Alemanha: Sociedade dividida vai a votos
20 de fevereiro de 2025
Cinco dias. Quatro cidades. Uma equipa da DW África percorreu a Alemanha para conhecer a opinião dos cidadãos, imigrantes e especialistas, em áreas como a economia e a política, sobre as eleições antecipadas marcadas para este domingo (23.02). Uma sociedade cada vez mais dividida, foi uma das conclusões da viagem.
"Um mundo é suficiente para todos"
Magdeburg. Começamos pela cidade que em dezembro de 2024 foi palco de um acidente violento. Um carro conduzido por um cidadão da Arábia Saudita abalroou uma multidão no mercado de Natal, matando seis pessoas e ferindo outras três centenas.
Desde então, o país tem registado um aumento de ações contra cidadãos de origem estrangeira, reacendendo o debate sobre imigração e segurança. Ora, que influência pode ter este ataque nos resultados das eleições de 23 de fevereiro?
Amidou Traore, em Magdeburg desde 1994, trabalha para a Caritas, uma organização católica sem fins lucrativos que presta serviços sociais. Desde o ataque, constata um aumento de ataques contra pessoas de origem estrangeira.
Contudo, sublinha: "Nunca teremos 100% de segurança nas nossa vidas". Lamentando e condenando o ataque, Amidou Traore afirma que é necessário descobrir, em conjunto com os políticos, como evitar este tipo de situações na cidade, apelando aos cidadãos que exerçam o seu direito de voto.
Por sua vez, um cidadão de origem nigeriana considera que os recentes ataques poderão "influenciar as eleições", mas acredita que, no domingo, a democracia vai vencer. "Espero que os alemães continuem a ser como são: democráticos e bondosos para com os imigrantes. Nas sociedades nem todos são perfeitos, nem todos são bons, e os imigrantes contribuem com muito”, salienta, acrescentando que "um mundo é suficiente para todos".
"A VW vai continuar a produzir aqui"
Wolfsburg. Seguimos viagem rumo à cidade que acolhe a sede da Volkswagen (VW) e que enfrenta uma crise sem precedentes. Orientada para a exportação, conhecida pelo seu setor automóvel, a Alemanha tem-se debatido com uma estagnação económica durante dois anos consecutivos.
De um total de 120 mil pessoas que vivem em Wolfsburg, mais de 60 mil trabalham para a Volkswagen. Jean-Jerôme Ahiagba é um dos funcionários e revela que a redução dos horários de trabalho já diminuiu significativamente o ordenado no final do mês.
"Já não trabalhamos como antes. Eu diria que o salário que ganhava antes da guerra ou antes da crise mudou. A economia transformou realmente os nossos bolsos e a nossa vida familiar", refere.
Por sua vez, Claudia Kaysa, chefe da Associação Empresarial de Wolfsburg, entende as preocupações dos trabalhadores e os desafios que a economia enfrenta, no entanto, acredita que a situação vai melhorar.
"Os EUA estão a puxar a economia para si próprios, os chineses estão a fazer o mesmo", aponta. Contudo, destaca que a "mobilidade elétrica está a crescer rapidamente". "Estamos a mudar as estruturas, há uma visão. A VW vai continuar a produzir aqui", garante.
"Eu não votar em nenhum programa que divida a sociedade"
Berlim. A capital alemã recebeu-nos coberta de neve. Na terceira cidade da nossa viagem, conversámos com vários imigrantes africanos, nomeadamente sobre a migração que continua a ser um dos temas centrais nesta campanha eleitoral. Na comunidade africana presente em Berlim, apesar de diferentes intenções de voto, a relevância destas eleições é reconhecida por todos.
Ymilenio Vicente, presidente da Expo Angola – Alemanha, considera que, atualmente, a CDU é o partido que melhor o representa. No entanto, acredita que algumas premissas defendidas por partidos de extrema-direita, nomeadamente quando se fala em deportação, poderá ter um "impacto positivo em alguns governos africanos", na medida em que os pressiona.
"Temos tudo em África, não emigramos por livre vontade. Emigramos porque somos obrigados a emigrar. Tudo o que a Europa tem, tudo que a América tem, vem de África", ressalta, frisando que os africanos só imgiram porque os governos são "corruptos" e "não pensam da população", argumenta.
Ymilenio Vicente ressalta ainda que a importância destas eleições. "Todos os estrangeiros querem viver estável, querem viver num ambiente de paz, num ambiente em que não há perseguições políticas e, portanto, queremos um partido que seja não discriminatório, um partido que seja inclusivo, um partido que veja que contribuímos todos para a nação alemã", sublinha.
Por sua vez, Akinola Famson, chefe representante do Conselho da África em Berlim, não tem dúvidas. "Eu não vou votar na AfD. Eu não vou votar em ideologias de direita. Eu não votar em nenhum programa que divida a sociedade", declara.
"A Alemanha precisa de migração"
Terminamos a viagem em Frankfurt. Antes de mais um protesto contra a extrema-direita ocupar o centro da cidade, conversamos com Armand Zorn, deputado do SPD. O político deixa claro que a "Alemanha precisa de migração".
"Se olharmos para Frankfurt, penso que o nosso sucesso se baseia no facto de muitos migrantes terem vindo para a Alemanha, começado a trabalhar aqui e se terem tornado parte da cultura. E quando olhamos para a nossa evolução demográfica, sabemos que vamos precisar de pessoas que venham para a Alemanha e trabalhem aqui", afirma.
Sobre a possível reconfiguração do panorama político, mostra-se preocupado. As conversações sobre uma coligação governamental na Alemanha são quase sempre prolongadas e é provável que agora sejam ainda mais do que o habitual.
Manuel Campos, um ex-sindicalista luso-alemão, chegou à Alemanha em 1974, e ressalta que o diálogo entre os partidos é, mais do que nunca, fundamental. "Depois das eleições do dia 23, eu espero que eles se sentem à mesa e se entendam porque não têm outra hipótese", atesta.
Manuel Campos recorda que o candidato a chanceler da CDU, Friedrich Merz, depois de ter "quebrado o tabu" da colaboração com a extrema-direita, garantiu aos eleitores que não iria cooperar com a AfD. Assim sendo, diz o ex-sindicalista, a CDU só poderá fazer coligação com o SPD, caso contrário, "saberemos que Merz é mentiroso".
Os alemães vão às urnas este domingo, 23 de fevereiro, para eleger o próximo Parlamento. O partido da União CDU/CSU, cujo candidato a chanceler é Friedrich Merz, continua a liderar as sondagens, com 30%. A AfD, de Alice Weidel, segue em segundo lugar, com 20%, e o SPD, de Olaf Scholz, em terceiro, com 16%.
As sondagens indicam uma possível reconfiguração do panorama político, com a possibilidade de formação de uma coligação inesperada.