′Estado Islâmico′ é ameaça crescente em toda a África | Internacional – Alemanha, Europa, África | DW | 16.07.2021

Conheça a nova DW

Dê uma vista de olhos exclusiva à versão beta da nova página da DW. Com a sua opinião pode ajudar-nos a melhorar ainda mais a oferta da DW.

  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Internacional

'Estado Islâmico' é ameaça crescente em toda a África

Depois do chamado "Estado Islâmico" ter visto a sua influência diminuir no Médio Oriente, o grupo e seus afiliados voltaram-se para áreas em África sem presença governamental. A ameaça ao continente é real?

Na semana passada, o Presidente do Níger, Mohamed Bazoum, disse em entrevista à DW que o seu país precisava da assistência tecnológica dos parceiros europeus para combater o jihadismo. Bazoum queixou-se de vastas áreas de território no Mali e no Níger terem sido ocupadas pelo chamado "Estado Islâmico" (EI) e grupos afiliados.

Os comentários de Bazoum coincidiram com o anúncio do seu homólogo francês Emmanuel Macron de que a França ia encerrar as suas bases militares no norte do Mali até ao final de 2021, incluindo a força Barkhane de 5.100 membros.

Macron argumentou haver a necessidade de uma "reorganização para impedir a propagação [dos jihadistas] para o sul".

"Infelizmente, o EI está hoje tão espalhado em África que se pode dizer que está em todo o continente", disse à DW o analista político nigeriano Bulama Bukarti.

Os grupos terroristas islâmicos controlam extensões significativas de território nas regiões do Sahel e do Lago Chade, que incluem partes do Mali, Burkina Faso, Níger, Chade e Nigéria. Em 2018, o Centro da África Ocidental para o Combate ao Extremismo (WACCE) informou que cerca de 6.000 africanos ocidentais combatentes pelo EI tinham regressado do Iraque e da Síria após o colapso do autoproclamado califado do grupo.

Mali Frankreich beendet die Operation „Barkhane“

A França pôs cobro à Operação Barkhane no Mali

Governos ausentes

"Era apenas uma questão de tempo até começarmos a ver as atividades do EI replicadas nos países de origem dos combatentes", disse Mutaru Mumuni Muqthar, diretor da WACCE no Gana, à DW. 

Países da África Ocidental com instituições nacionais fracas e elevadas taxas de desemprego jovem minam a resistência ao "Estado islâmico", acrescentou o analista. "Há áreas enormes sem qualquer presença governamental. O que permite aos grupos contornar as forças de segurança. Países que atravessam conflitos são particularmente vulneráveis", disse Muqthar à DW.

Até agora, os países costeiros da África Ocidental evitaram os ataques. Mas isso pode mudar em breve, avisa Muqthar. A ameaça cresce à medida que os jihadistas se estabelecem e conseguem mobilizar recursos e capacidades em áreas atualmente sob o seu controlo, disse ele.

"Trata-se aqui da jogada final do 'Estado Islâmico', e é por isso que acredito no risco de ver um califado estabelecido na região", disse o analista.

Bukarti salienta que a estratégia do EI de "recrutar tropas entre a população local, que conhecem muito bem a área" tem contribuído para o sucesso dos grupos contra as forças de segurança nacionais e regionais.

Uma ameaça para a RDCongo?

Relatos de ataques das Forças Democráticas Aliadas (ADF) no leste do Congo suscitaram receios de que o grupo tenha uma filiação ao EI. Recentemente foram mortos 50 civis em dois ataques imputados às ADF. Em março deste ano, os Estados Unidos da América associaram oficialmente as ADF ao EI.

Symbolbild | DR Kongo | Anschlag der Alliierte Demokratische Kräfte Kongo

O EI reivindica ataques das ADF, um grupo insurgente no leste da RDCongo

Mas Christoph Vogel, do Grupo de Investigação de Conflitos da Universidade de Ghent, na Bélgica, disse que não há muitas provas de que os grupos estejam ligados. Reconheceu, contudo, que o "Estado Islâmico" tem interesse em ganhar uma posição em áreas carentes de coesão social e bem-estar socioeconómico, como é o caso do leste do Congo.

"De uma forma geral, as populações do Congo não são muito dadas ao extremismo religioso. Os conflitos são mais acerca de políticas de identidade, terra, problemas políticos. A mobilização religiosa não costuma funcionar", disse Vogel à DW.

O investigador descreve os grupos armados que operam no leste do Congo como "pragmáticos e flexíveis", especialmente em termos de parcerias. A ADF, disse, tem alianças com grupos locais.

"Nos últimos anos, canais internacionais de propaganda do EI têm vindo a reivindicar operações e ataques das ADF. Não sabemos se se trata apenas de propaganda ou se existem ligações mais profundas em termos de recrutamento, fornecimento de armas ou formação", disse Vogel, acrescentando que os métodos e ataques das ADF não mudaram significativamente ao longo dos anos.

Moçambique palco de interesses internacionais

Enquanto alguns esforços apoiados pelo Ocidente para conter a propagação das operações do "Estado Islâmico" no Sahel e na África Central perderam força, a União Europeia, a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e os vizinhos regionais estão a preparar-se para defender a região rica em recursos de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, contra o jihadismo.

A missão militar da UE destina-se a treinar as forças moçambicanas. O Ruanda enviou 1.000 polícias e militares para intervir nos combates. A SADC também planeia enviar tropas. Embora o denominador comum seja a segurança no norte de Moçambique, cada uma destas missões tem os seus próprios objetivos e parâmetros, afirma o analista Ryan Cummings da Signal Risk na África do Sul. Segundo o especialista em questões de segurança, a decisão de Moçambique de permitir que as tropas estrangeiras estabilizem Cabo Delgado "pode ter vindo de pressões externas, de partes interessadas no setor do gás natural".

Mosambik Flüchtlinge aus Palma in Pemba

Mais de 1,3 milhões de pessoas em Cabo Delgado dependem de ajuda humanitária

Cummings disse que há indícios que os insurgentes têm uma "base" no sul da Tanzânia, para a qual se poderiam retirar para evadir as tropas estrangeiras.

"Algo muito semelhante aconteceu na Nigéria em 2015, após o envio de uma força multinacional contra o [grupo terrorista] Boko Haram ", disse o analista. O Boko Haram simplesmente retirou-se para países vizinhos.

Jovens sem futuro e com "fantasias de heroísmo"

Relatórios sugerem que os grupos jihadistas que assumiram o controlo em redor do Lago Chade têm uma relação simbiótica com as comunidades locais. Nas fileiras dos islamitas reinam a segurança, lei e ordem e disciplina. Segundo o analista nigeriano Bukarti, o fracasso dos atores estatais em lutar contra a corrupção, criar oportunidades económicas, fomentar investimento e fornecer equipamentos sociais, empurra sobretudo homens jovens para os braços dos terroristas.

"A democracia não tem funcionado para as populações. Os governos devem investir na educação e nas infraestruturas e tentar reforçar a relação entre os governados e o governo, para que estes grupos não sejam capazes de explorar a situação económica para recrutar jovens", disse Bukarti.

As operações militares apoiadas pelo Ocidente, aliadas à impopularidade dos governos nacionais nas zonas pobres do Sahel, faz crescer uma "fantasias de heroísmo" entre os jovens cada vez mais atraídos pelo "Estado Islâmico".

"Quando as pessoas se sentem marginalizadas, tendem a procurar por algo que dê sentido à vida. O EI aparece como alternativa por ser uma marca global e por causa da propaganda", disse Muqthar. "Um indivíduo no Burkina Faso, impedido de se juntar ao EI, disse que optou por este grupo e não pelo Boko Haram, porque gostou das fardas que o EI lhe enviou. Mostraram-lhe a camuflagem militar que iria usar em combate".