Agricultores africanos precisam de um lobby | NOTÍCIAS | DW | 17.07.2013
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NOTÍCIAS

Agricultores africanos precisam de um lobby

Em África, a fome regressa sempre. Os 900 milhões de camponeses africanos poderiam alimentar o continente e também fornecer alimentos a outra parte do mundo. Mas para que isso aconteça é necessário apoio político.

Agricultura em Ouagadougou, Burkina Faso

Agricultura em Ouagadougou, Burkina Faso

Em primeiro lugar, as boas notícias: os governos africanos, os países doadores e as Nações Unidas redescobriram a agricultura africana. Durante quase duas décadas, apostaram na industrialização das cidades. A agricultura era considerada uma questão menor.

Os políticos despertaram com a crise no mercado dos recursos naturais, além das graves crises alimentares em 2008 e dos consequentes motins em vários países, entre os quais Moçambique. Como resultado, também foram delineadas no Ministério do Desenvolvimento da Alemanha novas estratégias para as políticas de desenvolvimento com foco na agricultura. Em África há cerca de 900 milhões de pessoas, isto é, 90% do total da população, que trabalha na agricultura.

Capacidades da agricultura africana

Burkina Faso Landwirtschaft Ouagadougou Markt Lebensmittel

Mercado no Burkina Faso

Agricultura significa vida. Uma em cada oito pessoas em todo o mundo não tem o suficiente para comer. A maior parte das pessoas que passam fome vive no sul da Ásia e na África Subsaariana. Estes números são alarmantes.

Poderá África saciar a fome no seu próprio continente e, eventualmente, saciar também a fome de um mundo em rápido crescimento? Ou dito de outra maneira: conseguirá o continente africano alimentar-se, a médio prazo e, ainda assim, tornar-se num exportador de alimentos?

As investigações da DW África na África Oriental e Ocidental e em laboratórios químicos na Alemanha apontam para uma resposta óbvia: Sim, quando os políticos de lá e os doadores de cá congregarem forças.

Faltam incentivos ao investimento

E segue-se agora a má notícia. Em muitos países africanos, o compromisso com os agricultores são só da boca para fora. Faltam condições para os agricultores, que lhes permitam não só satisfazer as suas próprias necessidades, mas também para conseguirem obter excedentes.

Na Etiópia, por exemplo, 85% dos cerca de 90 milhões de habitantes vivem da agricultura. Mas o governo autoritário do país continua a proibir, por nostalgia marxista, a propriedade privada de terras. Mesmo os contratos de arrendamento de terras não têm garantias de longo prazo. Assim, os agricultores têm poucos incentivos para investir nas suas pequenas parcelas de terra e para as proteger da erosão. Em vez disso, mantêm-se os pacotes de sementes caras com pesticidas e herbicidas, que se infiltram no solo, presos num círculo vicioso de pobreza. Se as colheitas falham, as dívidas aumentam.

Afrika moderne Landwirtschaft Kohlplantage in Südafrika

Plantação de couves na África do Sul

Muitos bancos comerciais africanos não concedem qualquer empréstimo a agricultores. Assim, não é fácil para eles substituir os antiquados arados de madeira por equipamentos modernos que iriam aumentar os seus rendimentos. Para muitos agricultores do Século 21, continua a ser negado o acesso adequado aos mercados, já que as estradas mais próximas do mercado estão intransitáveis na época das chuvas. Estudos mostram que até 50% dos produtos frescos de um agricultor africano apodrecem a caminho do mercado - um número totalmente inaceitável. E a lista das más condições é ainda maior.

Industrialização não funciona sem agricultura

Como mostram as investigações dos repórteres da DW África, não é preciso muito para aumentar a produtividade dos agricultores e, assim, aumentar também de forma significativa a produtividade das culturas. Irrigação gota-a-gota, rotação de culturas, melhoria de sementes e métodos de agricultura biológica são apenas algumas palavras-chave.

Kakaoproduktion in der Elfenbeinküste

Colheita de cacau na Costa do Marfim

Para evitar mal-entendidos, convém sublinhar que não se trata de pôr a industrialização contra a agricultura. Trata-se, sim, de realizar uma sem pôr a outra de parte. A industrialização de África deve avançar energicamente, para que o processamento de sementes de cacau da Costa do Marfim tenha lugar em Abidjan e não em Hamburgo, no norte da Alemanha. Ao mesmo tempo, os governos africanos e os seus doadores têm de alcançar o tão implorado “pé de igualdade”, para que possa ser estabelecida uma parceria em prol da produtividade alimentar africana.

As perspectivas são boas. Depois das revoltas por causa da fome na Tunísia, em 2011, que começaram por “varrer” os políticos dos seus gabinetes e que depois trouxeram “ventos de mudança” para o norte de África e para o mundo árabe, os decisores africanos ficaram avisados. A fome tornou-se num instrumento político das massas. E os políticos europeus vêem nos campos de refugiados em Lampedusa e em Malta o que o desespero da fome em África provoca. Parece estar na altura de um “New Deal”, de um novo conjunto de programas e políticas para a agricultura africana.

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