″O que estamos a projectar é o pior que já vimos em 25 anos″, alerta Banco Mundial | Internacional – Alemanha, Europa, África | DW | 16.04.2020
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Internacional

"O que estamos a projectar é o pior que já vimos em 25 anos", alerta Banco Mundial

África prepara-se para uma recessão profunda devido à crise do coronavírus. Albert Zeufack, economista chefe responsável por África do Banco Mundial, explica por que África precisa de apoio nos próximos meses.

Albert Zeufack World Bank Wirtschaftswissenschaftler

Albert Zeufack, economista chefe para África do Banco Mundial

Com o mundo a enfrentar a recessão provocada pelas medidas de prevenção à pandemia de Covid-19, os países africanos estão particularmente vulneráveis a choques de mercado.

Economistas pelo mundo alertam para consequências terríveis. O economista chefe do Banco Mundial para a África, Albert G. Zeufack, revela nesta entrevista o que o continente pode esperar nos próximos meses, como a comunidade internacional pode ajudar e porque a crise provocada pelo coronavírus pode até mesmo apresentar oportunidades de reforma em algumas nações africanas.

DW África: O quão grave é a recessão prevista em África?

Albert G. Zeufack (AZ): O que estamos a projectar é o pior que já vimos em 25 anos. Há múltiplos canais através dos quais isto está realmente a afetar África. Vai ser mau porque estamos a projectar que, de um crescimento de 2,4% em 2019, o crescimento poderá diminuir para uma janela de -2% a -5% em 2020. Veremos também um choque no bem-estar das famílias, que é o seu consumo e rendimento. Estamos a projectar que o bem-estar das famílias poderá diminuir entre 7% e 14%, dependendo de quanto tempo durar esta crise. Será esse o caso se os países africanos não adoptarem uma abordagem cooperativa na luta contra o vírus. A África pode também estar em risco de uma crise alimentar. É assim que é grave.

Coronavirus - Australien (picture-alliance/dpa/AAP/R. Wainwright)

Setores de turismo e aeroviário são fortemente atingidos pela crise

DW África: Haverá alguma hipótese de evitar a recessão?

AZ: Mesmo antes de a Covid-19 atingir África, as nossas três maiores economias não estavam a ter um desempenho tão bom. Nigéria, África do Sul e Angola representam, em conjunto, 60% do nosso PIB na África Subsaariana. Antes da Covid-19, houve recessão na África do Sul e recessão em Angola nos trimestres anteriores. A Nigéria estava a crescer, mas a um ritmo muito lento, e estava ainda a recuperar-se timidamente do seu último choque nos preços das matérias-primas em 2016. Em crises passadas, quando estas três economias caíram, a maioria dos países africanos que não são tão dependentes de matérias-primas - especialmente os de economia mais diversificada - puxou o seu crescimento para cima. Países como Etiópia, Ruanda, Gana e Senegal... Mas estes países serão também atingidos [por esta recessão]. É por isso que a recessão será tão difícil de ser evitada. Estamos a projetar que o crescimento permanecerá positivo no resto de África, mas será levemente lento. Não será suficiente para levar a média acima de zero.

DW África: Como o Banco Mundial tenciona ajudar África a enfrentar e a recuperar desta crise?

AZ: Esta crise é global. A maioria dos governos está a esforçar-se para encontrar respostas. Por isso, a primeira coisa a fazer é garantir que forneçamos os conselhos certos. A segunda coisa é ajudar realmente os países a combaterem esta pandemia. Esta crise está a provocar uma crise orçamental na maioria dos países africanos, especialmente naqueles que dependem dos preços das matérias-primas. Entre dezembro e março, o petróleo perdeu mais de 50% do seu preço. Assim, países como Angola, República Democrática do Congo e Nigéria, que dependem do petróleo, já se encontram numa situação muito apertada. Mas, de um modo geral, é evidente que nenhum país africano terá espaço de manobra suficiente para enfrentar sozinho esta crise.

Mosambik Maputo Markt Coronavirus (DW/R. da Silva)

Trabalhadores informais sofrem com a crise económica provocada pela pandemia

DW África: Que papel a comunidade internacional pode desempenhar em tudo isto e como o Banco Mundial irá coordenar a situação?

AZ: A comunidade internacional precisa realmente de se apresentar e de ajudar a África a enfrentar esta crise. As discussões estão certamente em curso a nível do G20. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional apelaram a um congelamento da dívida a fim de criar espaço para os países africanos combaterem a Covid-19. Estamos a trabalhar com governos de toda a África, grupos multilaterais, doadores. A África também precisa de coordenação a nível interno, pelo que a União Africana está a trabalhar com o FMI e o Banco Mundial para negociar com todos os credores. É importante compreender que a maior parte da dívida de África é do setor privado. Temos de nos empenhar com a comunidade internacional para encontrarmos essas soluções. O Banco Mundial mobilizou 160 mil milhões de dólares [146 mil milhões de euros] para ajudar os países de todo o mundo a combater esta crise. Já aprovámos empréstimos de emergência a um certo número de países africanos. Estamos também a trabalhar em projetos de saúde pública para ajudar os países a enfrentarem esta crise.

DW África: O Banco Mundial diz que somente a África precisará de cerca de 80 mil milhões de dólares [73 mil milhões de euros] ou mais para recuperar desta crise. Será que esse montante está sequer disponível - tendo em conta que a maioria dos países em todo o mundo estão a enfrentar os seus próprios desafios económicos devido à Covid-19?

AZ: Algumas estimativas vão para além dos 100 mil milhões de dólares [92 mil milhões de euros], mas esses recursos não estarão facilmente disponíveis - tendo em conta que os doadores estão a enfrentar a mesma crise. Mas existe boa vontade no seio da comunidade internacional para pôr efetivamente alguns recursos para África em cima da mesa. Esses recursos podem não ser suficientes para preencher essa lacuna. Penso que os países africanos precisam realmente de agarrar a oportunidade que esta crise representa e de gerar alguns dos seus próprios recursos. Não se trata aqui de acelerar a mobilização interna. Trata-se de aumentar a eficiência das nossas despesas. É importante dar prioridade ao que é essencial para o bem-estar imediato das pessoas - como os programas de proteção social. Pode ser também uma oportunidade para os países africanos controlarem fluxos ilícitos de financiamento. O mais importante é evitar um súbito colapso económico.

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