"Operação Entebbe" nas telas da Berlinale
20 de fevereiro de 2018
A história do sequestro do avião da Air France, em 1976, volta às telas do cinema pelo olhar do realizador brasileiro José Padilha, que dirigiu os filmes "Tropa de Elite" e também a série "Narcos".
O filme "7 Days in Entebbe" (ou "7 Dias em Entebbe", na tradução literal para o português) traz para as telas da Berlinale a história da operação de resgate dos passageiros do avião da Air France, sequestrado em 1976 por membros da Frente Popular para a Libertação da Palestina e dois alemães membros de Células Revolucionárias da extrema esquerda da Alemanha e levado para o principal aeroporto do Uganda na época.
José Padilha revela porque aceitou o convite para dirigir uma nova versão da história, já retratada em diversas produções anteriores.
"A maioria dos outros filmes conta a história da perspetiva militar e mostra uma história de heroísmo, ignorando as interações entre os reféns e os sequestradores, bem como os aspetos políticos em Israel", afirma.
Os passageiros israelitas são transformados pelos sequestradores em moeda de troca pela libertação de terroristas e militares palestinianos, presos em Israel.
Os raptores receberam o apoio do então Presidente do Uganda, Idi Amin. A operação foi concluída com uma intervenção militar israelita.
Versão baseada em testemunhos
Para fazer o filme, a equipe de Padilha fez uma grande pesquisa que incluiu o encontro com testemunhas da época, entre eles o engenheiro francês Jacques Lemoine, que sobreviveu ao sequestro. Assim, "7 Days em Entebbe" traz uma versão diferente da oficial, explica o realizador José Padilha.
"Falámos com muitas pessoas para fazer a pesquisa sobre este filme. Foi importante para ter os factos com precisão. Especialmente porque a narrativa oficial é uma história militar e, no guião, havia um momento onde [o sequestrador alemão Wilfried] Böse decide que sua prioridade não é matar os reféns. Ele diz a Jacques Lemoine para se deitar. Mas isso não está na narrativa oficial. Então tive que verificar isso, e é verdade", defende.
O ator alemão Daniel Brühl é um dos protagonistas do filme, na pele do sequestrador alemão Wilfried Böse.
"Como ator, tive de fazer uma escolha. Foi muito importante ter fontes e testemunhas oculares como Lemoine a dizer que se lembra claramente daquele momento e que, para ele, Böse tomou esta decisão de não matar os reféns. Este tipo de informação foi absolutamente crucial para mim", conta Brühl.
Papel do Uganda
No filme, o então Presidente Idi Amin é representado pelo ator britânico de origem nigeriana Nonso Anozie. Nas cenas em que Amin faz visitas esporádicas aos reféns, o tom é de bom humor e comédia, numa tentativa de retratar a personalidade "folclórica" do então Presidente.
"Idi Amin estava treinando o exército israelita antes deste evento. Ele era um amigo de Israel e pediu apoio para comprar mais aviões militares, mas Israel negou. Isso criou um rancor entre Idi Amin e Israel e ele se juntou aos palestinianos, porque estava em busca de dinheiro dos aliados árabes e russos. Então, decidiu entrar nesta tentativa louca", avalia o realizador.
À DW África, Padilha diz que a conta da operação de resgate do avião da Air France ficou cara, mesmo para os africanos - particularmente para cidadãos quenianos que viviam no Uganda, pois o Quénia colaborou com os militares israelitas.
"Idi Amin matou 245 quenianos nas três semanas depois do evento e isso é o dobro das pessoas que foram salvas na operação especial", sublinha. "Então, é muito questionável se essa operação especial foi boa ou não. Se você olha do ponto de vista africano, foi uma tragédia muito grande. Morreram pessoas do Quénia que eram inocentes e não tinham nada a ver com esse assunto", afirma o realizador brasileiro.
O filme "7 Days em Entebbe" participa na mostra principal da Berlinale, mas não concorre ao "Urso de Ouro", que será entregue no próximo dia 24. A 68ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim termina a 25 de fevereiro.