Moçambique lucrará com corrida dos EUA a recursos em África?
30 de outubro de 2025
Moçambique, tal como Angola e a Tanzânia, corre para tirar partido da disputa entre os Estados Unidos e a China pelos minerais críticos africanos. Em tempos de economia em crise, pouco atrativa ao investimento externo e de grande pressão política, o Presidente de Moçambique corre atrás do prejuízo em busca de investimentos.
Uma réplica do Corredor do Lobito, em Angola, para o Índico, parece ser uma das apostas de Daniel Chapo. Nos EUA procura capital para viabilizar um dos "sonhos americanos" junto da DFC, uma das agências federais de financiamento ao desenvolvimento do governo dos EUA.
Há vantagens em ser mais um num mercado em que Angola, por exemplo, leva a vantagem da proximidade? Para o economista Eduardo Sengo, é uma jogada de mestre: "É muito importante e estratégico, dado o tipo de projetos que também os EUA estão a financiar em Moçambique."
"Hoje em dia estamos a falar da saída da USAID que tinha um papel preponderante a nível social e precisamos de continuar a procurar soluções para lidar com esta saída da USAID. Mas também precisamos de consolidar outras oportunidade que já temos com os EUA, como MCC e o financiameno de outros projetos. Temos o ExxonMobil que será o maior de todos ao nível do gás e é estratégico", explica Sengo.
E como fica a China?
Angola viu uma oportunidade de negócio na corrida para os minerais críticos essenciais para a indústria dos carros elétricos que opõe os EUA à China, com claro domínio do tigre asiático. A República Democrática do Congo (RDC) é o principal alvo, como maior local de extração. Luanda potenciou o Corredor do Lobito, com largas dezenas de anos, e mobilizou a Zâmbia. Hoje, Moçambique copia Angola e representa até concorrência, como também para a Tanzânia.
Por que motivo Maputo não recorreu à China, mais próximo e destacado parceiro? Eduardo Sengo lembra que Pequim não se bate por primazias nas suas relações e nota: "A China financia muitos projetos em Moçambique. É o parceiro estratégico, mas isso, em si, não significa que outros países não possam ser. O financiamento chinês em Moçambique representa 45% do Produto Interno Bruto (PIB) moçambicano, é muito dinheiro que recebe da China, não é um problema em si, mas é importante diversificar os parceiros".
Estrategicamente, os EUA sempre estiveram interessados no Corredor de Nacala, o piscar de olhos de Maputo é visto como aceitação do "namoro". E confirmam a reciprocidade a ausência do aumento de taxas aduaneiras dos EUA, afinal Washington tem interesses em Moçambique.
Competitividade Moçambique-Angola
Já no caso da competitividade Moçambique-Angola, o economista angolano Precioso Domingos só vê vantagens: "É uma concorrência, Angola pode ver isso como desvantagem ou ameaça, mas ao mesmo tempo pode ser positivo no sentido de que o modelo de Angola tem de ser mais competitivo, porque se não for, Moçambique e até outras linhas ganham sobre Angola."
Mas há outras oportunidades inaproveitadas, para além do campo geoestratégico, destaca o economista, como o comércio da integração. Insistir em operar sob o lema "salve-se quem puder" não alavanca o continente, entende Domingos.
"A China já adiantou muito no processo, na RDC é responsável pela produção de 70% dos minerais críticos. Os EUA lutam para expandir e reverter a influência. Boa disputa para África, mas o continente tem de ter em conta que já não pode voltar a viver um tipo de guerra fria EUA-China, pode negociar com todos desde que haja razoabilidade do ponto de vista de negociação, e não tem de ser exclusivo, usa os EUA para uma relação mais sofisticada e qualitativa", argumenta.
Lógica colonial prejudica continente
Individualmente não há poder negocial com os outros, o que em última instância prejudica o continente e o seu povo. "Numa lógica meramente geoestratégica de se querer ser amigo dos EUA, num contexto em que os EUA estão a combater a China, é um problema porque a política africana espelha um fator de divisão interna ao nível desses países que depois procuram buscar legitimidade lá fora fazendo aliança com os EUA. E depois que se lixe todo o problema que se passa ao nível desse país porque estão assegurados numa confiança dada pelos EUA. E isso é errado porque faz com que os países nessa condição percam, as elites podem fazer dinheiro, mas no final é mais do mesmo", explica Precioso Domingos.
A persistente lógica colonial de ter África como fonte de matérias-primas também prejudica o continente, porém raramente o seu fim é colocado em cima da mesa. Por exemplo, na sua investida, Daniel Chapo não aposta na transformação como tábua de salvação económica.
Domingos cita brechas que representam oportunidades: "Que tal os minerais críticos serem transformados em África? A Europa não tem mão de obra para transformar esses componentes de veículos. E a Ásia, que nem produz esses minérios, é que está a transformar para obter o produto final".