Os ecos de 1989 na eleição de 2018 | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 30.07.2018
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Brasil

Os ecos de 1989 na eleição de 2018

Um pleito em meio à crise, com candidaturas pulverizadas e que parece ter um desfecho imprevisível a poucos meses do fim. O Brasil que vai às urnas neste ano evoca o cenário de quase três décadas atrás.

Brasilien Luiz Inacio Lula da Silva während der Präsidentschafts-Kampagne (picture-alliance/dpa/R. Gostoli)

Lula durante a campanha de 1989. À época, PT disputava com o PDT o comando da esquerda brasileira. Em 2018, Ciro Gomes tenta recuperar espaço da antiga sigla de Brizola.

Um governo impopular e uma crise econômica. Uma profusão de candidatos à Presidência se apresenta. Há uma busca infrutífera por outsiders. Parte do eleitorado se deixa encantar por populistas. O desfecho da eleição parece imprevisível.

Não se trata de 2018, mas 1989, quando os brasileiros foram às urnas escolher diretamente seu presidente pela primeira vez após 29 anos.

Desde o ano passado, os ecos de 1989 parecem rondar o pleito de 2018. Além da crise econômica e da rejeição ao governo, dois dos principais personagens de 1989 anunciaram que pretendem voltar a concorrer: Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor.

Lula, no entanto, segue preso e vê suas chances inviabilizadas por causa da Lei da Ficha Limpa. Já a candidatura de Collor não está sendo levada a sério por analistas.

Mas se Lula e Collor não devem dominar o pleito como ocorreu em 1989, o comportamento de outros pré-candidatos e a conjuntura evocam o cenário de quase três décadas atrás.

Eleição em meio à crise

Em 1989, a economia brasileira via mais um plano do governo para conter a inflação fracassar. O então presidente José Sarney (PMDB) determinou o congelamento de preços e criou uma nova moeda, o Cruzado Novo. Em 1988, a inflação foi de 1.037%. No ano seguinte, com o fracasso do Plano Verão, a inflação acumulada chegou a 1.782%.

Em 2018, embora a inflação seja bem mais baixa (os cálculos mais recentes preveem uma taxa de 4,17% para este ano), o país sofre com os efeitos de uma recessão. Previsões apontam que o crescimento não deve passar de 1,8%. A taxa de desemprego em maio alcançou 12,6% e atinge 13,2 milhões de pessoas. Segundo um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o país só deve recuperar o PIB anterior ao da crise a partir de 2020.

Um governo impopular

Em 1989, Sarney havia chegado ao fundo do poço da sua popularidade. Em julho daquele ano, só contava com a aprovação de 7% da população. A impopularidade de Sarney só foi superada mais de duas décadas depois, pelo atual presidente Michel Temer (MDB), que no final de junho tinha aprovação de apenas 4%.

Nenhum candidato em 1989 quis associar sua imagem a Sarney, nem mesmo o postulante do seu partido, o deputado Ulysses Guimarães, que repetiu ao longo da campanha que não palpitava no governo. Outros candidatos atacaram Sarney repetidamente.

Hoje, o candidato oficial de Temer à sucessão, o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, embora não rejeite abertamente o presidente, tem preferido propagandear sua atuação anterior como presidente do Banco Central no governo Lula.

Já o candidato Geraldo Alckmin, filiado ao PSDB, partido que fez oficialmente parte da base do governo Temer até o ano passado, também evita se associar publicamente com o Planalto. Em junho, Alckmin disse que "falta legitimidade" para o governo Temer.

Candidaturas pulverizadas

A eleição de 1989 se notabilizou por ser a primeira corrida presidencial direta desde o fim do regime militar, mas também pela quantidade de candidatos nas cédulas: 22, número nunca ultrapassado em eleições posteriores. Destes, pelo menos oito se lançaram por partidos bem estruturados ou apareciam bem posicionados em pesquisas.

Nos pleitos seguintes, o número de postulantes despencou e passou a vigorar uma polarização entre PSDB e PT, com apenas algum terceiro candidato ocasional alcançando um desempenho relevante.

Em maio de 2018, o número de presidenciáveis parecia sinalizar que o recorde de 1989 seria igualado. Algumas desistências reduziram esse número, mas no final de julho ainda havia 19 pré-candidatos no páreo – maior número desde 1989 –, entre eles, sete que são filiados a partidos estruturados ou que já conseguiram projetar seus nomes nacionalmente.

Esquerda fragmentada

Em 1989, Lula disputava a hegemonia da esquerda com o PDT de Leonel Brizola. O petista conseguiu atrair para sua candidatura o apoio do PSB e PCdoB, então siglas de tamanho modesto. A esquerda ficou dividida entre as candidaturas de Lula, Brizola, Roberto Freire (PCB) e Fernando Gabeira (PV).

No pleito de 2018, a esquerda aparece mais uma vez fragmentada, e a disputa entre PDT e PT está se repetindo, por enquanto. Desta vez, entre o candidato Lula ou um substituto e Ciro Gomes, que já disse buscar referências nas ideias de Brizola. O PC do B também lançou Manuela D'ávila, e o PSOL apresentou Guilherme Boulos.

Um populista na liderança

No momento, Jair Bolsonaro (PSL), um político que propagandeia ser contra o sistema – apesar de estar cumprindo seu sétimo mandato na Câmara – aparece no topo das pesquisas (na ausência de Lula), com até 19% dos votos. Em 1989, Collor já havia sido deputado, prefeito e governador, mas se apresentou como "o novo", investiu em promessas populistas e num discurso anti-establishment, passando a dominar as pesquisas.

Assim como Bolsonaro, Collor disputou a Presidência por uma sigla nanica, o PRN. O discurso de Bolsonaro, no entanto, também guarda semelhanças com outro candidato de 1989, o médico Enéas Carneiro (do antigo Prona), que pregava uma agenda nacionalista e ultraconservadora.

Com Collor assumindo a liderança meses antes do pleito de 1989, analistas passaram a se perguntar se sua candidatura não desidrataria. Em 2018, são comuns as especulações sobre se a campanha de Bolsonaro vai perder força.

Um 2° turno embaralhado

Collor, de fato, acabou desidratando razoavelmente na reta final do 1° turno – caiu de 40% para 26% em dois meses. Mas isso não foi o suficiente para deixá-lo de fora da segunda rodada. A imprevisibilidade ficou por conta de quem seria seu adversário: Lula ou Brizola? A pouco menos de três meses da eleição de 1989, Brizola, que tinha 14%, era o principal adversário de Collor. Lula tinha apenas 5% e estava empatado com Mário Covas (PSDB).

O início do horário eleitoral na TV, no entanto, vitaminou Lula. Na véspera do pleito, Lula tinha 15%, contra 14% de Brizola e 11% de Covas.

Em 2018, Lula e Bolsonaro aparecem como os favoritos para o segundo turno. No entanto, com Lula virtualmente inelegível, o cenário que se desenha por enquanto tem Bolsonaro no segundo turno aguardando a definição de um adversário.

Marina Silva (Rede) aparece como a mais bem posicionada, mas a falta de dinheiro, de tempo de TV e de estrutura do seu partido devem impor dificuldades para sua campanha. Já Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin ainda não decolaram nas pesquisas. Resta ainda saber se o PT vai indicar um substituto para Lula que seja competitivo.

O candidato com a maior máquina não cresce

Em 1989, o candidato Ulysses Guimarães contava com a maior sigla – o PMDB havia eleito em 1986 mais de 250 deputados. O tamanho da sigla garantiu 22 minutos diários no horário eleitoral.

Mas Ulysses chegou ao pleito sem o mesmo prestígio de outrora e ainda sofreu desgaste por causa da associação da sua candidatura com o impopular Sarney.

No final, Ulysses terminou em sexto lugar, com 4,83% dos votos. Algo semelhante aconteceu com o ex-vice-presidente Aureliano Chaves (então no antigo PFL), que contava com mais de cem deputados na Câmara e 16 minutos diários na TV, mas que terminou em oitavo, com apenas 600 mil votos.

Em 2018, o ex-governador Geraldo Alckmin por enquanto saiu na frente na formação de alianças ao fechar acordos com o PP, PR e DEM, além de contar com uma das maiores fatias do fundo eleitoral. Sua campanha deve contar com mais da metade do tempo diário de campanha na TV.

Alckmin ainda conta com a exposição que o governo de São Paulo lhe deu nos últimos anos. Mas mesmo assim sua campanha vem patinando nas pesquisas. Nos melhores cenários, ele ainda aparece com 6% das intenções de voto.

A procura pelo outsider

Em 1989, o anúncio da candidatura do apresentador de TV Silvio Santos à Presidência duas semanas antes do pleito – por um sigla nanica, o PMB – ameaçou virar de cabeça para baixo a corrida eleitoral.

Pesquisas apontaram que ele automaticamente passaria para o segundo lugar, prejudicando principalmente a campanha de Collor. No final, sua candidatura foi inviabilizada poucos dias antes do pleito, quando o PMB foi cassado pela Justiça Eleitoral por ter o registro irregular.

Em 2018, o apresentador Luciano Huck foi encorajado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a se candidatar. Pesquisas eleitorais apontaram que ele largaria com pelo menos 6% ou 8%. Mas Huck também se deparou com as dificuldades e, em fevereiro, anunciou que estava definitivamente fora.

Depois de Huck, foi a vez de o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa ser considerado o outsider da vez. Após se filiar ao PSB, seu nome apareceu com até 10% das intenções. Mas Barbosa acabou desistindo, alegando razões pessoais.

No final, como ocorreu em 1989, a eleição atual deve ser dominada por membros do establishment político.

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