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Leis e JustiçaAlemanha

Estado deveria investigar crimes sexuais da Igreja católica

Gak Martin Kommentarbild App
Martin Gak
29 de janeiro de 2022

Relatório revelando novas centenas de abusos de crianças por eclesiásticos na Alemanha confirma: se em alguma época a Igreja teve autoridade moral para se autopoliciar e punir, esse tempo já vai longe, opina Martin Gak.

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Padres andando em nave de igreja
Foto: Julie Sebadelha/ABACAPRESS/picture alliance

Passaram-se 20 anos desde a reportagem do Boston Globe sobre abuso sexual infantil por membros da arquidiocese da Igreja católica da cidade americana de Boston. O tempo passado só ampliou o catálogo de horrores, com incontáveis casos de crianças vítimas de abuso pelas mãos da Igreja, por todo planeta.

Ano após ano, os números crescem, as vítimas seguem exigindo reparação, e gradativamente o público ficou anestesiado para a dimensão dos crimes. Esporadicamente, um novo relato, como o de 21 de janeiroúltimo, em Munique, irrompe à vista, lançando mais luz sobre a escala dos abusos.

O mais recente relatório acrescenta 500 vítimas da arquidiocese de Munique e Freising, entre 1945 e 2019, às mais de 3.500 em todo o país, reveladas em 2018, num explosivo relatório da Igreja católica.

Na Irlanda, 9 mil crianças, mortas em circunstâncias incertas nas famigeradas mother and baby homes, foram sepultadas em covas anônimas. O disseminado abuso infantil nos internatos do Canadá resultaram em pelo menos 6 mil mortos, muitos dos quais encontrados em sepulturas anônimas. Na França, em 2021 um estudo revelou que eclesiásticos abusaram de mais de 300 mil menores.

Conspiração do silêncio

Mas não é apenas o abuso em si que torna tão profundamente revoltante o histórico dos crimes sexuais contra menores de idade: com seu ritmo de reforma escandalosamente lento, a Igreja tem se demonstrado indisposta a convidar autoridades nacionais para investigarem.

Sua conspiração institucional de silêncio – auxiliada pelo sigilo da confissão, pela recusa de divulgar os dossiês dos casos ou de entregá-los às autoridades – parece agora confirmada pelas revelações do relatório de Munique e Freising, que envolveu o papa Bento 16, na época arcebispo Joseph Ratzinger, em quatro casos de pedofilia.

Altos membros da Igreja católica auxiliaram e acobertaram crimes contra crianças. O que se sabe agora é que o ex-pontífice sabia dos delitos, ajudou a transferência de pelo menos um culpado e depois forneceu informações falsas a respeito. O detalhe mais brutal de todos é que se tratava do mesmo homem que ficaria responsável pelo esclarecimento e reparação de crimes passados e prevenção de futuros.

Por mais pateticamente débil e inconsistente que tenha sido a reação das autoridades eclesiásticas, ela bem conseguiu prevenir uma intervenção política decidida por parte das autoridades nacionais de praticamente todo mundo. Diante desses repetidos contos de horror, a Igreja não tem sido capaz de apresentar mais do que expressões de contrição e alguns ajustes cosméticos de sua política interna.

Nesse contexto, cabe citar a recusa da Conferência Episcopal Espanhola, tanto de criar uma comissão para investigar casos de abuso sexual, quanto de permitir que instâncias externas se encarreguem. Em resposta a uma reportagem do jornal El País, detalhando pelo menos mil presumíveis ocorrências, o presidente do órgão, cardeal Juan José Omella, previsivelmente expressou "dor profunda" pelas vítimas, acrescentando que cada diocese seria responsável por "coletar as queixas e acompanhar as pessoas que sofreram".

Responsabilidade política negligenciada

Sem perceber, o cardeal Omella ilustra justamente a questão que as instituições públicas e estatais têm que encarar: os líderes eclesiásticos parecem crer que ainda possuem autoridade moral para se autopoliciar. De fato: na Espanha, agora, desafiando o peso político da Igreja católica no país e com respaldo do governista Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), um grupo de parlamentares apresentou um projeto para formação de uma comissão legislativa com a função de investigar crimes sexuais alegadamente cometidos por religiosos contra crianças.

O que a revelação de Munique mostra, é que tem sido uma falha instituições políticas, como governos, tribunais e polícia, permitirem que a Igreja investigue, julgue e, no fim das contas, puna a si mesma. De fato: não é só uma falha, mas também uma total subversão de qualquer noção de justiça num Estado democrático. Mais importante ainda: trata-se de uma gritante negligência dos deveres cívicos e políticos.

É vital não supormos que a questão em debate se refira apenas a crimes comitidos longo tempo atrás. Sem dúvida, justiça para vítimas passadas é importante. Porém o assunto mais premente é a situação nas igrejas, repartições e escolas neste momento mesmo. O tempo de confiar na boa vontade da Igreja em salvaguardar aqueles sob sua tutela, ou em fornecer uma avaliação sincera de suas próprias imperfeições, há muito se foi.

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Martin Gak é jornalista da DW. O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente da DW.