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Arcebispo alerta para os perigos de um populismo manipulador

12 de setembro de 2025

D. José Manuel Imbamba critica populismo porque "cria ilusão na consicência das pessoas". O Arcebispo angolano escusou-se a apontar casos concretos nos PALOP, optando por uma abordagem conciliatória.

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Moçambique Maputo | Protesos contra o Governo
Foto: Amos Fernando/DW

A Igreja Católica está contra os populismos manipuladores que proliferam atualmente no mundo e que criam ilusões na consciência das pessoas, afirmou à DW D. José Manuel Imbamba, presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST).

O também arcebispo de Saurimo (Angola), que falou à margem do XVI Encontro de Bispos dos Países de Língua Portuguesa, a decorrer em Portugal, classificou como "abominável" e "inaceitável" o terrorismo em Cabo Delgado, Moçambique, onde continuam a registar-se atos de violência contra as populações.

O arcebispo criticou ainda a situação dos direitos humanos em Angola e na Guiné-Bissau.

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DW África: O XVI Encontro dos Bispos Lusófonos, em Lisboa e Fátima, propõe-se a promover a cultura da hospitalidade contra os populismos manipuladores. De que forma encaram estes desafios?

Nós encaramos estes desafios à luz do próprio Evangelho, porque nós, enquanto cristãos, devemos ser uma Igreja aberta, uma Igreja acolhedora, uma Igreja promotora de todos esses valores sociais, cívicos e culturais que nos levem a ver no outro não uma ameaça, mas um irmão.

Alguém com quem podemos contar e com quem podemos construir uma humanidade multicultural que esteja acima de quaisquer interesses que danifiquem, digamos assim, a imagem da dignidade do outro e a sã convivência que se impõe.

DW África: Falando de populismos: isto também tem a ver com os movimentos de contestação em Moçambique, liderados por Venâncio Mondlane?

Eu não gostaria de caraterizá-los nesta ótica, mas é sobretudo no aspeto da manipulação, no aspeto de criar ilusões na consciência das pessoas, rejeitando aqueles que são os princípios básicos que devem fazer com que todos nós pautemos pela sã convivência, respeitando-nos e construindo uma sociedade onde todos nos sintamos incluídos.

DW África: É o que está a acontecer em Moçambique?

Eu não conheço a realidade de Moçambique, portanto não posso, digamos assim, falar expressamente sobre Moçambique. Mas falo do populismo no seu modo generalizado.

Namisir, Moçambique, 2025
Só em 2024, pelo menos 349 pessoas morreram em ataques, no norte de Moçambique, a maioria reivindicados pelo grupo extremista Estado Islâmico, um aumento de 36% face ao ano anterior, segundo um estudo divulgado pelo Centro de Estudos Estratégicos de ÁfricaFoto: UNHCR

DW África: Denunciou a cultura da violência a nível global. Mas os bispos não estarão certamente alheios ao que se passa em África. Como vê a situação de terrorismo em Cabo Delgado, que tem forçado o deslocamento de populações? O que pode ser feito para pôr fim à violência naquela região de Moçambique?

Sobre o terrorismo em Cabo Delgado, nós já refletimos sobre esta realidade em 2023, quando tivemos o encontro dos bispos lusófonos em Nampula. É um ato abominável. É um ato que não podemos consentir nos tempos que correm. É um ato, a todos os níveis, que não podemos aceitar. Não podemos aceitar que existam horrores como os que estão a acontecer em Cabo Delgado.

Por isso, como Igreja, sempre deplorámos situações desta natureza e, sobretudo, quando não são exploradas as verdadeiras causas que estão na origem de todo esse estado de situação. É preciso irmos às causas e não ficarmos nas consequências. E as causas normalmente são económicas, são materiais, valorizam-se mais as coisas do que as pessoas, não a vida e não os valores de convivência que todos nós queremos cultivar.

DW África: Para além de Moçambique, qual tem sido o papel da Igreja Católica face às constantes violações dos direitos humanos em Angola e na Guiné-Bissau? Recentemente, com a greve dos taxistas motivada pelo aumento do preço dos combustíveis, registou-se em Angola a primeira grande revolta popular em resposta à degradação das condições sociais e económicas da população. Como é que a Igreja encara estas realidades?

São realidades que nos desafiam. Por isso, como Igreja, não ficamos indiferentes a elas e procurámos denunciá-las, apelando à consciência dos nossos governantes e políticos, no sentido de trabalharem para o desenvolvimento autêntico que todos desejamos.

Portanto, este é o resultado de más políticas, é o resultado de má governação, é o resultado de toda esta cultura política que não favorece o desenvolvimento nem dá respostas plausíveis para que os cidadãos vivam condignamente os seus direitos e promovam também os respetivos deveres.

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João Carlos Correspondente da DW África em Portugal