Violência contra mulheres: a ″pandemia na sombra″ da Covid-19 | NOTÍCIAS | DW | 07.10.2020

Conheça a nova DW

Dê uma vista de olhos exclusiva à versão beta da nova página da DW. Com a sua opinião pode ajudar-nos a melhorar ainda mais a oferta da DW.

  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

NOTÍCIAS

Violência contra mulheres: a "pandemia na sombra" da Covid-19

Cresce o número de casos de infeções pela Covid-19 no continente africano, ao mesmo tempo que é reportado o aumento de casos de violência baseada no género. As Nações Unidas já falam de "pandemia na sombra".

DR Kongo Vergewaltigungsopfer

Imagem ilustrativa

Nos últimos meses, aumentaram os casos de violência, abuso sexual e feminicídios em África e no mundo. E este aumento pode estar, em parte, ligado à Covid-19. A Organização das Nações Unidas (ONU) já chama-de "pandemia na sombra" à violência contra mulheres.

No primeiro semestre de 2020, a Libéria registou um aumento de 50% nos casos de violência de género: só entre janeiro e junho registaram-se mais de 600 casos de violação; em todo o ano de 2018 tinham sido 803.

Na Nigéria, a violência sexual também aumentou durante o confinamento: em junho, os casos de duas jovens violadas e mortas chocaram o país. Já no Quénia, segundo a imprensa local, quase 4 mil estudantes engravidaram durante o encerramento das escolas, alegadamente por terem sido violadas por familiares ou agentes da polícia.

"A situação já era má para as mulheres mesmo antes do coronavírus. A pandemia apenas levantou o véu sobre aquilo que não víamos. Ajudou a abrir os olhos dos governos para a situação real", interpreta Jean Paul Murunga, da organização de direitos das mulheres Equality Now.

Uma mulher assassinada a cada três horas

Em maio, o Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, dizia que "o flagelo da violência de género" continuava a "assolar" o país, enquanto "os homens declaram guerra às mulheres".

Südafrika Präsident Cyril Ramaphosa

Cyril Ramaphosa: "Flagelo da violência de género" continua a assolar o país, enquanto "homens declaram guerra às mulheres"

De acordo com as últimas estatísticas da polícia sul-africana, uma mulher é assassinada a cada três horas. O país tem em vigor desde maio um Plano Estratégico Nacional para a responsabilização dos culpados, prevenção, proteção, apoio e tratamento.

Mas, até agora, no geral, a luta contra a violência de género tem sido travada de forma bastante tímida no continente africano, diz o ativista queniano Jean Paul Murunga.

"Alguns governos, como o do Quénia, criaram um comité nacional para a violência com base no género. Mas outros fizeram o costume: declarações oficiais, comissões, mas não há as ações concretas necessárias para resolver a situação", refere.

Tradição patriarcal

Com a campanha online "I decided to live" (em português, "decidi viver"), a jornalista camaronesa Kitty Chrys-Tayl lança um apelo às autoridades. "A questão do sexismo deve ser abordada nas escolas, a partir da primária. Para isso, é preciso vontade política. Porque tudo vem daí, os danos causados pela violência de género e a cultura da violação", analisa.

Assistir ao vídeo 03:05

A epidemia de raparigas grávidas no Quénia

Durante o confinamento imposto pela pandemia do coronavírus, as mulheres ficaram à mercê dos parceiros, explica Lesley Ann Foster. O presidente da organização internacional de proteção dos direitos das mulheres Masimanyane, na África do Sul, diz que as causas da violência são profundas e permanecem intactas.

"Drogas e álcool são as forças por trás da violência de género, mas o problema subjacente é o estatuto inferior das mulheres na sociedade. Tem a ver com o patriarcado. As normas e os padrões sociais são tão frágeis que as mulheres são simplesmente mortas, violadas, espancadas e descartadas. O país não lida de forma satisfatória com o tema nem faz pressão suficiente para a igualdade de género", explica.

Solução: mais mulheres no Governo?

O ativista Jean Paul Murunga concorda com esta visão de que vários países africanos têm uma tradição patriarcal. "Durante muito tempo, mulheres e meninas não eram consideradas iguais perante o sexo masculino. Portanto, questões que as afetam demoram mais a serem abordadas", lembra.

"Quando um Governo é composto por homens, eles raramente dão prioridade a assuntos que não lhes dizem respeito diretamente. As prioridades são as infraestruturas, estradas, Forças Armadas e não o orçamento para a saúde e planeamento familiar", diz ainda Jean Paul Murunga.

A solução, segundo os ativistas, passa por uma maior representatividade no poder: mais mulheres nos governos para falarem em nome das mulheres africanas.

Leia mais