Lula já perdeu; Haddad ainda não | Colunas semanais da DW Brasil | DW | 16.10.2018
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Coluna Realpolitik

Lula já perdeu; Haddad ainda não

Para muitos petistas, disputa com Bolsonaro chegou a valer como o segundo turno ideal. Um equívoco de dimensões históricas e, ao mesmo tempo, uma derrota amarga para o ex-presidente, escreve o colunista Thomas Milz.

Fernando Haddad, candidato do PT à presidência, faz o V de vitória com os dedos indicador e médio da mão direita depois de votar no primeiro turno em São Paulo, no dia 7 de outubro

Fernando Haddad, candidato presidencial do PT que vai disputar o segundo turno no final de outubro

Haddad contra Bolsonaro – este é o segundo turno aparentemente desejado pelos dois polos políticos. Bolsonaro, por ser um produto do antipetismo e que, por isso, precisa do PT como adversário. E o PT, porque calculou que uma larga coalizão, que se estenderia amplamente também na direita, se colocaria do lado da legenda no segundo turno. Todos juntos, eles impediriam a eleição de Bolsonaro. Mas o PT apostou errado – e, com isso, provavelmente possibilitará a vitória do ex-capitão. A nova pesquisa do instituto Ibope, divulgada na segunda-feira (15/10), mostrou números nítidos: Bolsonaro com 59% dos votos válidos, e Haddad com 41%.

Desde o início, a estratégia do PT foi arriscada. A intenção era insistir na candidatura de Lula até quando fosse possível, para garantir votos suficientes ao PT para alcançar o segundo turno. Mas queria-se muito mais que isso. Com frequência, Lula definiu a eleição como um voto sobre ele mesmo. Não eram os juízes, mas o povo brasileiro que deveria julgá-lo. Agora, isso aconteceu. Se a sentença da população é justa ou não, é outra questão.

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De qualquer forma, o candidato Lula fez com que ficasse mais fácil para os outros candidatos marcar pontos junto aos eleitores, com seu antipetismo e seus discursos anti-Lula. Fernando Haddad até herdou os votos de Lula, mas também herdou sua rejeição. A pesquisa do Ibope avaliou a aversão a Haddad em 47%, um valor claramente maior do que o de Bolsonaro (35%). A onda de fake news direcionada contra Haddad certamente tem participação nisso, mas a forma como o próprio PT se apresenta também é responsável pelo repúdio.

A prova disso é que, agora, Haddad trabalha com afinco para corrigir esse autorretrato. Rapidamente, a cor da campanha foi trocada, Haddad admitiu que faltaram mecanismos de controle nas estatais durante os governos petistas e se pronunciou contra regimes autoritários. E ele cancelou as visitas a Lula nesta semana. Só agora, tão tarde, diga-se de passagem.

Agora, o tempo para construir um perfil autônomo é escasso demais. "Haddad é Lula, Lula é Haddad", era esse o slogan da campanha. Haddad não vai mais conseguir se desvencilhar disso, mesmo que ele destaque que qualquer um que cometa um crime precisa ser responsabilizado diante da Justiça – incluindo pessoas do próprio partido.

Mas isso não foi uma autocrítica clara sobre o papel do PT nos escândalos de corrupção dos últimos anos. Ela seria mais a pré-condição para a formação de uma ampla frente democrática contra Bolsonaro, como ambiciona Haddad. Sem esse gesto, personalidades de peso como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se manterão afastados.

Enquanto isso, com sua atuação antes do primeiro turno, o PT inflamou os ânimos de Ciro Gomes contra o partido. Em vez de conquistar Ciro como parceiro antes da eleição, o PT interveio nas negociações do candidato com o PSB – supostamente, por ordem do próprio Lula. Acrescentam-se a isso as duras palavras proferidas por líderes políticos como Gleisi Hoffman contra Ciro. Agora, o PT está recebendo a conta. Por causa da campanha de difamação durante a corrida eleitoral de 2014, a legenda já tinha perdido Marina Silva para sempre.

O PT considera natural reivindicar a liderança da esquerda. Agora, espera de todos os outros que apoiem o PT para impedir Bolsonaro. A agremiação exige que se deixe de lado o antipetismo pelo bem do país. Mas ela mesma não esteve disposta a abdicar de uma candidatura própria e unir a esquerda atrás de um candidato alternativo.

Na segunda-feira, o novo coordenador da campanha de Haddad, Jaques Wagner, respondeu a questionamentos da imprensa que a esquerda unida deveria ter apostado em Ciro Gomes. Esse reconhecimento vem tarde. Haddad ainda pode renunciar à disputa no segundo turno. Com isso, automaticamente, Ciro Gomes concorreria contra Bolsonaro. Provavelmente, seria o único fato novo que poderia ameaçar a vitória de Bolsonaro. É que este perderia grande parte de seu discurso da noite para o dia e seria obrigado a participar de debates. Mas parece que o PT também não está disposto a esse gesto.

Thomas Milz saiu da casa de seus pais protestantes há quase 20 anos e se mudou para o país mais católico do mundo. Tem mestrado em Ciências Políticas e História da América Latina e, há 15 anos, trabalha como jornalista e fotógrafo para veículos como o Bayerischer Rundfunk, a agência de notícias KNA e o jornal Neue Zürcher Zeitung. É pai de uma menina nascida em 2012 em Salvador. Depois de uma década em São Paulo, mora no Rio de Janeiro há quatro anos.

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