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"Simões Pereira estaria livre com mais pressão global"

26 de janeiro de 2026

Académico considera que a comunidade internacional tem falhado na resposta ao golpe militar na Guiné-Bissau. Teme ainda a possibilidade de um complô judicial contra o político Domingos Simões Pereira antes das eleições.

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Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC
No golpe militar houve vários detidos que foram sendo libertados pelos militares, mas Domingos Simões Pereira continua preso, há dois mesesFoto: DW

Domingos Simões Pereira (DSP) já estaria em liberdade se existisse uma pressão mais firme da comunidade internacional. A opinião é do professor universitário Miguel Gama, que acusa o mundo de estar a "falhar" em relação à Guiné-Bissau.

O Presidente de Angola, João Lourenço, exigiu, na sexta-feira (23.01), a "libertação incondicional" do presidente do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Domingos Simões Pereira, detido na sequência do golpe militar na Guiné-Bissau que se seguiu às eleições.

Em entrevista à DW, o Miguel Gama afirma que o recente apelo do Presidente angolano reacende a "esperança", mas volta a expor a fragilidade da resposta internacional à crise política na Guiné-Bissau.

O professor universitário afirma ainda que "não existem condições para eleições livres, justas e transparentes" enquanto houver presos políticos e restrições à atividade partidária: "Acredito que, dentro de algum tempo, vamos ter o Ministério Público do regime a formular alguma acusação contra Domingos Simões Pereira, com o intuito de impedi-lo de participar nas próximas eleições", comenta Gama.

Bissau 2025 | O General Horta Inta-A posa com os chefes militares após a sua tomada de posse
O autodenominado Alto Comando Militar tomou o poder a 26 de novembro de 2025, três dias depois das eleições gerais na Guiné-Bissau e um dia antes da divulgação dos resultados oficiaisFoto: Patrick Meinhardt/AFP

DW África: Recentemente, o Presidente de Angola, João Lourenço, exigiu a "libertação incondicional" de Domingos Simões Pereira. Como é que olha para este apelo? Que impacto pode ter?

Miguel Gama (MG): É verdade que, ouvindo as declarações de João Lourenço, cria-se uma certa expetativa, uma certa esperança, mas depois disso cai-se no silêncio e não há medidas efetivas que acompanhem essas declarações.

Então, para ser sincero, a comunidade internacional está a falhar na sua ação, estando numa certa cumplicidade com tudo aquilo que se está a passar no país.

A pressão feita pela CEDEAO, pela União Europeia e pelas Nações Unidas é muito tímida, e o regime está a aproveitar-se desse silêncio, porque a intervenção da comunidade internacional é muito pontual.

Acredito que, se houvesse uma pressão muito forte da comunidade internacional, Domingos Simões Pereira já teria sido liberto.

DW África: O que falta na sua opinião?

MG: Estamos a pedir, por exemplo, medidas punitivas, porque estamos a falar de pessoas que assumiram o poder através das armas e que têm mantido pessoas detidas, como é o caso de Domingos Simões Pereira.

Mas há uma certa descrença por parte da população guineense e dos mais atentos quanto a medidas efetivas.

DW África: Como interpreta as ações do regime em relação a Domingos Simões Pereira?

MG: Nós sabemos que o candidato derrotado das últimas eleições, Umaro Sissoco Embaló, tem realmente dificuldades políticas, tem falta de argumentos políticos. Então, a única forma que encontram é o seu aniquilamento político, o seu afastamento político.

CEDEAO acusada de falhar na libertação de Simões Pereira

Acredito que, dentro de algum tempo, vamos ter o Ministério Público do regime a formular alguma acusação contra Domingos Simões Pereira, com o intuito de impedi-lo de participar nas próximas eleições e de afastar todos aqueles que, supostamente, são pessoas próximas a ele, que poderão contar com o seu apoio e com o apoio do PAIGC para fazer face às próximas eleições.

Assim, acredito que, enquanto não houver a libertação dos presos políticos, enquanto não houver uma abertura para que os partidos políticos possam exercer a sua atividade política, para que as pessoas possam realmente opinar e dizer o que pensam sobre a situação política do país, não há condições para termos eleições que possam ser consideradas livres, justas e transparentes.

DW África: Não acredita que exista um cenário em que Domingos Simões Pereira possa voltar a ser candidato nas próximas eleições?

MG: Eu acredito que o que vão fazer é afastar definitivamente Domingos Simões Pereira do cenário político. A ideia é essa, porque qualquer eleição que se realize neste preciso momento no país, permitindo que Domingos Simões Pereira possa participar, juntamente com o PAIGC, que é a sua máquina política, não deixará margem para outros candidatos. Não haverá oposição suficiente.

O que não estão a compreender é que toda essa pressão, a prisão e as medidas de impedimento que estão a tomar reforçam ainda mais a determinação e a crença que o povo da Guiné-Bissau tem no Domingos Simões Pereira, levando-o a considerar que é a pessoa mais indicada para tirar o país da situação em que se encontra.

Assim, a detenção de Domingos Simões Pereira é transformada, pela população guineense, numa força para combater o regime, porque a única forma que o povo guineense tem de se expressar é através das urnas, manifestando aquilo que entende ser a sua determinação e a sua visão para o desenvolvimento do país.

Acredito que o regime tem essa perceção e que a única forma de contrariar isso é manter Domingos Simões Pereira preso, oferecendo-lhe, em alternativa, a possibilidade de sair do país e de não participar nos próximos atos eleitorais.

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