Cem anos após o fim da Primeira Guerra Mundial | Internacional – Alemanha, Europa, África | DW | 10.11.2018
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Internacional

Cem anos após o fim da Primeira Guerra Mundial

A 11 de novembro de 1918, um armistício entre a Alemanha e os aliados pôs fim à Primeira Guerra Mundial. Foram quatro anos sangrentos que custaram milhões de vidas, inclusivé de muitos africanos.

Erster Weltkrieg | Waffenstillstand von Compiegne (picture-alliance/dpa)

General Ferdinand Foch e Matthias Erzberger assinam o Armistício de Compiègne, que põe fim à Primeira Guerra Mundial

Na manhã de 11 de novembro de 1918, às 10h59, o soldado americano Henry Nicholas Gunther foi morto pelas tropas alemãs - exatamente um minuto antes do armistício que pôs fim à Primeira Guerra Mundial. Gunther foi a última baixa na chamada Grande Guerra. E foi mais um dos cerca de 10 milhões de soldados que morreram em combate.

A Primeira Guerra Mundial foi um conflito brutal que durou quatro anos (1914-1918) e envolveu 40 países. Pela primeira vez, havia tanques, aviões e metralhadoras, além do gás tóxico que matou dezenas de milhares de pessoas.  Historiadores estimam que foram disparadas, durante o conflito, cerca de 850 milhões de granadas. Ao todo, 56 milhões de recrutas foram convocados para o serviço militar em todas as nações em guerra, tendo em média, morrido seis mil por dia. O balanço foi duro. Os canhões e as metralhadoras mataram cerca de 11 milhões de pessoas, para além dos mais de 21 milhões de soldados que ficaram feridos - pessoas que perderam a totalidade ou parte dos seus membros, que ficaram paralisadas ou acamadas, que sofreram amputações, ficaram cegas ou surdas.

Dois milhões de africanos morreram

Entre as vítimas, estavam mais de dois milhões de africanos, tanto civis como soldados. Muitos foram obrigados a lutar pelos seus colonizadores. A França foi a potência colonial que enviou mais africanos para os campos de batalha europeus: 450 mil tropas do oeste e do norte de África lutaram na linha de frente contra os alemães. Também os ingleses combateram ao lado de tropas africanas contra a Alemanha até 1918.

Die Schwarze Armee - Afrikaner im 1. Weltkrieg (picture-alliance/Mary Evans Picture Library)

A França foi a potência colonial que enviou mais africanos para os campos de batalha europeus

No entanto, quase ninguém se lembra dos africanos que morreram nos campos de batalha europeus, critica o historiador Jörn Leonhard. "São muito diferentes as culturas comemorativas nacionais e a forma como lidam com o legado da Primeira Guerra Mundial. Na França, por exemplo, nos últimos anos as pessoas têm-se preocupado muito em saber se as conquistas da guerra dos soldados coloniais do Senegal, do Vietname e da Indochina foram suficientemente honradas. Na Europa Ocidental, há vastas paisagens de cruzes brancas. Mas são cruzes brancas. Onde estão os símbolos muçulmanos para os milhares de soldados do Senegal que morreram na Frente Ocidental?", questiona.

Avanço tecnológico

A 11 de novembro de 1918, o cessar-fogo de Compiègne põe fim ao conflito. A Alemanha e os seus aliados rendem-se após 1500 dias de guerra. Vários meses depois, no famoso Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes, ambos os lados assinariam oficialmente o tratado de Paz.

Para trás, ficaram quatro anos de um derramamento de sangue e destruição sem precedentes na Europa. Matthias Erzberger, representante alemão nas negociações do conflito, lembra o cenário desolador que encontrou numa das suas viagens pela Bélgica e França. "Não havia uma única casa em pé, era uma ruína a seguir à outra", disse.

Erzberger constatava a destruição desta guerra, claramente abalada pelo avanço tecnológico e industrialização. O arsenal de armas utilizado nesta guerra jamais havia sido visto, quer em quantidade, quer em qualidade.  Em 1916, por exemplo, os alemães estreavam o "Langer Max", um canhão capaz de atirar, através de um tubo de 35 metros de comprimento, os seus projéteis de 300 quilos para distâncias de até 48 quilómetros. Foi com recurso a esta arma, que os alemães alvejaram a cidade de Paris a 23 de março de 1918. Algumas bombas atingiram a igreja de Saint Gervais, onde estava a realizar-se um culto. 88 pessoas morreram e cerca de cem ficaram feridas.

Historische Aufnahme - Erster Weltkrieg (picture-alliance/AP Photo)

Mais de 11 milhões de pessoas perderam a vida na Primeira Guerra Mundial

Sofrimento sem fim

Os testemunhos dos soldados que viveram a guerra de perto não deixam esquecer os horrores vividos. O soldado alemão Karl Bainier foi um deles. "É horrível quando estilhaços de granadas entram nos tecidos moles", recorda este combatente nascido em 1898 que viu os seus dois comandantes serem atingidos em combate. Um perdeu o tórax, o outro o tronco todo. Este segundo teve morte imediata, o outro ainda gritou", diz. Johannes Götzmann, nascido em 1894, relembra também o episódio em que ele e as suas tropas procuraram refúgio num túnel subterrâneo. "Estávamos sentados quando a garagem foi atingida. Houve muitos feridos, um deles ficou sem pernas. Ele sangrou até morrer".

Não é por isso de espantar que os soldados desejassem o fim da guerra. Muitos deles acabaram mesmo por se ausentar sem permissão. Uma ação que, na altura, era punível com dois a quatro meses de prisão, mas que os mantinha afastados da frente de batalha.

Pós-guerra

A Primeira Guerra Mundial também mudou o mapa de África. A derrota da Alemanha significou a perda das colónias. Os Camarões, por exemplo, foram divididos entre a Grã-Bretanha e a França.

Na Rússia e na Alemanha houve revoluções, caíram imperadores. A Alemanha tornou-se uma democracia. Foi o social-democrata Philipp Scheidemann quem proclamou a primeira república:

"Trabalhadores e soldados! Os quatro anos de guerra foram terríveis. Foram horríveis os sacrifícios que as pessoas tiveram de fazer. A infeliz guerra acabou, os assassinatos acabaram! As consequências da guerra, as dificuldades e a miséria ainda pesarão sobre nós durante muitos anos. A derrota que queríamos evitar a todo custo não pôde ser evitada", afirmou.

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Fim da Primeira Guerra Mundial: 100 anos depois

Com o fim da guerra surgem novas fronteiras: pela Europa, África e Médio Oriente. Mas os derrotados sentem-se mal-tratados, incluindo os alemães, e há protestos. Contra as elevadas indemnizações que a Alemanha tem de pagar pelos danos causados durante a guerra e contra a perda de território, já que a Alemanha perdeu dez por cento da sua área.

Para manter a paz, o então Presidente norte-americano, Woodrow Wilson, cria a Liga das Nações – a precursora da atual Organização das Nações Unidas. Mas os Estados Unidos nunca fizeram parte do organismo, o que enfraquece a Liga das Nações desde o início.

Com o Tratado de Versalhes, as potências vencedoras queriam garantir a paz, mas o plano acabou por falhar. A pobreza e a frustração dos alemães que acreditavam "ter sofrido em vão” ajudam Adolf Hitler a subir ao poder. O ditador tem um objetivo claro: eliminar as consequências da trégua de 1918, com um novo conflito. A Primeira Grande Guerra dá, assim, origem ao conflito seguinte - uma guerra que seria ainda maior.

Comemorações

Este domingo (11.10), vários países celebram o centenário do fim da Primeira Guerra Mundial. O presidente Emmanuel Macron anunciou que o seu governo levará a cabo uma grande cerimónia comemorativa no Arco do Triunfo, na capital Paris. Para o evento, Macron convidou mais de 80 chefes de estado de países que estiveram direta ou indiretamente envolvidos na Grande Guerra. Um dos presentes será o presidente norte-americano Donald Trump que, já em Paris, partilhou uma mensagem no 'Twitter' alusiva ao evento: "Existe algo melhor para comemorar do que o fim de uma guerra, que foi uma das mais sangrentas e piores de todos os tempos", questionou.

Também a Alemanha comemorará este dia especial. Este sábado (10.11), a chanceler alemã, Angela Merkel, vai encontrar-se com o presidente francês na cidade de Compiègne, onde foi assinado, em 1918, o armistício da Primeira Guerra Mundial entre os aliados ocidentais e a Alemanha.

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A I Guerra Mundial e o fim do domínio alemão em Moçambique

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