″Hipocrisia da Europa custa caro aos africanos″ | NOTÍCIAS | DW | 01.08.2022

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NOTÍCIAS

"Hipocrisia da Europa custa caro aos africanos"

Economista guineense Carlos Lopes diz que, em vez de tomarem partido, Estados africanos têm de defender os seus interesses na "guerra energética" que se avizinha.

Na semana passada, o Presidente francês, Emmanuel Macron, e o chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, fizeram um périplo por África quase em simultâneo. Na próxima semana, o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, vai passar pela África do Sul, República Democrática do Congo e Ruanda.

Procuram um posicionamento dos países africanos face à nova conjuntura internacional, em que a Rússia reclama a criação de uma nova "Ordem Mundial" sem o protagonismo "unipolar" do Ocidente.

A guerra na Ucrânia fez com que o Ocidente implementasse sanções contra a Rússia, mas a Europa também tem sofrido consequências: Como noutros pontos do mundo, os preços dos combustíveis aumentaram e a inflação disparou. Além disso, os líderes dos 27 temem que a Rússia venha a cortar o abastecimento do gás à Europa já no próximo inverno. Por isso, abriram várias frentes em busca de alternativas energéticas, para manter as casas quentes e não desligarem as máquinas industriais.

Em entrevista à DW África, o economista guineense Carlos Lopes, Alto Representante de África junto da União Europeia, diz que alguns países africanos têm potencial suficiente para fornecer gás à Europa, mas o problema é como fazer chegar o produto ao "velho continente". Por outro lado, o também professor da Escola de Governação Pública Nelson Mandela, na Cidade do Cabo, critica a "hipocrisia" dos líderes europeus em relação a África.

DW África: Será que África pode ser uma alternativa viável no fornecimento de gás à Europa? Quais são os países que estão em condições de alimentar a indústria europeia?

Carlos Lopes (CL): Há gás em países atualmente produtores de petróleo, como a Argélia, Nigéria e outros como o Egito. Dentro em breve, o potencial do Senegal, Mauritânia, Moçambique e Tanzânia será posto em produção. O problema é como fazer chegar esse gás à Europa.

Fala-se muito da tensão entre Marrocos e a Argélia em relação ao fornecimento, pois são os únicos que dispõem de gasodutos ligados à Europa e têm ambições de desenvolver projetos colossais para ampliar essa capacidade. Ambos os projetos são significativos e não é por acaso que estavam em estágio avançado de conceção antes que a guerra na Ucrânia colocasse a questão do gás no centro da discussão europeia.

A Nigéria, onde começariam os dois gasodutos, tem um enorme potencial de exportação de gás, o que ficou comprovado inclusive com o escândalo das perdas por queima de gás. Mas no momento, a sua produção está toda comprometida. Para aumentá-la seria necessário ter um mercado que tivesse certas caraterísticas que Marrocos e Argélia logo identificaram. Esses países têm uma rivalidade bem conhecida. No caso de Marrocos, a sua própria dependência do gás teria solução com o gás de outros países da África Ocidental: Nigéria, Senegal e Mauritânia, por onde passaria um gasoduto ligando toda a zona costeira. Isso também permitiria aumentar a sua produção de fertilizantes, a quarta maior do mundo, e aliar-se comercialmente à da Nigéria, que aumentará significativamente. Para a Argélia, o gasoduto transariano da Nigéria via Níger consolida o seu peso nas relações com a Europa, como grande exportador de gás.

Expandindo o sistema de energia renovável nos Camarões

Os dois gasodutos mostram uma nova tendência para ver o mercado intra-africano como um elemento importante para a viabilidade financeira de grandes projetos de investimento. Quanto aos demais produtores, eles teriam recurso ao gás natural liquefeito que se pode transportar em navios.

DW África: Quais são os grandes entraves que esses países teriam? E as consequências para esta nova parceira?

CL: É evidente que as guerras na zona do Saara e Sahel, bem como o novo conflito em Cabo Delgado, em Moçambique, têm muitas justificativas na condição de marginalização económica daquelas regiões, a começar pelo isolamento das populações pastoris que permanecem vulneráveis. Elas têm mais dificuldade em se adaptar à pressão populacional, crescente urbanização e modernização das transações comerciais. Rebelam-se e sentem-se abandonados pelos citadinos e Estados com uma administração muito ausente em regiões remotas. Mas também temos que aceitar que a crescente presença do jihadismo e outras formas de violência ou intervenção militar têm mãos de potências externas, tanto do Ocidente (como no caso da Líbia ou Mali) quanto de potências do Médio Oriente, Rússia e Turquia.

Essas presenças diversas, com grande proliferação de armas e também dinheiro sujo, não pode deixar de ter uma conexão com uma outra guerra de longo prazo, a guerra energética. É nesta parte do globo que temos grandes reservas de urânio, o maior potencial de hidrogénio verde, maior capacidade de instalação de energia solar e também de gás. É provável que, mesmo em geotermia, África tenha potencialidades colossais ainda desconhecidas. Uma coisa tem a ver com a outra.

Dito isto, apenas o gasoduto transariano e parte da operação terrestre de Cabo Delgado estaria exposta de imediato a violência significativa. Mas outras regiões do mundo com os mesmos níveis de violência também têm gasodutos e operações offshore e conseguem protegê-los. Parece-me assim que o principal obstáculo pode ser a canalização de investimento para ativos que podem ser ociosos.

Südafrika Carlos Lopes DW Interview

Carlos Lopes, economista guineense

DW África: Como é que os líderes africanos deveriam encarar o atual momento, no contexto desta nova parceria económica com a Europa?

CL: Os líderes africanos têm de primeiro detetar que as políticas europeias em matéria climática estão submetidas aos interesses da Europa e quando estes interesses variam, como foi o caso com o impacto energético da guerra da Ucrânia, eles mudam as políticas sem hesitação. Disseram ser contra o nuclear, em certos países, aboliram as centrais de carvão, fizeram uma política contra o gás e agora mudaram tudo.

Essa hipocrisia custa caro aos africanos de duas formas: os capitais necessários para investir nestes domínios encareceram e a avaliação de risco ficou desfavorável, pois os países europeus dizem que África tem de fazer o que eles mesmo não estão preparados para fazer. Ou seja, só é bom quando economicamente lhes interessa e, pior ainda, quando lhes parece o momento certo em cada geografia. Os países africanos devem resolver essa contradição não pensando nas soluções energéticas em termos de exportação de matérias-primas, mas em termos do que precisam para a sua transformação e particularmente para a sua industrialização.

DW África: Como analisa as visitas de Emmanuel Macron e Lavrov a África no contexto da guerra na Europa?

CL: África já passou da fase em que aceitava ser tratada como um campo de influência de uns ou de outros, ao sabor de interesses que não controlava. A maioria dos líderes africanos reconhece esse tipo de intenção por parte de certos protagonistas e se presta voluntariamente a jogos simbólicos de fingimento para extrair vantagens de curto prazo, quando isso parece possível. Se não consegue ganhos, pelo menos acede a pódios que servem para a vaidade desses mesmos líderes. Assim se comportam os que visitam e os que recebem.

DW África. A posição dos líderes africanos sobre a guerra foi clara e mais acertada?

CL: Por várias razões, África não tem nenhum interesse em entrar num concurso de beleza para ver quem é melhor. A prova foi já amplamente tirada durante a pandemia. A começar com as restrições introduzidas pelos EUA e países europeus para a exportação de medicamentos vitais, reagentes, equipamentos respiratórios ou de proteção individual que afetaram fortemente os países africanos. Foi um alerta para pensar sobre como o continente deve lidar com a regulamentação farmacêutica, compras relacionadas à saúde e fabricação de medicamentos e produtos em áreas críticas para o controlo de doenças e proteção do bem-estar. E a resposta da África foi clara e contundente. Insistiram que se deve acabar com as restrições de patentes, manufaturar no continente e fazer licitações de forma grupada.

Com esta guerra, as consequências vão fazer sentir-se ao nível dos alimentos e do impacto de medidas no campo financeiro, para além dos custos em termos de inflação e logística global. A resposta de África precisa de ser parecida, ou seja, defender os seus interesses. Não tem que escolher ser pró-russa nem pró-ocidental. Tem de defender os seus interesses e reconhecer que, em matéria de violações do direito internacional e provocações, há muito que se diga.

DW África:  Em poucas palavras, pode revelar-nos os tópicos do seu novo livro "Mudança Estrutural em África?

CL: O meu novo livro, escrito conjuntamente com o economista principal do BAD, George Kararach, zimbabueano, é uma súmula das perceções deturpadas que influenciam a leitura do que se passa na África e como as teorias do desenvolvimento precisam de ser postas em causa por não terem sido capazes de aniquilar a dependência das matérias-primas, fundamento maior da estrutura de exploração colonial.

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