A luta de sindicatos africanos contra multinacionais da China | Internacional – Alemanha, Europa, África | DW | 27.08.2018

Conheça a nova DW

Dê uma vista de olhos exclusiva à versão beta da nova página da DW. Com a sua opinião pode ajudar-nos a melhorar ainda mais a oferta da DW.

  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Internacional

A luta de sindicatos africanos contra multinacionais da China

Estradas, linhas férreas, pontes: as multinacionais chinesas constroem infraestruturas um pouco por todo o lado em África. Mas há empresas que têm fama de más empregadoras. O trabalho dos sindicatos não é fácil.

O sindicalista queniano Joe Macharia diz que foi preciso muita firmeza para fazer com que uma gigante da construção chinês se sentasse à mesa de negociações.

Macharia e os colegas do Sindicato dos Trabalhadores da Construção e da Madeira do Quénia passaram meses a fio a tentar chegar a acordo com a empresa China Communications Construction Company (CCCC) sobre salários, horários de trabalho e direito a férias. A CCCC não é uma multinacional qualquer: está a construir a nova linha de caminho-de-ferro que ligará a cidade costeira de Mombasa à fronteira com o Uganda, o maior projeto de infraestruturas desde a independência do Quénia.

Salários baixos, trabalhadores sem contrato

"Negociar acordos coletivos de trabalho com empresas chinesas foi a tarefa mais difícil na minha carreira", afirma o líder sindical em entrevista à DW. "Passámos por longos processos, batalhas judiciais e greves em várias empresas para que a administração se sentasse à mesa para negociar."

A luta compensou. Este ano, o salário mínimo estatal aumentou 5%, enquanto os salários dos trabalhadores abrangidos pelo acordo negociado pelo sindicato aumentaram 9%.

Kenia chinesische Investitionen in die Eisenbahnstrecke Mombasa-Nairobi

Empresas chinesas constroem a nova linha férrea entre Mombasa e a fronteira com o Uganda

Há cerca de 2.000 empresas chinesas com negócios em África. A construção de infraestruturas - pontes, linhas férreas e portos - tornou-se uma especialidade da China. Mas as relações destas empresas com os seus trabalhadores têm sido alvo de críticas. "Elas não conhecem as leis laborais e não entendem os trabalhadores. Há uma série de disputas entre os empregadores chineses e os trabalhadores quenianos", comentou a representante dos patrões no país, Jacqueline Mugo, num artigo publicado no jornal económico "Business Daily". Segundo Mugo, muitas empresas chinesas não pagam sequer o salário mínimo nacional. Um estudo da empresa de consultoria McKinsey revela que quase metade dos quenianos a trabalhar empresas chinesas não tem contrato de trabalho.

Em alguns casos, a situação melhorou com a ajuda dos sindicatos. Ao todo, empresas chinesas já assinaram cerca de 80 acordos coletivos de trabalho no continente africano, e cerca de 50.000 trabalhadores locais estão inscritos em sindicatos, segundo o investigador alemão Bastian Schulz: "Se olharmos para o conjunto da população ativa, pode não ser muito, mas é um começo. Sobretudo, é um começo num contexto político em que não se esperaria que os sindicatos agissem de forma inovadora", diz.

Ouvir o áudio 03:03

A luta de sindicatos africanos contra gigantes chinesas

Medo de má imagem

Grande parte dos sindicatos no continente africano tem pouca força: têm poucos membros, pouco dinheiro e poucos especialistas em negociações salariais, pelo menos em comparação com as multinacionais.

Ainda assim, alguns sindicatos aprenderam a lidar com as empresas chinesas e jogam com o interesse da China em manter uma boa imagem.

"Essa é, para mim, uma das inovações dos sindicatos na Namíbia, no Quénia ou em parte na Etiópia", afirma Schulz, que trabalha para a fundação alemã Friedrich Ebert, ligada ao Partido Social-Democrata (SPD), em Joanesburgo. "Os sindicatos foram às embaixadas e contaram como é que as empresas se comportam, e, assim, criaram pressão." Quando isso não chega, os sindicatos recorrem a greves. Só em 2016, houve 66 greves em empresas chinesas espalhadas pelo continente.

Mas ainda não há acordos salariais abrangentes. Joe Macharia diz, por exemplo, que o seu sindicato já assinou acordos com sete empresas, mas continua a tentar ser reconhecido como representante dos trabalhadores para as negociações laborais com outras 32.  E não é só: "Se, no futuro, forem atribuídos projetos de infraestruturas a mais empresas chinesas, os desafios serão muito maiores", prevê Macharia.

Leia mais