do Google, em parceria com a Telkom Kenya, será bem sucedido. O projeto pretende experimentar balões de hélio movidos a energia solar. Song tem certeza de que se apenas um desses projetos for bem-sucedido será um grande salto para o acesso à Internet em áreas rurais.

Os investimentos do Vale do Silício nas infraestruturas digitais em África não está isento de problemas, diz Tina Freytag. Se as empresas pudessem fazer negócios reais de publicidade e de conteúdo no futuro dependendo da sua própria infraestrutura, isso levaria a uma mudança.

Félix Blanc também compartilha desta opinião, referindo-se, nesse contexto, ao envolvimento chinês no continente: "Esta fragmentação e essa guerra, que podem ser observadas em escala global entre os dois gigantes, China e Estados Unidos, terão um impacto direto sobre os africanos", avalia.

No entanto, ele acredita que o atraso da África em termos de infraestrutura pode ser uma ótima oportunidade. África agora tem a oportunidade única de desenvolver outro modelo descentralizado de internet, um que não é monopolizado por poucos operadores económicos.

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