Fotojornalista detido em Cabo Delgado promete ação contra militares | Moçambique | DW | 19.12.2018
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Moçambique

Fotojornalista detido em Cabo Delgado promete ação contra militares

O fotojornalista Estácio Valói disse à DW que, junto com o pesquisador David Matsinhe e o seu assistente, pretendem processar os militares que os detiveram por dois dias na província de Cabo Delgado, em Moçambique.

Estácio Valói teve os seus equipamentos confiscados pelos militares

Estácio Valói teve os seus equipamentos confiscados pelos militares

Em Moçambique, o fotojornalista Estácio Valói, o pesquisador David Matsinhe e o seu assistente foram libertados nesta terça-feira (18.12) à tarde. Os três estiveram sob custódia militar por cerca de 48 horas na província nortenha de Cabo Delgado, depois de terem estado a trabalhar na região entre os distritos de Palma e Mocímboa da Praia.

Entretanto, o equipamento de trabalho e os telemóveis apreendidos pelos militares não lhes foram devolvidos. Os visados ponderam entrar com uma ação contra a brigada militar em causa por violação dos seus direitos.

DW África: Pode nos narrar as circunstância em que foram detidos?

Estácio Valói (EV): Fomos detidos em emboscada pelas Forças de Defesa Nacional, isto a 15 quilómetros de Palma, na estrada principal. Quando nos aproximamos, um grupo de mais de 20 militares mandaram-nos parar, apontando as armas todas, vieram cá e mandaram-nos sair de forma agressiva: "Saiam do caro, saiam do carro! Estávamos à vossa procura. Temos ordens dos nossos superiores, os mesmos que disseram que vocês poderiam ir a Chitolo, são os mesmo que disseram para que nós vos interpelássemos aqui”. Tinham armamento por todo lado. Cercaram o carro e tivemos que descer. A primeira coisa que eles disseram foi "mostrem as vossas câmeras; onde é que estão os vossos computadores?”.

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Moçambique: Fotojornalista detido promete ação contra militares

Foram diretamente às minhas câmeras, confiscaram também o meu computador. Na mesma altura, ainda tínhamos os telefones nas mãos, exibíamos a credencial, a qual entregamos a eles. Ao mesmo tempo, vinha outro batalhão com mais de 30 militares e por detrás deles vinha o comandante-geral daquela área num dos blindados. Quando ele chegou, o cenário piorou. Disse-nos: "Vocês são pessoas não bem-vindas”. A seguir, dois militares entraram no nosso carro, porque estava eu, o David Matsinhe, da Amnistia Internacional, mais um assistente nosso, que é também o motorista. Levaram-nos dali de volta à Escola Primária de Quelimane. Quando lá chegamos, voltaram-se para nós e disseram que tínhamos que mostrar o que estava nos telefones. Nós recusamos e um dos capitães veio e disse: "Aqui vocês não têm direito nenhum. Vamos retirar todos os vossos direitos. É bom que nos deem as passwords dessas máquinas todas, caso contrário, aqui nós não brincamos com ninguém”. Ele continuou: "Aqui vocês vão morrer, porque esta zona está sob nossa proteção. Vão morrer e não vão saber como é que morreram e porque é que morreram”.

DW África: A informação que nos chegou através da imprensa e das agências de informação indica que Estácio Valói viajou na companhia de três jornalistas estrangeiros. Confirma isso?

EV: Não são exatamente três jornalistas estrangeiros. O único jornalista que lá estava sou eu. Temos o investigador da Amnistia Internacional, que é o David Matsinhe, e um dos nossos assistentes, que é motorista. Éramos nós três.

DW África: Sabe se o Matsinhe tinha autorização para fazer pesquisas para a Amnistia Internacional?

EV: O Matsinhe tinha autorização para fazer pesquisa a convite do Centro de Jornalismo de Investigação de Moçambique. Nós não fomos lá para fazer um trabalho para a Amnistia Internacional. O doutor Matsinhe é um académico, um pesquisador na área social. Então, como nós viemos olhar para a área social, achamos melhor convidá-lo para que se juntasse ao Centro de Jornalismo de Investigação de Moçambique, ao qual ele atendeu e veio cá e fomos juntos fazer isso.

DW África: A título pessoal, não em nome da Amnistia Internacional?

EV: Sim, veio a título pessoal, sim. Não em nome da Amnistia Internacional.

DW África: Os vossos equipamentos não vos foram devolvidos, que medidas tomaram visando a recuperação desse material?

EV: Temos alguns advogados que vão entrar em contato com o Ministério do Interior, porque foi isso o que eles disseram: "Querem o vosso equipamento? Vão ter que esperar. Contatem o Ministério do Interior”. Ou seja, o mesmo Ministério do Interior que nos autorizou a entrar em Chitolo. Então agora estamos nesse processo todo.

DW África: Face a esta atuação duvidosa das Forças de Defesa e Segurança, têm intenção de entrar com uma ação contra esses militares?

EV: Essa é uma questão que não podemos descurar. Sim, nós vamos entrar com uma ação contra estes militares, porque achamos que estamos num Estado de direito. Muito mais além do que é a liberdade de imprensa é a de expressão. E o tratamento que nós tivemos foi de ameaça de morte.

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