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África do Sul: Os impactos do regresso forçado a Moçambique

1 de julho de 2026

Académico alerta que o regresso de milhares de migrantes da África do Sul, forçado pela atual onda de xenofobia no país, pode agravar a pobreza e pressionar serviços públicos em Moçambique, dificultando a reintegração.

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Cidadãos do Zimbábue fazem fila com os seus pertences enquanto aguardam para embarcar num autocarro na Cidade do Cabo, África do Sul
Várias comunidades de imigrantes na África do Sul já foram repatriadas pelos próprios paísesFoto: Rodger Bosch/AFP

Milhares de pessoas marcharam esta terça-feira (30.06) em cidades de toda a África do Sul para exigir a saída de cidadãos estrangeiros sem documentação. Os protestos são o culminar de uma série de manifestações promovidas por uma coligação informal de pequenos partidos políticos e grupos de vigilância organizados por cidadãos, que estabeleceram, de forma não oficial o dia 30 de junho como prazo para que os estrangeiros sem documentos deixassem o país.

O Governo moçambicano admitiu que enfrenta desafios relacionados com o repatriamento e a reintegração de cidadãos nacionais vítimas de xenofobia no país vizinho, onde nove moçambicanos foram mortos e mais de 700 repatriados devido aos recentes ataques.

Em entrevista à DW Baltazar Muianga, chefe do departamento de Sociologia na Faculdade de Letras e Ciências Sociais, na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, considera que o regresso de milhares de moçambicanos da África do Sul pode ter impactos económicos e sociais significativos no país, com a redução das remessas a agravar a pobreza. Além disso, a reintegração dos regressados pode ser difícil, sobretudo para aqueles que voltam sem poupanças ou emprego.

Baltazar Muianga, chefe do departamento de Sociologia na Faculdade de Letras e Ciências Sociais, na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo
Baltazar Muianga: "O regresso dos imigrantes moçambicanos provenientes da África do Sul poderá ter impactos significativos para Moçambique"Foto: Baltazar Muianga/DW

DW África: No seu ponto de vista, o que está a acontecer na África do Sul? Trata-se de racismo, de xenofobia, ou de um misto dos dois fenómenos?

Baltazar Muianga (BM): Eu acho que estamos diante da xenofobia, embora alguns autores não concordem muito com a ideia de que o africano pode ser estrangeiro em África.

DW África: E esse fenómeno da xenofobia é resultado de que fatores?

BM: Na verdade, é resultado de uma complexidade de fatores, como migração, desigualdades sociais e económicas que ocorrem praticamente em toda a África. Para muitos africanos, a África do Sul sempre foi e tornou-se um sonho devido ao seu poderio económico e é por isso mesmo que tem atraído muitas pessoas pobres que buscam melhorar a sua condição social. Podemos dizer que a xenofobia pode ser associada também às expectativas que foram criadas após o fim do apartheid e com a transição da democracia.

Embora se esperasse uma melhoria significativa das condições de vida da população negra, grande parte dos grupos socialmente mais vulneráveis continuou e continua a enfrentar elevados níveis de pobreza, desemprego e exclusão social na África do Sul. A frustração faz com que os imigrantes sejam responsabilizados pelos problemas socioeconômicos da África do Sul e isto vai alimentar práticas xenófobas.

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DW África: Acha possível que ocorram manifestações de xenofobia também em Moçambique, uma vez que Moçambique também recebe imigração? Ou será que a sociedade moçambicana ainda está imune a este tipo de fenómenos?

BM: Em Moçambique não temos tido práticas xenófobas. Claro que há muitos imigrantes vindo dos Grandes Lagos, Nigéria, Burkina Faso, Ruanda, que vêm cá instalar as suas pequenas empresas e, sobretudo, reforçando o setor informal. Eu acho que ainda não existe uma aflição, pelo menos manifesta, de moçambicanos contra os estrangeiros da forma como está a ocorrer na África do Sul. Acho que ainda estamos um pouco distantes de práticas xenófobas no contexto moçambicano.

DW África: O político moçambicano Venâncio Mondlane afirmou que não se pode responsabilizar apenas a África do Sul pela atual onda de xenofobia, apontando também falhas na gestão da imigração no continente. Concorda?

BM: Eu acho que faz muito sentido traçar-se novas políticas migratórias. Enquanto as fronteiras continuarem permeadas, vai ser muito difícil travar a xenofobia.

DW África: E qual o impacto que os acontecimentos atuais poderão ter na sociedade moçambicana com o retorno de muitos milhares de imigrantes que viviam na África do Sul e agora terão que ser recebidos em Moçambique?

BM: O regresso dos imigrantes moçambicanos provenientes da África do Sul poderá ter impactos significativos para Moçambique. Do ponto de vista económico, a redução das remessas enviadas pelos imigrantes poderá diminuir o rendimento de muitas famílias, agravando a pobreza e, sobretudo, reduzindo o consumo. No plano social, o retorno de um grande número de imigrantes poderá aumentar a procura por serviços públicos, como saúde, educação, habitação e assistência social e, dessa forma, poderá sobrecarregar a capacidade do Estado. E eu acho que também pode-se aliar à dificuldade que poderá advir na reintegração social e económica dos retornados ou dos imigrantes, especialmente aqueles que regressam sem poupanças ou sem coordenadas de emprego.

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