Nigéria: Ken Saro-Wiwa e o insolúvel problema petrolífero
10 de novembro de 2025
Na Nigéria, há 30 anos atrás, o ativista ambiental Ken Saro-Wiwa colocou o desastre da exploração petrolífera no delta do Níger na agenda internacional. Acabou com o boato de que o petróleo traria prosperidade ao país:
"Se tivéssemos um sistema adequado, eles descobririam que não há tanto dinheiro do petróleo assim, porque o petróleo está a causar muita devastação, pela qual o país ainda não pagou e pela qual pagará no devido tempo. Portanto, as pessoas deveriam procurar outras fontes de sustento em vez de ficarem de olho no petróleo", alertou.
Poucos dias depois na altura, o general Sani Abacha estabeleceu uma ditadura cruel na Nigéria. Passados dois anos, o ativista Saro-Wiwa morreu – assim como mais oito ativistas, conhecidos como os "”. Na opinião dos seus apoiantes, eles foram assassinados por um sistema corrupto que queria continuar a lucrar com a riqueza do petróleo.
Nnimmo Bassey, hoje um dos ativistas ambientais mais renomados do delta do Níger, descreve-o como um "homem corajoso e altruísta".
"Era um visionário. Era também muito altruísta. Não lutava por si próprio. Lutava pelo seu povo. E lutava por um leque de pessoas mais alargado do que o seu próprio povo, porque internacionalizou toda a luta", qualifica.
Shell
Na década de 1950, a Shell, então ainda uma empresa petrolífera neerlandesa, encontrou petróleo no delta do Níger. Foi o início de uma longa história de destruição – contra a vontade da etnia Ogoni que vivia na região.
A poluição tornou-se visível: a água deixou de ser potável e grandes áreas deixaram de ser utilizáveis para a agricultura. Décadas de protestos por parte dos representantes dos Ogoni não surtiram efeito.
A resistência ganhou novo impulso quando o intelectual Ken Saro-Wiwa, que se tinha tornado conhecido como autor e ator de teatro, fundou em 1990 o Movimento para a Sobrevivência do Povo Ogoni. O MOSOP reuniu a população e argumentou que as atividades da Shell estavam a destruir o ambiente na região.
Bassey explica numa entrevista à DW que Saro-Wiwa usava termos que outros evitavam: "E então ele foi muito específico sobre o que estava a exigir e usou certas terminologias que as pessoas, você sabe, gostam de ser mais politicamente corretas. Mas ele simplesmente chamou o que estava a acontecer de genocídio ambiental contra o povo Ogoni".
Em maio de 1994, quatro líderes ogoni foram assassinados. O Governo considerou Saro-Wiwa e outros oito líderes ogoni como culpados. os "9 Ogoni" foram condenados à morte num julgamento e enforcados a 10 de novembro de 1995.
Reversão dos danos?
O papel exato da Shellneste caso nunca foi totalmente esclarecido. Em 2009, a petrolífera pagou um total de 13 milhões de euros aos familiares dos Ogoni 9. A Shell salientou que se tratava de um "gesto humanitário" e não de uma admissão de culpa.
Em 2011, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente publicou a primeira análise científica da poluição ambiental, que confirmou que a exploração de petróleo tinha realmente causado um desastre ecológico.
Em 2016, o então presidente Muhammadu Buhari seguiu a recomendação das Nações Unidas: criou um programa de milhares de milhões para a recuperação do Delta do Níger e prometeu reverter os danos e restaurar os ecossistemas.
30 anos após a morte dos Ogoni 9, o clima continua sombrio. Nem mesmo uma declaração feita em junho deste ano mudou isso: o governo anunciou o perdão de Ken Saro-Wiwa e seus oito companheiros, que receberam altas honras nacionais.