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PolíticaSenegal

Senegal: Faye deve contrariar "subalternização" de África

28 de março de 2024

Eleição de Bassirou Faye como Presidente do Senegal dá sinais que "ecoam na sub-região" e não devem ser ignorados pela CEDEAO, diz analista. País deve também combater "subalternização" em relação às grandes potências.

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Bassirou Diomaye Faye, Presidente eleito do Senegal
Foto: AFP via Getty Images

O jovem político Bassirou Diomaye Faye, vencedor das eleições presidenciais no Senegal, prometeu muitas mudanças entre as quais a introdução de uma nova moeda em substituição do franco CFA. Faye, que se apresenta como pan-africanista, também quer reformar a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO).

Que planos terá o novo chefe de Estado no campo geopolítico? Em entrevista à DW África, o analista guineense Sumaila Jaló defende que o Senegal deverá "abrir-se ao mundo", mas contrariando a "subalternização" em relação às grandes potências.

DW África: O que representa a eleição de Bassirou Diomaye Faye para a região?

Sumaila Jaló (SJ): A eleição de Bassirou Diomaye Faye como Presidente do Senegal tem muito a ver com as dinâmicas de protestos populares e de posições políticas, mas também militares contra interesses identificados na sub-região e no Senegal em particular um líder político soube capitalizar essas reivindicações populares para o seu projeto político. Agora resta saber como é que o novo Presidente vai conciliar a sua declarada posição anti-sistema com as necessidades de o Senegal se relacionar com o mundo e com a França também, que é um país importante para as relações internacionais do Senegal. Mas ele até já defendeu que será uma relação em que o Senegal não assumirá ou continuará a assumir o papel de um subalternizado em relação aos parceiros do Ocidente sobretudo.

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DW África: Falou da relação com o resto do mundo. Na sua opinião, que caminho seguirá? O Senegal penderá mais para o Ocidente? Abrirá espaço para a Rússia?

SJ: Desde sempre, tanto Ousmane Sonko como o seu partido, têm afirmado que todos os países, no quadro das relações internacionais, serão importantes para o Senegal e até fala da Rússia, da China, dos Estados Unidos, da América, da França. Eu acho que esse caminho é o caminho a seguir, não só pelo Senegal, mas por todos os países africanos. Abrir-se ao mundo, no entanto, começar a recusar e a contrariar a subalternização dos países africanos em relação às potências internacionais, porque a cooperação tem de ser de igual para igual e defendendo os interesses das partes envolvidas. E para a própria sub-região será um desafio de, muito rapidamente, começarmos a ver como é que os novos poderes se irão instituir, tanto militarmente como democraticamente, como é o caso feliz do Senegal, contra os poderes de dominação internacional, mas também em benefício dos povos dos respetivos países.

DW África: E Faye, que se assume como pan-africanista, fala numa reforma da CEDEAO, que tem vivido momentos conturbados. Como interpreta isso?

SJ: O Estado senegalês sempre foi um agente muito importante para os interesses da França na África Ocidental. Por isso é que esta ruptura, o início da rutura agora é importante para a própria sub-região. A CEDEAO, particularmente, transformou-se nos últimos tempos numa espécie de sindicato dos chefes de Estado dos países-membros da própria organização. Lembremos que recentemente as suas estruturas foram presididas por um líder autoritário, nomeadamente Umaro Sissoco Embaló, Presidente da Guiné-Bissau, bastante influenciado pelo Presidente ainda em exercício no Senegal, Macky Sall. Portanto, quando Bassirou Diomaye Faye particularmente fala da reforma na CEDEAO, é uma necessidade que existe e é clara essa necessidade.

DW África: A vitória de um jovem político da oposição, anti-sistema, pode representar uma mudança de paradigma na região?

SJ: As dinâmicas da sub-região têm-se demonstrado nesse sentido e o Senegal é um caso particular porque o levantamento popular aliou-se a uma liderança política esclarecida e que conduziu a uma mudança no poder pelos mecanismos democráticos e através dw eleições. Mas houve levantamentos noutros países que conduziram a outras formas de mudança de poder e essas reivindicações já eram também sinais. E afirmadamente, tanto no Mali como no Burkina Faso e também no Níger, antes, os povos reivindicavam também contra a CEDEAO. Portanto, estes sinais do Senegal ecoam inevitavelmente noutros cantos da sub-região e são sinais muito fortes a que a própria CEDEAO deve dar muita atenção, para não ser também prenúncio do esvaziamento da influência da organização junto dos Estados-membros.

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