Senegal: Presidente demite Sonko e dissolve governo
23 de maio de 2026
O anúncio foi feito na televisão estatal na sexta-feira (22.05) através de um decreto lido pelo assessor presidencial, Oumar Samba Ba, que afirmou que o Presidente senegalês, Bassirou Diomaye Faye, “cessou as funções de Ousmane Sonko... e, consequentemente, as dos ministros e secretários de Estado que integram o governo”.
Não foram fornecidos detalhes sobre a nomeação de um novo primeiro-ministro.
“Alhamdulillah (louvado seja Deus). Esta noite vou dormir descansado no bairro de Keur Gorgui”, escreveu o primeiro-ministro, Ousmane Sonko, no Facebook após a sua demissão, referindo-se ao bairro de Dakar onde reside.
Sonko chegou a casa pouco depois da meia-noite, onde saudou centenas de apoiantes que se tinham reunido para o aclamar, segundo jornalistas da AFP.
O Senegal encontra-se numa situação invulgar, com um presidente que deve grande parte da sua posição ao primeiro-ministro, que muito provavelmente teria assumido o cargo mais alto caso não tivesse sido impedido de concorrer nas últimas eleições presidenciais devido a uma condenação por difamação.
A relação entre Faye e Sonko, outrora seu mentor, deteriorou-se nos últimos meses.
Polémica lei
O partido Pastef venceu logo na primeira volta das eleições de 2024 com a promessa de uma profunda mudança política, comprometendo-se a combater a corrupção e herdando uma economia mergulhada em dívida.
Sonko conquistou forte apoio entre os jovens senegaleses descontentes antes das eleições de 2024.
Em particular, a sua retórica pan-africanista e a postura firme em relação à antiga potência colonial, França, tiveram grande impacto.
A sua demissão ocorreu horas depois de Sonko condenar aquilo que descreveu como um Ocidente tirânico que procura “impor” a homossexualidade ao resto do mundo, após a aprovação de uma nova lei destinada a agravar as penas para relações entre pessoas do mesmo sexo.
O primeiro-ministro afirmou que, depois de a lei ter sido aprovada, ouviu fortes críticas ao Senegal em países estrangeiros, particularmente em França.
“Se eles optaram por essas práticas, é problema deles, mas não temos lições a receber deles, absolutamente nenhumas”, afirmou.
Crescente discórdia
A discórdia entre o presidente e o primeiro-ministro tem sido visível há meses, tornando cada vez mais incerta a sua aliança governativa.
No início de maio, Faye criticou a “excessiva personalização” de Sonko dentro do partido no poder.
“Enquanto ele continuar a ser primeiro-ministro, é porque tem a minha confiança. Quando isso deixar de acontecer, haverá um novo primeiro-ministro”, declarou Faye numa entrevista televisiva.
Sonko acusou Faye de uma “falha de liderança” por não o defender dos seus críticos.
Desde que chegaram ao poder em 2024, os líderes do país têm enfrentado uma situação económica preocupante, herdando uma dívida colossal do governo anterior.
Com níveis de dívida equivalentes a 132% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o International Monetary Fund, o Senegal é atualmente o segundo país mais endividado da África Subsaariana.
O parlamento aprovou no mês passado um projeto de lei que abre caminho para Sonko concorrer nas próximas eleições presidenciais, previstas para 2029.
A reforma alterou o código eleitoral do Senegal, que estipulava que uma condenação por difamação tornava um candidato inelegível.