2022: O que perspetiva a ONU para Angola, Moçambique e Cabo Verde? | NOTÍCIAS | DW | 16.01.2022

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NOTÍCIAS

2022: O que perspetiva a ONU para Angola, Moçambique e Cabo Verde?

Economia de Angola não deverá recuperar da pandemia até 2023, em Moçambique, diz a UNDESA, a prioridade, este ano, deveriam ser as reformas estruturais. E Cabo Verde deve diversificar economia para além do turismo.

Em entrevista à agência Lusa, na sequência da divulgação, na semana passada, do relatório da ONU sobre a Situação e Perspetivas Económicas Mundiais deste ano, a economista que segue as economias lusófonas africanas, Helena Afonso, perspetiva o ano de 2022 em Angola, Moçambique e Cabo Verde.

Neste relatório, o Departamento das Nações Unidas para Assuntos Económicos e Sociais (UNDESA) melhorou a estimativa de crescimento para as economias africanas, antevendo uma expansão de 3,8% no ano passado e uma aceleração para 4% este ano.

Os países lusófonos não são exceção, apesar dos valores do crescimento na economia diferirem de país para país. Segundo Helena Afonso, apesar de em Angola ser esperado, em 2022, um crescimento económico, o país vai continuar abaixo dos níveis anteriores à pandemia de covid-19 até 2023.

Ainda assim, "este ano Angola deverá crescer 2,4%, fruto de maiores receitas petrolíferas tanto pelo lado dos preços, como da produção, e de maior estabilidade macroeconómica, que incentivará o investimento", afirma.

O segundo maior produtor de petróleo na África subsaariana "enfrenta o maior surto de covid-19 desde o início da pandemia, devido à variante Ómicron, e esta e outras potenciais ondas de infeção vão continuar a limitar a recuperação do consumo e do investimento até o país chegar a níveis de vacinação que permitam a imunidade de grupo, que é improvável em 2022, dado que apesar dos muitos progressos desde setembro, só há 13% da população completamente vacinada".

Relativamente à inflação, a previsão do UNDESA aponta para uma subida dos preços à volta de 20%, o que "erode os rendimentos das pessoas e reduz o consumo, mas modera face ao pico do ano passado devido à menor depreciação do kwanza, redução do IVA e uma política monetária menos acomodativa", disse a economista.

Reformas em Moçambique

Em Moçambique, defende a economista da ONU, são necessárias reformas estruturais para acelerar o crescimento de 3,8% previsto para 2022.

"A economia cresce de forma frágil e excessivamente concentrada no setor extrativo, e apesar de a prioridade ser gerir os efeitos da pandemia e resolver a insegurança em Cabo Delgado, a médio prazo são necessárias reformas estruturais nas infraestruturas para melhorar o crescimento e sustentar a recuperação económica", explica Helena Afonso.

Präsident von Mosambik besucht Militärstützpunkt

Em Moçambique, apesar de a prioridade ser gerir os efeitos da pandemia e a insegurança em Cabo Delgado, são necessárias reformas estruturais, defende a UNDESA

Moçambique deve ter crescido 2,1% em 2021 e o UNDESA prevê uma aceleração para 3,8% este ano, "fruto do aumento da produção de gás natural, exportações de carvão e alumínio e projetos de infraestruturas em mineração e energias".

No entanto, acrescenta a economista, o país enfrenta "pressões inflacionárias relativamente fortes devido ao preço das matérias-primas importadas, como os combustíveis, disrupções nas cadeias de abastecimento, mas poderá haver um desenvolvimento do gás e alguma retoma do consumo privado, contando com diminuições nas restrições de combate à pandemia, com a vacinação a avançar".

Sobre a questão da dívida pública e dos impactos das 'dívidas ocultas', Helena Afonso considera que "o país ainde sente os efeitos dos problemas da dívida de 2016, que tem limitado o investimento públicos", mas aponta que "os doadores internacionais regressaram ao envolvimento com Moçambique dadas as necessidades da pandemia e o conflito no norte".

Para além da insegurança, também as alterações climáticas são um dos principais riscos identificados pela UNDESA em Moçambique: "Outro risco importante são as tempestades tropicais, que se têm intensificado e ficado mais destrutivas devido às mudanças climáticas", concluiu Helena Afonso.

Diversificar as receitas em Cabo Verde

Em Cabo Verde, apesar de ser notória já uma recuperação dos anos de pandemia, Helena Afonso defende que é necessário diversificar as fontes de receitas fiscais no país.

"Cabo Verde deverá crescer 5% este ano, contando com um levantamento progressivo das restrições às viagens, maior vacinação a nível global, mas também contando com o crescimento de outras exportações, em linha com o crescimento da procura de parceiros europeus e recuperação em setores como agricultura, construção e transportes. No entanto, não será suficiente para chegar ao nível de 2019 devido à enorme recessão de quase 15% em 2020 e crescimento de apenas 3,8% em 2021", disse.

Kapverden Coronavirus Einbruch Tourismus

UNDESA diz que é necessário diversificar fontes de receitas fiscais em Cabo Verde

À Lusa, a mesma economista, afirmou que "com uma dívida pública acima de 150% do PIB, o crescimento será importante para manter a sustentabilidade da dívida, mas é importante mitigar os efeitos económicos e sociais da pandemia e, a médio prazo, diversificar a economia para lá do turismo e gerar receitas de mais fontes".

Cabo Verde está a assistir ao regresso dos turistas, mas ainda assim "a um nível muito abaixo de antes da pandemia", o que é especialmente preocupante para um país que tinha, em 2019, cerca de 40% do PIB dependente do turismo.

"O setor é um dos pilares da economia, valia 40% em 2019, agora vale 25%, e está numa recuperação lenta e incerta, com progressos na vacinação, com quase metade da população completa, e isso é muito encorajador porque está claramente acima da média em África", diz Helena Afonso, acrescentando, ainda assim, que "a variante Ómicron trouxe um aumento de casos e atrasou a recuperação do turismo e de outros setores, pelo que a recuperação económica é incerta, até porque não se pode excluir a possibilidade de surgirem novas variantes em 2022".

Dependência do turismo

No relatório publica a semana passada, a UNDESA alerta que o regresso dos turistas ao nível registado antes da pandemia de covid-19 só deverá acontecer "muito possivelmente" em 2024.

"As economias dependentes do turismo em África têm perspetivas positivas de evolução, embora a base seja bastante baixa, impulsionadas pelo abrandamento das restrições às viagens e à recuperação económica nos mercados de origem, na Europa e na Ásia, bem como devido à maior confiança para viajar associada com o sucesso das medidas de contenção e taxas de vacinação relativamente altas, como existe em Cabo Verde, Ilhas Comores, Maurícias, Marrocos, São Tomé e Príncipe e Tunísia", diz a ONU.

Na parte do relatório que diz respeito a África, o UNDESA alerta ainda que, "no entanto, as chegadas de turistas não deverão regressar aos níveis de 2019 antes de 2023 e, muito possivelmente, 2024".

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