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Moçambique: Pobreza extrema num país de grandes riquezas

2 de abril de 2026

Moçambique é o segundo país mais pobre do mundo e um dos mais desiguais, segundo o Banco Mundial. Economista Egas Daniel analisa os critérios usados, as causas da pobreza e o impacto das políticas dos últimos anos.

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Cidadãos numa rua de Nampula, norte de Moçambique
Num país rico em recursos naturais, os números expõem um contraste profundo e preocupanteFoto: Sitoi Lutxeque/DW

Moçambique é o segundo país mais pobre do mundo e está entre os dez mais desiguais, segundo o Banco Mundial. De acordo com a instituição, 81% da população vive com menos de três dólares por dia (cerca de 200 meticais).

Num país rico em recursos naturais, os números expõem um contraste profundo e preocupante, que levanta questionamentos. Em entrevista à DW, o economista moçambicano Egas Daniel, considera que a classificação de Moçambique como segundo país mais pobre do mundo não é totalmente surpreendente, tendo em conta o agravamento da pobreza na última década, marcado por crises sucessivas como a pandemia, o terrorismo e fenómenos climáticos extremos.

No entanto, o que mais surpreende o economista sénior da London School of Economics é o facto de outros países terem conseguido responder melhor a esses choques, enquanto Moçambique acabou por ficar relativamente pior, um sinal de que "as políticas dos últimos 10 anos não foram eficazes".

DW África: Como avalia os critérios do Banco Mundial para classificar Moçambique como o segundo país mais pobre do mundo?

Egas Daniel (ED): Não é uma surpresa total que a situação de pobreza em Moçambique se tenha deteriorado, até porque de 2014 até 2020 a situação tinha piorado de 45% para 62%, e de 2020 para cá tivemos crises, choques, pandemia, terrorismo, ciclones, enfim, todos esses choques macroeconómicos a que o país está quase que acostumado a ter.

Agora, a surpresa é que os outros países, comparados a Moçambique, ou enfrentaram melhor esses choques globais ou então melhoraram as suas situações e Moçambique, tendo-se deteriorado, acabou se encontrando numa posição relativamente pior. Então, na verdade, isso para mim é um alerta de que as políticas dos últimos 10 anos não foram eficazes para lidar com os fatores que desafiaram a economia e o crescimento económico a reduzir a pobreza.

Economista moçambicano Egas Daniel
Egas Daniel: "Não é uma surpresa total que a situação de pobreza em Moçambique se tenha deteriorado"Foto: Amós Zacarias/DW

DW África: E quais são os principais fatores estruturais que explicam os níveis elevados de pobreza em Moçambique, apesar do crescimento económico registrado nos últimos anos?

ED: Bom, o primeiro indicador é que o crescimento dos últimos anos foi extremamente baixo em comparação com o crescimento populacional, o que significa que tivemos uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) per capita. O aumento do PIB não era compensado pelo aumento da população e, portanto, a riqueza em média no país tendeu a reduzir. Então, num contexto onde há choques inflacionários, aumento de preços de matérias-primas a nível internacional e há famílias que não estão a dizer se os rendimentos aumentarem e há crises, no final é inevitável ver os rácios de pobreza a aumentar.

Outro elemento é que também o Banco Mundial aumentou, pelo menos a linha de pobreza que está sendo usada é de 3,15 dólares, o que significa que a comparação não é feita de forma igual, por exemplo, a quem está a usar uma linha de pobreza nacional, que considera diferenças regionais, que considera, por exemplo, hábitos de consumo e hábitos de consumo e dieta regionais, que não são os mesmos por todo o país.

Estamos a dizer que o critério de comparação pode ser, digamos, um pouco mais pesado em relação aos relatórios nacionais, o que significa que se tivessemos um relator nacional que fosse divulgado e que avaliasse os níveis de pobreza, talvez a situação não seria tão crítica quanto a que o Banco Mundial nos apresenta, porque ela é muito linear essa do Banco Mundial. O outro elemento é que estamos a falar é de pobreza de consumo, existem outros elementos a considerar, que incluem outras dimensões que vão para além de consumo. Então, há um nível de pobreza multidimensional, indicadores do próprio governo do Moçambique mostram que talvez a situação não piorou, pelo menos tanto quanto à pobreza de consumo.

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Tainã Mansani Jornalista multimédia